terça-feira, 14 de março de 2017

Um protestante aprende a rezar o terço


Trecho do relato do teólogo Scott Hahn a respeito de sua conversão à fé católica, tirado de seu livro "Todos os Caminhos Levam a Roma".

(...)

Alguém me mandou um terço de plástico. Ao ver aquelas contas senti que me enfrentava com o obstáculo mais forte de todos: Maria (os católicos não fazem a menor idéia de como é duro para os protestantes aceitarem as doutrinas e devoções marianas). Mas eram já tantas as doutrinas da Igreja Católica que se tinham mostrado solidamente baseadas na Bíblia, que decidi dar um passo de fé nesse ponto.

Fechei-me no escritório e rezei silenciosamente: "Senhor, a Igreja Católica demonstrou estar na verdade em noventa e nove por cento dos casos. O único grande obstáculo que ainda subsiste é Maria. Peço-te perdão de antemão se o que vou fazer te ofende... Maria, se és apenas metade do que a Igreja Católica diz que és, por favor, apresenta a minha petição - que parece impossível - ao Senhor mediante esta oração".

Rezei então pela primeira vez o terço.

Voltei a rezá-lo muitas outras vezes pela mesma intenção ao longo da semana seguinte, mas depois esqueci-me do assunto. Três meses mais tarde me dei conta de que desde o dia em que tinha começado a rezar o terço aquela situação aparentemente impossível se tinha alterado completamente. A minha petição tinha sido ouvida!

Senti-me muito envergonhado pelo meu esquecimento e ingratidão. Nesse momento agradeci a Deus a sua misericórdia e voltei a utilizar o terço, que não deixei de rezar desde esse dia. É uma oração poderosa, uma arma incrível, que ilumina o escândalo da Encarnação: o Senhor elegeu uma humilde virgem camponesa e elevou-a para ser aquela que daria a natureza humana sem pecado à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, para que pudesse tornar-se nosso Salvador.

Pouco depois recebi um telefonema de um velho amigo da universidade. Tinha ouvido dizer que eu andava namorando com a "prostituta da Babilônia" *, como ele mesmo disse. Não poupou palavras.

- Quer dizer que você já adora Maria, não é, Scott?

- Escute, Chris, você sabe muito bem que os católicos não "adoram" Maria; simplesmente a veneram.

- E qual é a diferença, Scott? Nenhuma das duas coisas tem base bíblica.

Não sabia o que dizer. De terço na mão, invoquei Maria para que me ajudasse. Revigorado, respondi:

- Olhe que pode ter uma surpresa.

- Ah é? Por quê?

Comecei a dizer a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Realmente é muito simples, Chris. Simplesmente recorde dois princípios bíblicos básicos. Primeiro: você sabe que, como homem, Jesus Cristo cumpriu à perfeição a lei de Deus, incluindo o mandamento de honrar pai e mãe. A palavra hebréia para honrar, kabodah, significa literalmente "glorificar". Ou seja que Cristo não só honrou o seu Pai celeste, como também honrou perfeitamente a sua mãe terrena, Maria, outorgando-lhe a sua própria glória divina. O segundo princípio é ainda mais simples: a imitação de Cristo. Imitamos Cristo não só honrando as nossas próprias mães, como também honrando aqueles que Ele honra, e com o mesmo tipo de honra que Ele lhes dá.

Seguiu-se uma longa pausa antes que Chris dissesse:

- Nunca tinha ouvido as coisas apresentadas desse modo.

Para ser franco, eu também não.

- Chris, isso é apenas um resumo do que os Papas têm dito ao longo dos séculos sobre a devoção a Maria.

Chris voltou ao ataque:

- Uma coisa são os Papas, mas onde é que isso aparece na Escritura?

Respondi instintivamente:

- Chris, Lucas 1, 48 diz: "De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada". É isso que faz o terço, cumprir a Escritura.

Seguiu-se outra longa pausa, antes de Chris mudar rapidamente de tema.

A partir de então, senti que a recitação do terço me ajudava a aprofundar na minha própria compreensão da Bíblia. A chave era, obviamente, a meditação dos quinze mistérios; mas também me dei conta de que a própria oração confere uma certa perspicácia teológica para considerar todos os mistérios da nossa fé de acordo com algo que ultrapassa muito -  mas não se opõe - a capacidade racional do intelecto: é o que alguns teólogos designaram como "a lógica do amor".

Descobri pela primeira vez essa "lógica do amor" ao contemplar a Sagrada Família em Nazaré, modelo de todo lar. A Sagrada Família, por sua vez, apontava para a Aliança e, em última instância, para a própria vida íntima de Deus como eterna Sagrada Família: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esta belíssima e convincente visão começou a encher o meu coração e a minha mente...
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* - palavras pejorativas com as quais alguns protestantes se referem à Igreja Católica.

segunda-feira, 13 de março de 2017

São José

Alisson Oliveira. cm

São Mateus o chama e define também: —O Justo. Joseph cum esset justas... José como era justo...
Não simplesmente a virtude cardeal da justiça porém muito mais amplo a virtude em grau sublime e
heroico jamais visto ou alcançado (depois de Maria Ssma) de se conformar a Lei de Deus.
“José é chamado de Justo porque tem a perfeição de todas as virtudes”
São Jerônimo, Homilia 3, in Luccam.
O MAIOR DOS SANTOS
Depois de Maria, José. É sem dúvida o maior dos santos, pois recebeu de Deus maiores graças e
desempenhou a maior e mais sublime missão na terra. Pai adotivo do Filho de Deus humanado e esposo
da Mãe de Deus. Poderia alguém na terra, depois de Maria excedê-lo na gloria da santidade? Quem
teve maior e mais sublime missão a cumprir na terra?
Sem dúvida, dos sete dons do Espirito Santo, os que São José mais deve ser exercitado, em razão
de sua função, foram o dom do conselho e o da fortaleza, para dirigir, governar e defender a Sagrada
Família entre tantas privações e adversidades, sem perder de vista um só momento o supremo sacrifício
da Cruz.

S. José excede a dignidade dos Apóstolos. Estes foram ministros e dispensadores dos mistérios de
Deus, vasos de eleição, colunas da fé, mensageiros da palavra divina. S. José foi maior que Moises em
santidade, a São João Batista, S. Pedro e S. Paulo, bem como também aos maiores mártires e doutores
da Igreja. Nenhum santo teve como Ele privilégios tão singulares e viveu mais unido a Deus e mais
abrasado na Divina Caridade. Pelas relações com Jesus e Maria Santíssima é o maior dos santos, e
precede a todos os eleitos no culto que lhe prestamos.
Pai adotivo de Jesus
A maior glória de São José, a mais rica pérola do seu coroa, o título e privilégio que o faz o maior
dos Santos é o de Pai do Filho de Deus humanado. Todos os Santos, se gloriam de serem chamados
servos de Deus, servos de Jesus Cristo. São José, e só ele, foi chamado Pai do Salvador, Pai de Jesus
Cristo. Entre os títulos de glória do Santo, este é sem dúvida o maior.
Os nazarenos, diz o Evangelista, tinha José por pai de Jesus. Assim dizia e julgava o povo
ignorante do adorável mistério da Encarnação do Verbo. Os Evangelistas, que narraram e conheceram
o mistério da Encarnação e a Divindade de Jesus, chamavam a José pai de Jesus. E Jesus mil vezes o
havia de chamar Pai, e a ele esteve sujeito e obediente trinta anos desde Belém.
São José, pois, é e deve ser chamado Pai de Jesus, Pai virginal, não Pai carnal, Pai putativo,
genealógico, jurídico ou legal, adotivo, eletivo, nutrício, virginal, afetivo e de ofício de Jesus Cristo e
segundo a geração humana, porque Maria Imaculada concebeu, e foi Mãe de Jesus por obra e graça do
Espírito Santo. Eis a sua glória: Pai de Jesus.
Qual graça extraordinária para o São José de ver, dar ordens e prover tudo daquilo que Nosso
Senhor necessitava... Ah que graça extraordinária, S. José de que como por um véu, não brilhar como
o Sol do meio dia na Terra, a exemplo de Moisés (Ex 34, 29-35) ao descer do monte com as tábuas da
Lei nas mãos, brilhava a sua face que os hebreus nem conseguiam olhar para ele.
O esposo virginal de Maria Santíssima
“ José, filho de Davi, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa” Mt 1,20.
“José... fez como lhe tinha mandado o anjo do Senhor, e recebeu em sua casa Maria, sua
esposa” Mt 1,24.
Foi José verdadeiro e legítimo esposo de Maria, de um matrimônio, perfeitamente virginal,
maravilhosamente fiel, milagrosa e infinitamente fecundo.
E formou São José semelhante a Maria. José foi formado à semelhança da Virgem, sua esposa. O
céu, escolheu a São José como o único digno de um tal tesouro: —Maria.
Para ser esposo da Mãe de Deus, que pureza e que santidade não havia de ter São José! E se Deus
o escolheu entre os homens o mais semelhante à mais perfeita das criaturas, sua santíssima Esposa.
Para lembrar os dois títulos de maior glória que o tornam o maior e o mais singular dos Santos — Pai
adotivo de Jesus Cristo e Esposo de Maria Imaculada.
E aqui fica a resposta à pergunta: Quem é São José? Virum Mariae de quanatus est Jesus. — É o esposo
de Maria, diz o Evangelista, da qual nasceu Jesus.
São José, príncipe da casa real de Davi
São José era da nobre estirpe, como nos relata os Evangelhos de S. Mateus 1, 1-17 e S. Lucas 3, 23-28. “Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias. Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa. Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão... Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. S. Mateus 1, 1-17


“ não era apropriado que o Rei dos reis convivesse, na sua intimidade, com quem não fosse nobre nem de espirito e de sangue. Não convinha que Aquele a Quem servem milhões de anjos escolhesse como pai adotivo alguém que não fosse de nobre linhagem, nem que a Virgem, escolhida como Mãe de Deus, á qual prestam homenagem todos os habitantes da Jerusalém terrestre, fosse casada com homem de origem plebeia”. Suma dos dons de São José.
Segundo São Mateus mostra as gerações de Davi até Cristo, mudando assim em S. José para indica-lo como pai adotivo e não carnal de Nosso Senhor.
Assim as promessas a dinastia de Davi, na qual S. José tem a glória de pertencer, a um título muito especial: foi o último e não menor e transmitiu a Nosso Senhor a herança davídica.
Prefiguração no Antigo Testamento
Uma das figuras mui própria, em que os Santos Padres reconhecem haver sido misteriosamente representado São José, foi o antigo Patriarca José, Vice-rei do Egito, porque nele se cumpriram todas as grandezas. Sonhara ele que o Sol, a Lua e as Estrelas o adoravam e foi nisto um retrato figurativo da obediência que Jesus e Maria, verdadeiro Sol e verdadeira Lua, havia de ter a São José, e o respeito que os mais santos, simbolizados nas estrelas, lhe tributam. Chamou-se também a José o salvador do mundo, porque proveu de mantimento e livrou da fome não só o Egito, mas toda a terra em torno; e tudo isto foi anuncio de que o glorioso São José na lei da graça havia de ser a quem todo o gênero humano devesse a salvação, pois salvou o Redentor, livrando-o da tirania de Herodes, que o queria matar, quando menino, e ele foi também o que guardou o pão da vida de Jesus Cristo, que é o sustento do universo.
“Ide a José” Gn 41,55.
A virgindade de São José
A virgindade perpétua é outra coroa de glória do santo Patriarca. A Escritura nada fala da virgindade de S. José, mas a Tradição nos guarda e garante esta opinião com segurança. A Tradição teológica, escreve o Pe. Cantera, reprova todos os erros contra esta doutrina e afirma unanemente a Virgindade de S. José, é uma verdade teologicamente, da qual não é lícito a nenhum cristão duvidar. É célebre a resposta de S. Jerônimo ao herege Helvídio: Dizes, que Maria não ficou Virgem. Pois não só defendo e afirmo a Virgindade de Maria, como digo ainda mais: por Maria foi Virgem também S. José(2). (1) Cantera - San José en el Plano Divino (2) Adv. Helv. n° 19.
Dia de São José
Por isso, hoje é dia de festa para a Fé. O culto a São José começou no Oriente, passando mais tarde para o Ocidente, onde hoje alcança grande popularidade.
Pio IX estendeu a festa do Patrocínio de São José a toda a Igreja com o decreto "inclytus Patriarcha Joseph", de 10 de setembro de 1847. Declarou solenemente o Bem-aventurado José “Patrono da Igreja Católica”, e ordenamos que a sua festa de 19 de março, dupla de primeira classe, todavia sem oitava por causa da Quaresma, fosse celebrada no mundo inteiro
São José e Santa Teresa de Ávila
“Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claro que, tanto desta necessidade como de outras maiores, de perder a honra e perder a alma, este pai e senhor meu me livrou melhor do que eu lhe saberia pedir. Não me recordo, até agora, de lhe haver suplicado nada que não tenha deixado de fazer.
É coisa que espanta (que maravilha) as grandes mercês que me tem feito Deus por meio deste bem-aventurado santo, dos perigos que me tem livrado, tanto de corpo quanto de alma. A outros santos parece
que o Senhor lhes deu graça para socorrer em uma necessidade; a este glorioso santo tenho experiência que socorre em todas e que quer o Senhor dar-nos a entender que assim como esteve submetido a ele na terra, que como tinha nome de pai - sendo custódio - podia mandar Nele, também no céu faz quanto lhe pedem. E isto o tem comprovado algumas pessoas, a quem eu dizia que se encomendassem a ele, também por experiência; e ainda há muitas que começaram a ter-lhe devoção havendo experimentando esta verdade.
Queria eu persuadir a todos para que fossem devotos deste glorioso santo, pela grande experiência que tenho dos bens que ele alcança de Deus. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota e faça particulares serviços, que não a vejamos mais adiantada nas virtudes porque muito aproveitam as almas que a ele se encomendam. Parece-me, já há alguns anos, que a cada ano, em seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo cumprida. Se o pedido segue meio torcido, ele o endereça para o meu bem.
Se fosse uma pessoa que tivesse autoridade no escrever, de bom grado me estenderia em dizer muito a miúdo as mercês que este glorioso santo tem feito a mim e a outras pessoas. Só peço, pelo amor de Deus, que o prove quem não me crê e verá por experiência o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção.
Pessoas de oração, em especial, sempre deveriam ser a ele afeiçoadas. Não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos, no tempo que passou com o Menino Jesus, e não se dar graças a São José pelo bem com o qual lhes ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome este glorioso santo por mestre e não errará no caminho”.3
Invoquemos o nosso Anjo da Guarda para que nos ajude a honrar ao nosso grande Santo Protetor, que é também Príncipe dos Anjos e Arcanjos. São José fora constituído também, no Reino de Deus, o grande Príncipe, e lhe foram dadas as maiores e mais extraordinárias prerrogativas que o fizeram o Príncipe sem igual, acima de todos os súditos do Rei dos reis depois de Maria Santíssima, Rainha dos céus e da terra. E nesta singular e privilegiada missão, quem pode contentar a supremacia de José sobre todos os Anjos e coros angélicos?
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Referências bibliográficas
Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida 6,6-8
São José, Mons. Ascânio Brandão
Bíblia Pe João de Matos
São José. O esposo de Maria, da qual nasceu jesus. Ed Petrus 1ª edição-2010

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte III



(Continuação das postagens anteriores: Parte I, Parte II.)

... nenhuma questão teológica estava envolvida ainda e os clérigos continuaram desinteressados.

Porém, durante a 16ª aparição, em 25 de março, festa da Anunciação, uma questão religiosa inevitável entrou nos acontecimentos dramáticos. Na manhã desse dia, Bernadete acordou muito cedo, com "grande desejo" de revisitar a gruta. Os pais fizeram-na esperar até as 5 horas da manhã, quando ela saiu com a família, seguida por um grupo grande de pessoas. Bernadete tinha ido a Massabielle todos os dias desde a última das aparições da quinzena, mas durante o que se chamou de "calmaria de três semanas" a aparição não se deixou ver. Desta vez, Aquero apareceu.

Embora os detalhes registrados divirjam quanto ao porquê, desta vez parece que Bernadete estava disposta a descobrir quem a Senhora era e lhe fez três vezes esta pergunta: "Senhora, quer ter a bondade de me dizer quem é, por favor?". Aquero começou a rir. Mas quando Bernadete repetiu a pergunta pela quarta vez, a Senhora parou de rir, sorriu e disse no dialeto Bigourdan as palavras atroadoras: "Que soy era Immaculada Concepción".

Ao ouvir isso, Bernadete levantou-se imediatamente e, seguida por um grande cortejo de pessoas ansiosas, apressou-se a voltar à cidade, repetindo as palavras em voz alta inúmeras vezes, a fim de não esquecê-las. Ao chegar à cidade, ela e um grupo de olhos arregalados irromperam na casa do padre Peyramale. Bernadete levantou os olhos para ele, que abaixou os seus para olhá-la e ela disse simplesmente: "Eu sou a Imaculada Conceição".

                                                                                      

Padre Peyramale ficou chocado, pois ali não só havia uma questão religiosa, mas uma questão religiosa importante, sobre a qual era impossível que a Bernadete analfabeta soubesse alguma coisa.

A questão é complicada, desagradável mesmo. Desde o século XIV, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria era fonte de controvérsias. Admitia-se que Jesus fora concebido de maneira imaculada, isto é, sem pecado, desde o momento da concepção. A questão era se Maria também fora concebida imaculada.

A Senhora havia finalmente se identificado como a "Imaculada Conceição"  o que significava que ela era, na verdade, a Santíssima Virgem Maria, Mãe do Salvador e Mãe de toda a Igreja Católica Romana também. Não há dúvida que Bernadete não entendia nada disso, pois o sentido teve de lhe ser explicado muitas vezes  e, antes de entrar para a escola local das Irmãs de Nevers, onde aprendeu a ler e escrever, ela nunca entendeu muito bem suas implicações.

                                                                                      

Durante algumas semanas, a gruta foi barricada pelas desgastadas autoridades, não tanto para desencorajar a devoção, mas para conter os problemas de imundície e saúde pública provocados por milhares de visitantes. A preocupação maior era com um surto de cólera.

Ninguém realmente sabia o que fazer sobre o lugar e iniciaram-se discussões calorosas entre as autoridades locais e os devotos sobre o que devia ser construído ali. Logo que a fonte começou a jorrar e curas foram relatadas, artesãos locais projetaram, para conter a água, um tanque equipado com canos de descarga e uma tábua para colocarem velas.

Fendas foram executadas na gruta, nas quais dinheiro podia ser inserido e depois recolhido e entregue  ao antes relutante padre Peyramale. Todos os dias era recitado o rosário e mais de cinqüenta pessoas alegaram ter visto a Virgem. Os devotos tornaram-se incontroláveis e, no início de maio, o prefeito de Tarbes ameaçou prender e pôr na cadeia todos os que "tivessem visões". O delegado de polícia de Lourdes confiscou todos os objetos votivos e, em junho, a gruta foi fechada, embora os muros fossem derrubados diversas vezes por devotos vigorosos.

Enquanto essas dificuldades continuavam sem solução, a notícia da aparição da Virgem Santíssima e da água milagrosa se espalhou por toda a França.

Um acaso acabou por solucionar as dificuldades. Em meados de agosto, a família imperial estava na residência de verão, em Biarritz, a apenas 150 quilômetros de Lourdes. Ali, o príncipe imperial, filho do imperador Napoleão III, então com 2 anos de idade, "contraiu perigosa insolação acompanhada da ameaça de meningite".

O imperador ou, é mais provável, a imperatriz enviou a preceptora do infante a Lourdes, onde ela falou primeiro com padre Peyramale e depois com Bernadete. A preceptora foi, então, até a gruta e, em nome do imperador, ordenou que os guardas enchessem um garrafão com a água, tirando-a o mais de perto possível do centro da fonte. Os guardas esforçaram-se ao máximo para cumprir essas ordens. O infante real foi borrifado várias vezes com a água e prontamente se recuperou.

Em outubro, cheio de gratidão, o imperador Napoleão III em pessoa ordenou que os funcionários de Tarbes e Lourdes removessem permanentemente as barricadas em volta da gruta  o que era mais que uma sugestão para não interferir no acesso público a ela.

Em novembro, o bispo de Tarbes nomeou uma comissão de inquérito que levou quatro anos para realizar todas as suas audiências. Além das questões teológicas envolvidas, a comissão levou, sem dúvida, em conta o interesse decisivo do imperador, as oferendas abundantes e as crescentes vendas de imagens votivas. "Desde o início" a comissão "ficou profundamente impressionada" com a sinceridade de Bernadete e sua "firmeza e lucidez".

Em 1862, monsenhor Laurence, bispo de Tarbes, publicou a conclusão esperada:

"Julgamos que Maria Imaculada, Mãe de Deus, realmente apareceu a Bernadete Soubirous em 11 de fevereiro de 1858 e em dias subseqüentes, 18 vezes ao todo. Os fiéis têm motivos para crer que isso é incontestável.

Autorizamos a devoção a Nossa Senhora da Gruta de Lourdes em nossa diocese... [e], em conformidade com os desejos da Virgem Santíssima, expressos mais de uma vez durante as aparições, propomos a construção de um santuário no terreno da gruta que o bispo de Tarbes acaba de adquirir."

O documento do bispo também proclamou milagrosas sete das curas que aconteceram em 1858. A resposta dos veículos de comunicação, que já era grande, tornou-se enorme.

                                                                                      

Em 1862, Achille Fould, financista judeu e ex-ministro da fazenda francês, comprou nas proximidades de Lourdes uma propriedade que pretendia desenvolver. Apressou-se a convencer a Companhia Ferroviária Meridional a fazer passar por Lourdes e por sua propriedade a ferrovia que estava em construção de Tarbes a Pau.

Dessa maneira, os cidadãos pobres de Lourdes viram-se diretamente ligados por estrada de ferro ao resto do continente  e ligados para todo o sempre a fontes de renda. Agora, romarias organizadas podiam chegar de trem, o que faziam e continuam a fazer em número cada vez maior. Esses romeiros precisavam de hotéis, restaurantes e outras comodidades.

Assim, surgiu o maior santuário de cura da história européia. Milhares de curas têm ocorrido ali, embora só 64 tenham sido oficialmente reconhecidas até 1970.

                                                                                      

Enquanto a comissão estudava a questão, em julho de 1860, Abbé Peyramale e o prefeito de Lourdes persuadiram a madre superiora do convento das Irmãs de Nevers a aceitar Bernadete como interna.

Bernadete tinha 16 anos e ainda era "ignorante como um bebê no berço". Assim, com tristeza, ela deixou a família  uma família cheia de brios que, apesar de desprovida de recursos, recusou-se a aceitar qualquer ajuda, exceto a casa mais salubre conseguida pelo Abbé.

No convento, Bernadete teve de receber muitos visitantes, pois os inquéritos e as investigações estavam em andamento. As irmãs admiravam sua humildade e resistência durante as entrevistas cansativas. Esta vidente comportava-se como instrumento apropriado da Mãe Santíssima.

Sofria cada vez mais ataques de asma e, na primavera de 1862, os pulmões se inflamaram. Quando recebia a unção dos enfermos, abriu os olhos, pediu água da fonte, bebeu-a e ficou curada.

Mais tarde foi transferida para a sede da ordem em Nevers, 500 quilômetros ao norte de Lourdes onde, como irmã Marie-Bernard, permaneceu humilde e obscura até a morte, em 16 de abril de 1879, aos 32 anos de idade. No mesmo ano, o único filho de Napoleão, o ex-príncipe imperial, apelidado "Loulou", foi atravessado por uma lança e morreu, quando lutava pelos interesses britânicos nas guerras zulus na África. Tinha 21 anos de idade.

                                                                                      

O corpo de Bernadete foi exumado pela primeira vez em 22 de setembro de 1909. Estava intacto e teve início o processo de beatificação. Foi novamente exumado em 3 de abril de 1919, quarenta anos depois da morte, e continuava intacto  exceto por ligeira descoloração na face, que foi corrigida com cera preservadora.

O corpo foi, então, colocado em um esquife de vidro e durante muitos anos ficou exposto à visitação dos fiéis e dos turistas, na capela do convento em Nevers. Em 1933, ela foi canonizada como Santa Bernadete.



Em 1906, a gruta e a basílica foram confiscadas do bispado de Tarbes pelo governo francês e, em 1910, sua posse foi cedida à municipalidade de Lourdes. A primeira visita papal ao santuário da aparição de Nossa Senhora da Gruta de Lourdes ocorreu em 1982.

O mais famoso santuário de cura do mundo, há muito tempo um lugar vasto e esplêndido, recebe anualmente a visita de mais de 15 milhões de pessoas.

Fim

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte II




(Continuação da postagem anterior.)

Interrogatórios de videntes fazem parte da ação dramática das aparições, mas os concernentes a Bernadete estão tão bem registrados por extenso, que aqui só farei um breve exame deles.

Um dos fatos principais é que o vigário cantonal de Lourdes, Abbé Peyramale (descrito como austero, severo e inflexível), manteve-se à distância da situação. Referia-se a Bernadete com "as mais profundas suspeitas" e é possível que encorajasse a polícia a ameaçar prendê-la por perturbar a ordem pública.

Assim, os primeiros inquisidores de Bernadete foram os policiais da localidade. Depois da quarta ou sexta aparição, o delegado de polícia Jacomet ordenou que a trouxessem diretamente à casa dele, no centro da cidade. Em sua maioria, os relatórios afirmam que ele a achou modesta, sincera, sem estar atrás de dinheiro ou atenção, mas, por outro lado, "incompreensível".

As fontes dão versões diferentes do encontro com Jacomet, mas elas são, em grande parte, inventadas, pois ninguém estava presente para anotá-lo diretamente. Porém todas concordam que, no primeiro encontro ou no segundo interrogatório, o delegado Jacomet "perdeu a paciência". Submeteu-a a "arbitrariedades humilhantes" e, por fim, proibiu-a de voltar a Massabielle, ameaçando prendê-la se o fizesse.

Entretanto, o segundo interrogatório por Jacomet acabou de maneira imprevista, por causa das "multidões iradas" reunidas do lado de fora que, aparentemente, ouviram os berros de Jacomet e começaram a vaiar e a exigir a soltura da vidente.

                                                                                      

No dia seguinte, Bernadete "ignorou a proibição" e, acompanhada por uma multidão ainda maior, voltou a Massabielle. Mas a aparição não se manifestou. Ao mesmo tempo, quando percebeu a força crescente da opinião pública e quando também surgiram argumentos em favor da vidente, o prefeito de Lourdes desafiou a proibição policial. De qualquer modo, no sexto dia da seqüência de aparições, as autoridades civis de Lourdes viram-se preocupadas apenas com questões do controle da multidão, quando os romeiros começaram a chegar em grande número.

Depois da nona aparição completamente atordoante (descrita adiante), Bernadete foi mais uma vez chamada para interrogatório, desta vez pelo promotor público imperial da cidade, uma situação mais séria. Mas esse encontro não deu muito certo, aparentemente porque, ao ouvir as respostas e declarações "incompreensíveis" de Bernadete, o promotor perdeu o fio de seus argumentos e ficou "aturdido".

Mais uma vez, a multidão bem maior do lado de fora exigiu a soltura da vidente e, além disso, ridicularizou e zombou do promotor, espalhando que ele sofria de dança de são Guido (doença que causa tremores) e que as velas da casa dele "acenderam-se sozinhas", enquanto Bernadete estava lá. Abalado, o promotor público imperial ficou feliz em soltar a menina.

Posteriormente, Bernadete foi chamada de novo, desta vez pelo magistrado examinador e pelo comandante regional da polícia de Tarbes, uma cidade próxima. Contudo, parece que o assunto principal desse encontro não era Bernadete nem a natureza da aparição, mas sim a forma de controlar as multidões que a essa altura haviam começado a inundar toda a região ao redor de Lourdes e de Tarbes.

                                                                                      

A distância que padre Peyramale colocara entre as aparições e a Igreja começou a se estreitar em conseqüência da 13ª aparição (em 2 de março), na qual Aquero pediu a Bernadete para "dizer aos padres" que o povo deveria vir à gruta em procissão e que uma capela deveria ser construída ali. Eram notícias eletrizantes em uma situação que já estava bastante carregada.

Para transmitir essa mensagem, Bernadete foi à residência do padre Peyramale, acompanhada de duas tias, irmãs de sua mãe, e seguida por uma multidão de aproximadamente duas mil pessoas.

Padre Peyramale não gostou da delegação formada pelas três, aparentemente porque certa vez expulsara as duas tias da Escola dos Filhos de Maria, depois que ambas engravidaram antes do casamento. A ira dele deixou Bernadete tão confusa e intimidada que ela saiu de sua presença com as tias sem se lembrar de transmitir os pedidos de Aquero.

Foi então decidido fazer um sacristão amigo enfrentar a ira do padre e quando o sacristão finalmente apresentou os pedidos da Senhora ao sacerdote, padre Peyramale viu-se obrigado a tomar decisões em nome da Igreja.

Padre Peyramale exigiu que Aquero dissesse seu nome. Algumas fontes declaram que também exigiu que ela fizesse florescer imediatamente, no frio do inverno, a roseira quase morta que havia na frente da gruta. Outras fontes omitem a referência à roseira ou declaram que ela não existia. Mas é provável que a existência da roseira fosse real, pois a menção dela está incluída nos primeiros rumores que Joana Abadie espalhou pela cidade (que a Senhora apareceu acima e ao lado da roseira).

Depois da 15ª aparição, porém, é quase certo que não se encontrassem provas da existência da roseira  em grande parte porque muitos dos oito mil romeiros que desejavam uma lembrança haviam pegado tudo o que podia ser levado como recordação. Se a roseira tivesse florescido, teriam arrancado as flores como relíquias, depois os talos e caules e até as raízes.

O pedido do nome feito por padre Peyramale foi transmitido a Aquero durante a 15ª aparição. Mais uma vez, o nome não foi dado. É bem provável, como muitos alegaram, que padre Peyramale agora sorrisse consigo mesmo, por causa desse anticlímax. De qualquer maneira, ele agora achava que não eram necessárias decisões eclesiásticas sobre a aparição e que Bernadete estava no fim.

Embora Bernadete voltasse todos os dias a Massabielle, parecia que as aparições da quinzena tinham cessado  para grande desapontamento das multidões cada vez maiores. Entretanto, a ação dramática em Lourdes não terminara, de modo algum, e, na verdade, estava apenas começando.

                                                                                      

A opinião popular das multidões já decidira que a identidade de Aquero era a da Santíssima Virgem Maria. Bernadete começara a rezar o terço enquanto se ajoelhava na gruta e dizia que Aquero pedia "orações pelos pecadores". Quem mais Aquero poderia ser, além de Maria Santíssima?

Muita gente no meio das multidões afirmava ver a Virgem Santíssima no local e "ouvir vozes" que não vinham de parte alguma, e diversas crianças tinham ataques, entravam em transe ou ficavam histéricas. Por ocasião da 15ª aparição e apesar das objeções do clero, o local estava completamente tomado por imagens votivas da Virgem. A esse tempo, os que acreditavam na aparição ainda eram chamados "devotos" que tinham "almas simples" (leia-se "almas obtusas") e eram em número significativo nas multidões.

Os devotos acendiam muitas velas no local e as deixavam acesas, o que os policiais de Lourdes e de Tarbes consideravam risco de incêndio. Mesmo assim, os arredores de Massabielle "brilhavam lindamente à noite". Muitos atiravam dinheiro na caverna, pois ainda não havia ninguém encarregado de recebê-lo. Assim, a situação começou a fugir ao controle das autoridades municipais e dos clérigos locais e a passar diretamente para as mãos da devoção popular. Entre as multidões que chegavam havia um número cada vez maior de pessoas instruídas e incrédulas (diferenciadas dos camponeses analfabetos e dos "adeptos ignorantes"). A aparição era levada a sério.

                                                                                      

Mas a aparição em Massabielle teria sido esquecida na história se não fosse pela decisiva nona aparição durante o período da quinzena. A nona aparição ocorreu na quinta-feira, 25 de fevereiro, ou na sexta-feira, 26. Durante a aparição, Bernadete, que estava ajoelhada, levantou-se inesperadamente, sem sair do êxtase. Primeiro, virou-se e ficou de frente para o Gave. As três mil pessoas que a essa altura formavam a multidão ficaram em silêncio.

Viram-na olhar um momento para trás, para a aparição que ninguém mais via, como se pedisse instruções. Depois ela sacudiu a cabeça, numa espécie de assentimento. Começou a mover-se de novo, desta vez em direção à gruta onde quase entrou  e pôs-se a cavar febrilmente com as mãos.

Quase no mesmo instante, uma água barrenta começou a jorrar na depressão rasa que ela cavara. Bernadete bebeu um pouco dessa água, lavou o rosto com ela e arrancou e comeu um pouco de capim das bordas do buraco lamacento. Levantou-se e saiu da gruta com o rosto coberto de lama e ainda mastigando o capim. Alguns dos observadores próximos começaram a rir às escondidas e outros disseram que, finalmente, ela enlouquecera. Seguiu-se um pandemônio, com gritos de "prendam-na!".

Bernadete teve de ser escoltada até uma casa na rue des Petites-Fosses, na cidade. Só ao chegar a salvo nessa casa, ela contou que Aquero a mandara cavar no lugar seco e dissera: "Beba a água e se lave na fonte e coma a grama que estiver ali".

Ainda naquela mesma tarde, os que chegavam a Massabielle viam um novo filete d'água que brotava da gruta rochosa e corria para o Gave. Na verdade, a torrente aumentava enquanto olhavam. No dia seguinte, a fonte estava produzindo 25 mil galões de límpida água doce a cada 24 horas.

Vivia em Lourdes um "simples cavouqueiro" chamado Louis Bourriette. Segundo confirmação médica, ele sofria de amaurose incurável (estava ficando cego). Louis Bourriette pediu que lhe trouxessem água da fonte. Banhou os olhos quase cegos nessa água  e voltou a ver, fato confirmado pelo médico do lugar.

Na manhã do dia seguinte, essa notícia eletrizante inspirou Jeanne Crassus, que havia dez anos tinha uma das mãos paralisada, a ir a Massabielle. Ali ela mergulhou a mão inválida na água por alguns momentos e quando a ergueu para todos verem, a mão voltara a ser normal.

As notícias desses milagres espalharam-se rapidamente. Houve uma "explosão de aplausos" entre os milhares de testemunhas reunidas em Massabielle. O tumulto logo se espalhou por toda a cidade, onde os sinos das igrejas começaram a tocar. As pessoas amontoavam-se, gritavam e soluçavam nas ruas e "ouvia-se a comoção à distância no campo".

Quando milhares tentaram chegar até a água, houve distúrbios na gruta. Instantaneamente aconteceram mais curas. Policiais, agora acompanhados por soldados, chegaram para tentar manter a ordem. Foram sobrepujados pelas multidões e, de qualquer modo, a maioria deles juntou-se às massas, na tentativa de beber a água.

É muito difícil compreender como Abbé Peyramale e seus colegas canônicos, os padres Pomian, Serre e Pene, puderam manter-se distantes dessas curas. Contudo, foi o que fizeram: condenaram-nas como "tolice" e foram criticados por esse "ponto de vista inflexível". Contudo, as primeiras curas levaram o padre Peyramale a reconhecer que Bernadete, afinal das contas, "devia ser sincera". Mas nenhuma questão teológica estava envolvida ainda e os clérigos continuaram desinteressados.

Continua...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte I




(retirada do livro "As Grandes Aparições de Maria" de Ingo Swann)

Em 1858, a fama da grande aparição em La Salette já completara 12 anos e fazia dez anos que o imperador Napoleão III estava no poder. Para surpresa de muitos, embora exercesse poder ditatorial direto e ninguém ousasse contrariá-lo, ele se mostrava uma força inspiradora.

Sob seu governo, a França alcançou rápido progresso material. A construção de estradas de ferro foi fomentada e, pela primeira vez, redes ferroviárias começaram a unir a nação em um todo interligado. Cidades foram reconstruídas. O imperador em pessoa replanejou Paris e orientou a construção dos bulevares amplos e dos parque espaçosos agora bem conhecidos. Napoleão autorizou os primeiros bancos de investimento, a expansão das construções deu emprego a milhares de pessoas e a economia prosperou. No princípio, as especulações estrangeiras de Napoleão também foram bem-sucedidas e o Segundo Império parecia estar a caminho.

Santa Catarina Labouré ainda não morrera e o público ainda não conhecia sua história completa. A fama de La Salette parecia segura e ninguém imaginava que outra aparição, mais notável que aquela, logo fosse ocorrer. Portanto, os franceses ficaram atônitos quando, em fevereiro de 1858, começaram a se espalhar rumores entusiasmados de que Nossa Senhora estava de volta e, de novo, em um lugar de que poucos tinham ouvido falar.

Lourdes situa-se na região Bigorre do sudoeste da França, nas encostas setentrionais dos Pirineus, a admirável cadeia de montanhas entre a frança e a Espanha. O lado francês dos Pirineus recebe chuvas abundantes e sempre foi famoso pelo lindo cenário, as torrentes caudalosas chamadas gaves e a abundante água mineral. Havia tempo que muitas das fontes minerais tinham se transformado em balneários elegantes nos quais os ricos se reuniam e, com isso, traziam dinheiro e empregos. Contudo, em toda parte, ainda existia pobreza, uma pobreza assustadora.

A cidadezinha de Lourdes não possuía uma fonte de água mineral e, portanto, estava privada de qualquer esperança de benefícios econômicos. Mesmo assim, parece que era uma cidade idílica nas margens do Gave de Pau, ligadas pela torrente Lapacca, no lado oposto do qual estavam o hospital e a escola das Irmãs de Nevers.

No frio dia de inverno de 11 de fevereiro de 1858, três garotinhas mal vestidas saíram da cidade e atravessaram uma ponte para chegar ao promontório rochoso que, na ocasião, estava cercado pelas águas geladas do Gave de Pau.

Foram lá catar gravetos e galhos para queimar e ossos descartados para fazer sopa, embora outros antes delas já tivessem feito o mesmo. As três estavam bastante desnutridas.

Na extremidade oeste do promontório, mas do outro lado da torrente menor, existia um penhasco chamado Massabielle. O rochedo tinha uma área oca, citada como caverna ou gruta, diante da qual havia um pouco de mato e uma roseira silvestre quase morta. A menina mais velha foi até lá catar alguns gravetos.

Quando as outras duas garotas foram procurá-la, viram-na ajoelhada diante da gruta, com o rosto voltado para cima. Correram até ela, pensando que estivesse machucada. Encontraram-na paralisada, com os olhos dilatados, e não conseguiram mover-lhe os braços. Apavoradas, começaram a gritar.

A garota paralisada era Bernadete Soubirous, que dali a duas semanas se transformaria, de maneira defensável, na maior vidente de todos os tempos  e a caverna simples se tornaria a mais notável e majestosa gruta da história. Em 12 dias , o pobre lugarejo de Lourdes, com menos de trezentos habitantes, seria invadido por mais de vinte mil romeiros e, um mês depois, por cinqüenta mil.

                                                                                      

Os primeiros anos de Bernarde-Marie Soubirous, conhecida na história simplesmente como "Bernadete", foram de pobreza assustadora e penosa. Ela nasceu em 7 de janeiro de 1844, primeira dos oito filhos de François e Louise Soubirous, no moinho Boly, onde o pai trabalhava e a família vivia.

Quando ela estava com 8 anos, o pai perdeu a visão do olho esquerdo em um acidente no moinho e dois anos mais tarde, quando Bernadete tinha 10 anos, foi demitido do moinho, de onde a família foi expulsa. Isso forçou-os a viver em pobreza cada vez mais extrema.

Ainda aumentando, a família Soubirous foi ajudada por um parente distante, um certo Sajous, que era pedreiro e permitiu que morassem em uma casa térrea, uma "gaiola de pedra cheia de umidade", chamada "masmorra", porque antes era a cadeia do lugar.

Em 1855, houve uma epidemia de cólera na região Bigorre dos Pirineus e Bernadete adoeceu. Muita gente morreu, mas ela se recuperou, embora pelo resto da vida sofresse gravemente de asma. A fome também acompanhou a epidemia. Como alimento de um dia inteiro, a família às vezes tinha de compartilhar um pão, ou um pedaço de um pão, ou pão nenhum, e uma sopa aguada, às vezes feita com ossos catados nas ruas ou nas cercanias da cidade. Obviamente desesperado, François Soubirous foi preso por roubo, mas as acusações foram retiradas.

A família começou a sofrer privações tão duras que a lareira estava sempre apagada. Jean-Marie, o menino mais velho da família, foi apanhado na igreja local, onde tentava comer a cera macia das velas, e o prelado ameaçou mandá-lo para a cadeia. Em fevereiro de 1858, a família estava passando fome. Bernadete, que estava sempre tossindo e ofegante, tinha 14 anos e não sabia ler nem escrever.

                                                                                      

A aparição a Bernadete Soubirous está muito bem documentada, na verdade, excessivamente documentada  e isso significa que existem várias versões. A própria Bernadete escreveu quatro versões, cada uma delas um pouco diferente das outras em pequenos detalhes, a primeira em 1861, depois que aprendeu a ler e escrever.

Em suas próprias palavras, o que Bernadete viu primeiro, no meio da gruta, foi uma "luz suave", que notara em duas outras ocasiões em que viera catar coisas. Desta vez uma "linda moça" apareceu dentro da luz suave. Quando a linda moça acenou para Bernadete, esta "ficou amedrontada e não respondeu". Entretanto, todas as fonte concordam que as duas companheiras a encontraram ajoelhada e em êxtase. Uma das garotas era irmã de Bernadete e a outra a fuxiqueira Joana Abadie. As duas meninas sacudiram-na até que Bernadete voltou a si e lhes contou o que vira.

                                                                                      

A caminho de casa, aparentemente Bernadete encontrou outra irmã e mais uma vez contou ter visto a bela moça dentro da luz suave. A irmã contou à mãe. Joana Abadie espalhou pela cidade que Bernadete tivera uma visão e estava maluca. Por causa disso, diversas moradoras vieram informar-se com sua mãe. A mãe de Bernadete ficou muito contrariada e o mesmo aconteceu com o pai. Bernadete foi proibida de voltar a Massabielle. E por precaução, como aviso, talvez como demonstração para as mulheres curiosas, a mãe "bateu" nas duas meninas por "contarem mentiras". Porém, na tarde seguinte, Bernadete mencionou o assunto ao sacerdote no confessionário e lhe pediu para contar ao pároco, padre Peyramale, que não mostrou interesse.

No domingo, 14 de fevereiro, Bernadete deu um jeito de conseguir a permissão do pai para voltar a Massabielle com as mesmas duas garotas. Outras sete a acompanharam. Mas, desta vez, levaram água benta. Bernadete ajoelhou-se diante da gruta, rezou e logo viu de novo "Aquero que, no dialeto Bigourdan local, significa "aquela". Desta vez, ela aspergiu a Senhora com água benta, o que, aparentemente, fez Aquero sorrir.

Nesse momento, Joana Abadie, que subira no alto de Massabielle, acima da gruta, empurrou para baixo uma grande pedra que caiu perto de Bernadete. Mas Bernadete estava paralisada, em êxtase, e já não respondia aos gritos das companheiras.

As meninas não conseguiram despertar Bernadete e entraram em pânico. Duas ou mais correram à vila, onde pediram ajuda a um moleiro local que voltou com elas e carregou a inconsciente Bernadete, "que sorria para algo que ninguém mais via", até seu moinho, onde ela aos poucos recobrou os sentidos.

Enquanto isso, Joana Abadie mais uma vez espalhou mexericos por toda a cidade. A mãe de Bernadete ficou abaladíssima e  muito preocupada com a sanidade mental da filha. O sentimento predominante no lugar era de desaprovação e, na segunda-feira, depois das aulas, zombaram e caçoaram de Bernadete na rua e uma mulher que ela não conhecia deu-lhe um tapa por "encenar comédias".

Mas uma senhora abastada, que às vezes contratava sua mãe como criada, interveio e, por sua influência, ficou acertado que levariam Bernadete de novo à gruta, bem cedo no dia seguinte, terça-feira, 16 de fevereiro. Desta vez deram lápis e papel para Bernadete pedir a Aquero que escrevesse seu nome.

                                                                                      

Terça-feira cedo, Bernadete visitou a gruta pela terceira vez, mas agora acompanhada de um grupo muito maior de pessoas em silêncio, que se acotovelavam para chegar a pontos convenientes na beira do rio em frente ao rochedo de Massabielle. Algumas dessas testemunhas levavam terços, provavelmente para afastar o mal.

Bernadete ajoelhou-se e entrou em "transe". Ninguém além dela viu nada, mas, apesar disso, dois adultos próximos pediram-lhe para não se esquecer de perguntar o nome de Aquero. Em transe, Bernadete mandou que ficassem quietas. Depois de algum tempo, Bernadete saiu do transe, sem ter obtido o nome.

Quando lhe perguntaram por que, Bernadete respondeu: "Eu lhe perguntei, mas ela disse que não era necessário". Depois de alguns momentos de silêncio interrompido por murmúrios das testemunhas ali reunidas, Bernadete falou: "Mas ela me disse: 'Quer ter a bondade de vir aqui durante 15 dias? Não prometo fazê-la feliz neste mundo, mas no outro'".

A aparição sem nome tinha falado! E falou deste mundo e do outro! Assim começou o que às vezes é citado como a "quinzena de aparições", em número de 15 ou 16, dependendo da fonte consultada. É certo que a aparição seguinte foi a quarta.

E também é certo que quando Bernadete aproximou-se novamente da gruta, estava acompanhada de cem ou mais pessoas. Quando a notícia da aparição se espalhou, toda a população de Lourdes ficou interessada, com um número considerável de "atraídos" dos lugares vizinhos.

No meio dessa quinzena, o número de pessoas reunidas ultrapassava oito mil e a certa altura o acotovelamento era de tal magnitude que soldados armados tiveram que escoltar Bernadete até a caverna  então e para sempre chamada "a gruta".

Continua...