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terça-feira, 31 de maio de 2016

31 de maio - Refutação e demonstração

    Seja-me permitido recordar, entretanto, ao autor uma distinção que ele mesmo faz. No seu livro acentua também a diferença entre a mediação de justiça, em vista dos méritos, e a mediação da graça, por via de intercessão. E do mesmo modo uma coisa é dizer que Deus não possa, e outra que Deus não queira conceder as suas graças sem a intercessão de Maria. Nós confessamos que Deus é a fonte de todos os bens e o Senhor absoluto de todas as graças. Confessamos também que Maria não é mais que uma pura criatura e que, quando obtém, tudo recebe de Deus gratuitamente. Mais que todas as outras, esta sublime criatura na terra também o honrou e amou, sendo por ele escolhida para Mãe de seu Filho, o Salvador do mundo. Querendo exaltá-la de um modo extraordinário, determinou por isso o Senhor que por suas mãos hajam de passar e sejam concedidas todas as graças e mercês dispensadas às almas remidas. Não é muito razoável e muito conveniente tal suposição? Quem poderá dizer o contrário? Não há duvida, confessamos que Jesus Cristo é o único medianeiro de justiça. porque por seus méritos nos obtém a graça e a salvação. Mas ajuntamos que Maria é medianeira de graças, e como tal pede por nós em nome de Jesus Cristo e tudo nos alcança por merito dele. Assim, pois, à intercessão de Maria devemos, de fato, todas as graças que solicitamos. Nada há nisso de contrario aos sagrados dogmas. Ao invés, o que há é plena conformidade com os sentimentos da Igreja, Nas orações por ela aprovadas nos ensina a recorrer sempre à Maria e a invocá-la como "salvação dos doentes" , refúgio dos pecadores, auxílio dos cristãos, via e esperança nossa" , Nas festas da Santíssima Virgem aplica-lhe no ofício as palavras dos livros da Sabedoria e assim nos dá a entender que nela acharemos toda esperança. "Em mim há toda a esperança da vida e da virtude" (Eclo 24,25) Em suma acharemos em Maria a vida e a nossa salvaçaõ. "Quem me acha, achará a vida e haurirá do Senhor a Salvação" (Pr 8,35) Lemos numa outra passagem: "Os que operam por mim não pecarão; aqueles que me esclarecem terão a vida eterna"(Eclo 24,30). Tudo está nos mostrando quão necessária é a intercessão de Maria.
    Nessa convicção confirmaram-me muitos teólogos e Santos Padres. Injustiça fora afirmar que eles, como diz o sobredito autor, exaltando Maria, tenham caído em hiperboles e exagerações desmedidas. Tanto uma como outra saem dos limites do verdadeiro. Não podemos, pois atribuí-las aos santos que falaram inspirados por Deus, que é espírito de verdade.
   Permitam-me fazer aqui uma breve digressão, para externar o que sinto. Quando uma sentença de qualquer modo honrosa para a Santíssima Virgem tem algum fundamento e não repugna à verdade, deixar de adotá-la e combatê-la, porque a sentença contrária pode também ser verdadeira, é indicio de pouca devoção á Mãe de Deus. Não quero estar, nem  meus leitores entre esses poucos devotos de Maria. Desejo pelo contrário vê-los entre os que creem plena e firmemente tudo quanto sem erro podem crer das grandezas de Maria, segundo as palavras do abade Roberto, que conta semelhante fé entre um dos obséquios mais agradáveis a Maria. Quando não houvesse outro a nos livrar do temor de ser excessivo nos louvores de Maria, bastava o Pseudo-Agostinho para fazê-lo. Conforme suas palavras, tudo quanto pudermos dizer em louvor a Maria é pouco em relação ao que merece por sua dignidade de Mãe de Deus. Confirmai isto a Santa Igreja, a qual faz ler na Missa da Santíssima Virgem as seguintes palavras: Bem-aventurada és Tu, Santa Virgem Maria, e mui digna de todo louvor.
    Voltemos, pois, ao nosso assunto e vejamos o que dizem os santos Padres sobre a sentença proposta. Segundo S.Bernardo, Deus encheu Maria com todas as graças para que por seu intermédio recebam os homens todos os bens que lhes são concedidos. Faz aqui o Santo uma profunda reflexão acrescentando: Antes do nascimento da Santíssima Virgem, não existia para todos essa torrente de graças, porque não havia ainda esse desejado aqueduto: Maria foi dada ao mundo - continua ele- a fim de que por se intermédio, como por m canal, até nós corresse sem cessar a torrente das graças divinas.
    Que lhe arrebentassem os aquedutos, foi ordem dada por Holofenes para tomar a cidade de Betúlia (Jt 7,6) . Assim o demônio também envida todos os esforços para acabar com a devoção à Mãe de Deus nas almas. Pois, cortado esse canal de graças, mui fácil se lhe torna a conquista. Consideremos, portanto, continua S.Bernardo, com que afeto a devoção quer o Senhor que honremos esta nossa Rainha. Consideremos o quanto deseja que a ela sempre recorramos e em sua proteção confiemos. Pois em suas mãos depositou a plenitude de todos os bens, para nos tornar cientes de que toda esperança, toda graça, toda salvação, a nós chegam pelas mãos dela. A mesma coisa declara S.Antonio. Todas as misericórdias dispensadas aos homens lhe tem vendo por meio de Maria.
    É por isso Maria comparada à lua. Colocada entre o sol e a terra, a lua dá a esta o que recebe daquele, diz S.Boaventura; do mesmo modo recebe Maria os celestes influxos da graça para no-los transmitir aqui na terra.
    Pelo mesmo motivo chama-lhe a Igreja "Porta do céu". Como todo indulto do rei passa pela porta de seu palácio, observa S.Bernardo, assim também graça nenhuma desce do céu à terra sem passar pelas mãos de Maria. Ajunta S.Boaventura que Maria é chamada porta do céu porque ninguém pode entrar no céu senão pela porta, que é Maria.
    Nesse sentimento confirma-nos S.Jerônimo ( Isto é, um antido autor com esse nome) no sermão da Assunção, que vem inserido nas suas obras. Nele lemos que em Jesus Cristo reside a plenitude da Graça, como na cabeça, de onde se transfunde para nós, que somos seus membros, o vivificador espírito dos auxílios divinos necessários à nossa salvação. Em Maria reside a mesma plenitude como no pescoço, pelo qual passa esse espírito para comunicar-se ao resto do corpo. Com cores mais vivas dá S.Bernardino o mesmo pensamento: Por meio de Maria Transmitem-se aos fiéis, que são o corpo mistico de Cristo, todas as graças da vida espiritual emanadas de Jesus Cristo, que lhe é cabeça. E com as seguintes palavras procura confirmar isto. Tendo-se Deus dignado habitar no ventre desta Virgem Santíssima, adquiriu ela uma certa jurisdição sobre todas as graças; porque, saindo Jesus Cristo do seu ventre sacrossanto, dele saíram juntamente como de um oceano celeste todos os rios das divinas dádivas. Escrevendo com maior clareza ainda, diz o Santo: A partir do momento que esta Virgem Mãe concebeu em seu ventre o Verbo Divino, adquiriu, por assim dizer, um direito especial sobre todos os dons que nos provem do Espírito Santo, de tal modo que  criatura alguma recebe graças de Deus, senão por mãos de Maria. À encarnação do Verbo e a sua Mãe Santíssima refere-se a passagem de Jeremias (31,22) "Uma mulher circundará um homem". Certo autor explica exatamente no mesmo sentido estas palavras: Nenhuma linha pode sair do centro de um circulo sem passar primeiro pela circunferência. Assim de Jesus, que é o centro, graça alguma chega até nós sem antes passar por Maria, que o encerra, desde que o recebeu em seu puríssimo seio. Por este motivo, segundo S.Bernardino, todos os dons, todas as virtudes e as graças também todas, são dispensadas pelas mãos de Maria, a quem, quando e como ela quer. Assevera igualmente Ricardo de S.Lourenço ser vontade de Deus  que todo bem que faz às suas criaturas lhes venha pelas mãos de Maria. O venerável abade de Celes exorta por isso todos à invocação dessa tesoureira da graça, como denomina, porque só por intermédio dela os homens hão de receber todo o bem que podem esperar. De onde claramente se vê que os citados santos e autores, afirmando nos virem todas as graças por meio de Maria, não o quiseram dizer só no sentido como o entende o sobredito autor. Para ele, tudo apenas significa que de Maria temos recebido Jesus, que é a fonte de todos os bens. Não; os santos também afirmam que Deus, depois de nos ter dado Jesus Cristo, quer que, pelas mãos de Maria e por sua intercessão, sejam dispensadas todas as graças que em vista dos méritos de Jesus Cristo se tem concedido, se concedam e se hão de conceder aos homens até ao fim do mundo.
    Daqui conclui o Padre Suárez que é hoje sentimento universal da Igreja que a intercessão de Maria não somente nos é util, mas também necessária. Necessária como dissemos, não de necessidade absoluta, porque tal nos é somente a mediação de Jesus Cristo. Mas necessária moralmente, porque entende a Igreja, como pensa S.bernardo, que Deus tem determinado dispensar-nos suas graças só pelas mãos de Maria. E primeiro que S.Bernardo, assim afirmou S.Ildefonso, dizendo á Santíssima Virgem: ó Maria, o Senhor determinou entregar nas vossas mãos todos os bens que aos homens quer dar, e por isso vos confiou riquezas e tesouros de sua graça. Por esta razão exigiu Deus o consentimento de Maria para se fazer homem. Em primeiro lugar para que ficássemos todos suavemente obrigados à Virgem, e depois para que entendêssemos que ao arbítrio dela está entregue a salvação de todos os homens.
    Lê-se no profeta Isaías (11,1) que da raiz de Jessé sairia uma haste, isto é, Maria, e dela, uma flor, isto é , O Verbo Encarnado. Sobre esta passagem tece Conrado de Saxônia este belo comentário: "Todo aquele que deseja obter a graça do Espírito Santo, busque em sua haste, isto é Jesus em Maria. Pois pela haste encontraremos a flor e pela flor chagaremos a Deus. - Se queres possuir a flor, procura com orações inclinar a teu favor a vara da flor e alcançá-las-ás . De outro lado nota-te as palavras do seráfico S.Boaventura, comentando o trecho "Eles encontraram a criança com Maria, sua Mãe". Ninguém, dia ele, achará jamais a Jesus senão com Maria e por meio de Maria. E conclui que em vão procura Jesus quem não procura achá-lo com sua Mãe. Dizia por isso S.Ildefonso: Quero ser servo do Filho;mas como ninguém pode servir ao Filho sem servir também a Mãe esforço-me, por conseguinte, em servir a Maria.

Santo Afonso Maria de Ligório

domingo, 29 de maio de 2016

30 de maio - Objeções contra a necessidade da intercessão de Maria

    Esta proposição sobre a universal mediação de Maria, quanto aos bens que de Deus recebemos, não agrada muito a certo autor moderno. Embora fale, aliás com muita piedade e erudição, da verdadeira e da falsa devoção à Mãe de Deus, mostra-se muito avaro em lhe conceder esta glória. Em dar-lha não tiveram,
entretanto, escrúpulo um S.Germano, um Santo Anselmo, um S.João
Damasceno, um S.Boaventura, um S.Bernardino de Sena, o venerável abade de Celes e tantos outros doutores. Nenhum deles encontrou dificuldade na aceitação da doutrina de ser a mediação de Maria, pelos motivos já expostos, não só útil como também necessária à nossa salvação.
    Diz o citado autor que uma tal proposição , isto é, de não conceder o Senhor graça alguma senão por meio de Maria, é hiperbole, é uma exageração que escapou ao fervor de alguns santos. Falando-se com exatidão, quer a sentença apenas significar que de Maria recebemos Jesus Cristo, por cujos méritos obtemos todas as graças. Do contrário, acrescenta, ele, seria um erro acreditar que Deus não possa distribuir-nos suas graças sem a intercessão de Maria. Pois diz o Apóstolo que "reconhecemos um único Deus e um único medianeiro entre Deus e os Homens, Jesus Cristo".

Santo Afonso Maria de Ligório

sábado, 28 de maio de 2016

29 de maio - Em que sentido nos é necessária a intercessão de Maria

    Que o recorrer pois, à Intercessão de Maria Santíssima seja coisa utilíssima e santa, só podem duvidar os que são faltos de fé. O que, porém temos em vista é que esta intercessão é também necessária à nossa salvação. Necessária, sim, não absoluta, mas moralmente falando, como deve ser. A origem desta necessidade está na própria vontade de Deus, o qual pelas mãos de Maria quer que passem todas as graças que nos dispensa. Tal é a doutrina de S.Bernardino, doutrina atualmente comum a todos os teólogos e doutores, conforme o assevera o autor do Reino de Maria.
    Seguem esta doutrina Vega, mendoza, Pacciuchelli, Ségneri, Poiré, Crasset e inúmeros outros autores. Até Alexandre Natal, aliás, tão reservado em suas proposições, diz ser vontade de Deus que pela intercessão de Maria esperemos todas as graças. Em seu apoio cita a célebre passagem de S.Bernardo: Esta é a vontade de Deus, que recebamos tudo por meio de Maria. Da mesma opinião é também Contenson, como se vê do seu comentário às palavras de Jesus, dirigidas a S.João, do alto da cruz. Assim faz ele dizer ao Salvador: Ninguém terá parte  no meu sangue, senão pela intercessão de Maria. Minhas chagas são fontes de graças, mas só por meio de Maria correrão até aos homens. Tanto por mim serás amado, João, meu discípulo, quanto amares minha Mãe.

Santo Afonso Maria de Ligório

28 de maio- É muito salutar a intercessão dos santos

    É a invocação dos santos, particularmente a de Maria, Rainha de todos os Santos, uma prática não só lícita senão útil e santa. Pois procuramos por meio dela obter a graça divina. Esta verdade é de fé, estabelecida pelos Concílios contra os hereges que a condenam como injúria feita a Jesus Cristo, nosso único medianeiro. Mas, se depois da morte, um Jeremias reza por Jerusalém, se os anciãos do Apocalipse apresentam a Deus as orações dos santos; se um S.Paulo promete a seus discípulos lembrar-se deles depois da morte, se S.Estevão intercede por seus perseguidores e um S.Paulo por seus companheiros; se, em suma, podem os santos rogar por nós, por que não poderíamos nós por nossa vez, rogar-lhes que intercedam por nós? Às orações de seus discípulos recomenda-se S.Paulo: "Irmãos, rezai por nós (1Ts 5,25) S.Tiago exorta-nos "que roguemos uns pelos outros" (5,16). Podemos, por conseguinte, fazer o mesmo.
    Que seja Jesus Cristo único Mediador de justiça a reconciliar-nos com Deus, pelos seus merecimentos, quem o nega? Não obstante isso, compraz-se Deus em conceder-nos suas graças pela intercessão dos santos e especialmente de Maria, sua Mãe, a quem tanto deseja Jesus ver amada e honrada.
    Seria impiedade negar semelhante verdade. Quem ignora que a h
onra prestada às Mães redunda em glória para os filhos? Os pais são as glórias dos filhos, lemos nos provérbios (17,6). Quem muito enaltece a mãe, não precisa ter receio de obscurecer a glória do Filho. Pois quando se honra a Mãe, tanto mais se louva o Filho, diz S.Bernardo. E observa S.Ildefonso: É tributada ao Filho e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha. Ao mesmo tempo está fora de dúvida que pelos merecimentos de Jesus Cristo foi concedida a Maria a grande autoridade de ser medianeira de nossa salvação, não de justiça, mas de graça e de intercessão, como bem lhe chamou Conrado de Saxônia com o título de "fidelíssima medianeira de nossa salvação", E S.Lourenço Justiniano pergunta: Como não ser toda cheia de graça, aquela que se tornou a escada do paraíso, a porta do céu e a verdadeira medianeira entre Deus e os Homens?
     Portanto, adverte Suarez ? Quando suplicamos á Santíssima Virgem nos obtenha as graças, não é que desconfiamos da misericórdia divina, mas é muito antes porque desconfiamos da nossa própria indignidade. Recomendamo-nos, por isso, a Maria, para que supra com sua dignidade a nossa miséria.

Santo Afonso Maria de Ligório

quinta-feira, 26 de maio de 2016

27 de maio - O demônio tem medo até do nome da Mãe de Deus

    Oh! como tremem os demônios, afirma S.Bernardo, só com ouvir pronunciar o nome de Maria! Os homens são atirados ao chão, se ao lado lhes caiu algum raio. Assim também, diz Tomás de Kempis, são abatidos os demônios, logo que ouvem o nome de Maria. Quão assinaladas vitórias sobre estes inimigos têm já alcançado os servos de Maria, só com  proferirem o seu santo nome! Assim os venceram S.Antonio de Pádua, o bem-aventurado Henrique Suso e tantos outros que amavam a Mãe de Deus. Lê-se nos relatórios das missões do Japão o seguinte fato: Certo dia apareceram a um cristão muitos demônios sob a forma de animais ferozes, que com ameaças o assustavam. Ele, porém, lhes disse: Armas com que vos possa amedrontar eu não tenho. Se o Altíssimo vo-lo permite, de mim fazei o que vos aprouver. Contudo invoco em minha defesa os dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria. Mal pronunciara os tão terríveis nomes para os demônios, abriu-se a terra e sorveu aqueles espíritos soberbos. Eádmero assegura, de própria experiência, ter visto e ouvido muitas pessoas que, pronunciando o nome de Maria, foram salvas de grande perigo.
    Glorioso e admirável é vosso nome, ó Maria, lemos em Boaventura. Quem na hora da morte o invoca, do inferno nada tem a temer. Pois, mal ouvem os demônios o nome de Maria, deixam em paz a alma. E Conrado de Saxônia acrescenta: No mundo não há inimigo que tanto tema um grande exército, como temem o nome e o patrocínio de Maria as potestades infernais. Ó Senhora minha, exclama S.Germano, só pela invocação do vosso nome segurais os vossos servos de todos os assaltos do inimigo.
    Se os cristãos nas tentações tivessem cuidado de proferir com devoção e confiança o nome de Maria, é certo que não cairiam nelas. Pois, como diz o Beato Alano, foge do demônio e treme o inferno ao som deste nome excelso. A mesma Senhora revelou a S.Brígida que até dos pecadores mais perdidos, mais afastados de Deus, e mais possuídos do demônio, se aparta este inimigo, logo quando sente que eles, com verdadeira vontade de emenda, invocam o seu poderosíssimo nome. Mas, acrescentou a Santíssima Virgem, se a alma não se emenda e não apaga seus pecados nas lágrimas do arrependimento, os demônios sem demora voltam e dela tomam conta.

Santo Afonso Maria de Ligório

quarta-feira, 25 de maio de 2016

26 de maio- O demônio tem medo da Mãe de Deus

    Não só do céu e dos santos é Maria Santíssima Rainha, senão também do inferno e dos demônios, porque os venceu valorosamente com suas virtudes. Já desde o princípio do mundo tinha Deus predito à serpente infernal a vitória e o império que sobre ela obteria nossa Rainha; "Eu porei inimizade entre ti e a mulher; ela te esmagará a cabeça" (Gn 3,16). Mas que foi esta mulher, sua inimiga senão Maria, que com a sua profunda humildade e santa virtude sempre venceu e abateu as forças de Satanás, como atesta S.Cipriano? É para se notar que Deus falou "eu porei" e não "eu ponho" inimizade entre ti e a mulher. Isto faz para mostrar que a sua vencedora não era Eva, que já então vivia, mas uma sua descendente. Esta devia trazer os nossos primeiros pais, como diz S.Vicente Ferrer, um bem maior do que aquele que tinha perdido com o seu pecado. Maria é portanto, essa excelsa mulher forte que venceu o demônio e, em lhe abatendo a soberba, lhe esmagou a cabeça conforme as palavras do Senhor. Ela te esmagará a cabeça. Duvidam alguns se estas palavras se referem a Maria ou a Jesus Cristo, porque os setenta traduzem autós , isto é, Ele esmagará a tua cabeça, mas em nossa Vulgata lê-se ipsa, ela , e não ele. Assim também o entenderam S.Ambrósio, S.Jerônimo, S.Agostinho e muitíssimos outros. Mas, como quiserem, é certo que, ou o Filho por meio da Mãe, ou a Mãe por virtude do Filho, venceu Lúcifer. Este espírito soberbo foi, portanto, para sua vergonha, calcado aos pés por esta Virgem bendita, na frase de S.Bernardo, e como prisioneiro de guerra é obrigado a obedecer sempre às ordens desta Rainha. Diz S.Bruno de Segni que Eva, vencida pela serpente, nos trouxe a mortee as trevas. Maria, porém, vencendo o demônio, nos trouxe a vida e a luz. E de tal modo o atou, que ele não pode mais se mover para causar o menor dano aos seus devotos.
    É bela a explicação que dá Ricardo de S.Lourenço ao trecho dos Provérbios: "O coração do homem (isto é, de Cristo) põe nela a sua confiança e ele não necessitará de despojos" (31,11), pois Maria enriquece seu filho com os despojos que arranca ao demônio. Deus confiou a Maria o Coração de Jesus para que ela o faça amar pelos homens, comenta Cornélio a Lápide, e assim não lhe faltarão despojos, isto é, almas conquistadas. Porque Maria o enriquece de almas, das quais despoja o inferno, livrando-as do demônio com o seu poderoso socorro.
    È a palma um conhecido símbolo de vitória. Por isso foi nossa Rainha colocada num alto trono, à vista de todos os potentados celestes, como palma em sinal de segura vitória, que a si mesmos podem prometer-se todos aqueles que se põem debaixo do seu patrocínio. "Eu lancei em alto os meus ramos como a palmeira em cades" (Eclo 24,18), isto é, acrescenta S.Alberto Magno, eu estendo minha mão sobre vós para vos proteger. Filhos, parece Maria nos dizer, quando o demônio vos assaltar, recorrei a mim, olhai para mim e tende ânimo, porque em mim, que vos defendo, vereis juntamente a vossa vitória. Por isso o recorrer a Maria é um meio seguríssimo para vencer todos os assaltos do inferno. Ela é também Rainha do inferno e senhora dos demônios, pois que os subjulga e doma, diz S.Bernardino de Sena. Daí vem ser Maria chamada "terrível como um exército em ordem de batalha" (Ct 6,3). Pois sabe ordenar bem o seu poder, a sua misericórdia e os seus rogos para a confusão dos inimigos e benefícios dos seus servos, que nas tentações invocam o seu poderosíssimo nome.
    "Semelhante à vinha dei frutos de suave dor" - fá-la dizer o Espírito Santo (Eclo 24,23) Aqui observa S.Bernardo: Dizem que toda serpente venenosa foge das vinhas em flor, assim fogem os demônios das almas afortunadas em que sentem o perfuma da devoção de Maria. Ela é comparada também ao cedro: Crescendo me elevei como o cedro do Líbano (Eclo 24,17) . À semelhança do cedro que é incorruptível, ficou também Maria isenta do pecado. E como cedro afugenta com seu odor as serpentes, observa o Cardeal Hugo, com sua santidade Maria afugenta os demônios.
    Por meio da arca os israelitas obtinham suas vitórias nos combates. Graças a ela triunfaram de seus inimigos (Nm 10,35) Assim foi tomada Jericó, assim foram desbaratados os filisteus, porque a arca de Deus estava naquele dia com os filhos de Israel (1rs 14,18). Ora, como se sabe, era a arca figura de Maria. Assim como na arca estava o maná, observa Cornélio a Lápide, no seio de Maria estava Jesus, de quem o maná foi figura. Por meio desta arca concede-nos ele a vitória sobre o mundo e o inferno. Isto motiva as palavras de S.Bernardino de Sena: Quando Maria, arca do Novo Testamento, foi exaltada nos céus como Rainha, ficou abatido o poder do demônio sobre o homem.
    Oh! quanto tremem de Maria e de seu grande nome os demônios do inferno! observa Conrado de Saxônia. Ele os compara àquele inimigo de que fala Job: Arromba nas trevas as casas ...; se de súbito aparece a aurora, crê que é a sombra da morte (24,16,17) Aproveitando as trevas, vão os ladrões roubar as casas, mas quando surge a aurora, fogem como se lhes aparecesse a imagem da morte. Assim também, continua Conrado, penetram os demônios na alma, quando a obscurece a ignorância. Mas, no momento em que surge a aurora, isto é, a graça e a misericórdia de Maria, dissipam-se as trevas e dela fogem os inimigos infernais, como diante da morte. Bem-aventurado, pois, aquele que nos assaltos do inferno invoca sempre o belo nome de Maria!
    Para confirmar o que dizemos, sirva uma revelação feita a S.Brígida. Deus concedeu a Maria um poder muito grande sobre todos os demônios. Sempre que eles atacam algum devoto da Virgem, e este a invoca em seu auxílio, basta um aceno de Maria para que fujam aterrorizados. Preferem até ver redobrados os seus suplícios a sentirem-se dominados pelo poder de Maria.

    O celeste Esposo louvou esta sua esposa e chamou-lhe lírio dizendo: Como lírio entre espinhos, assim é minha amiga entre as virgens (Ct 2,2) Como o lírio é um antídoto contra as serpentes e os venenos, reflete Cornélio e Lápide, assim e a invocação do nome de Maria, singular remédio para vencer todas as tentações, especialmente contra a pureza, como o ensina a experiência.
    Cosmas de Jerusalém assim se dirige a Maria: Ò Mãe de Deus, se confiar em vós, não sereis certamente vencido; pois, defendido por vós, perseguirei meus inimigos; triunfarei com certeza, opondo-lhes como escudo a vossa proteção e o vosso onipotente patrocínio. Entre os padres Gregos  escreve Jacob, monge: Senhor, vós nos destes esta Mãe poderosíssima arma com a qual vencemos seguramente todos os nossos inimigos.
    Lemos no Antigo testamento que o Senhor guiava o seu povo na saída do Egito, de dia por meio de uma coluna de nuvem, e á noite por uma coluna de fogo (êx 13,21) Esta maravilhosa coluna, ora de nuvem ora de fogo, era no dizer de Ricardo de S.Lourenço, figura de Maria e dos dois ofícios que exerce continuamente para nosso bem.
    Como nuvem protege-nos dos ardores da divina justiça; com fogo defende-nos contra os demônios. Assim como a cera se derrete ao calor do fogo, acrescenta Conrado de Saxônia, também perdem os demônios toda a força sobre as almas que, lembradas do nome de Maria, a invocam com frequência e principalmente procuram imitá-la.

Santo Afonso Maria de Ligório

25 de maio - María, nome santo

O augusto nome de Maria, dado à Mãe de Deus, não foi coisa terrena, nem inventada pela mente humana ou escolhido por decisão humana, como acontece com todos os outros nomes que são impostos. Este nome foi escolhido pelo Céu, e lhe foi imposto por divina disposição, como o atestam São Jerônimo, Santo 
Epifânio, Santo Antonino e outros.
 “Do Tesouro da divindade – diz Ricardo de São Lourenço – saiu o nome de Maria”. Dele saiu teu excelso nome, porque as três divinas pessoas, continua ele, te deram esse nome, superior a qualquer nome, à exceção do nome de teu Filho, e o enriqueceram com tão grande poder e majestade que, ao ser pronunciado teu nome, querem que, para reverenciá-lo, todos dobrem o joelho, no céu, na terra e no inferno. Mas, entre outras prerrogativas que o Senhor concedeu ao nome de Maria, vemos quão doce o tem feito para os servos desta Santíssima Senhora, tanto durante a vida como na hora da morte.

Santo Afonso Maria de Ligório

segunda-feira, 23 de maio de 2016

24 de maio - Maria Ajuda pronta e alegremente

    Pois seu nome Significa "aquela que vê e se apressa". Vendo Maria nossas misérias , se apressa a fim de nos socorrer com a sua misericórdia. Novarino acrescenta que nela desconhece demoras o desejo de fazer-nos o bem; e porque não é avara guardadora de suas graças, não tarda, como Mãe de misericórdia, em derramar sobre os seus servos o tesouros de sua benignidade.
    Oh! como é pronta esta boa Mãe para valer a quem a invoca! Explicando a passagem dos cânticos (4,5), diz Ricardo de S.Lourenço que Maria é tão veloz em exercer misericórdia para com quem lha pede, como são velozes em suas corridas os cabritos. O mesmo autor assevera-nos que a compaixão de Maria se derrama sobre quem a pede, ainda que não medeiem outras mais que de uma breve Ave-Maria. Pelo que atesta Novarino que a Santíssima Virgem não só corre, mas voa em auxílio de quantos a invocam. No exercício de sua Misericórdia, ela imita a Deus, que também voa sem demora em socorro dos que o chamam, poque é fidelíssimo no cumprimento da promessa: Pedi e recebereis (Jo 16,24) Assim afirma Novarino. Do mesmo modo procede Maria. Quando é invocada, logo está pronta para ajudar a quem a chamou em seu auxílio.
    E com isso ficamos entendendo quem seja aquela mulher do Apocalipse (12,14), a quem se deram duas grandes asas de águia para voar ao deserto. Nelas vê Ribeira o amor com que Maria se elva sempre para Deus. Mas o Beato Amadeu diz que estas asas de águia Significam a presteza com que Maria, vencendo a velocidade dos serafins, socorre sempre os seus filhos.]
    A isto corresponde também o que lemos no Evangelho de S.Lucas. Quando Maria foi visitar S.Isabel e cumular de graças aquela família inteira, não fez a viagem com vagar, mas sim com presteza: E naqueles dias, levantando-se, Maria foi com presteza às Montanhas (Lc 1,39).
    De seu regresso não lemos a mesma observação. Diz, por isso o Cântico dos Cânticos: As suas mãos são de ouro, feitas ao torno (5,14).
    É a seguinte a explicação dada a esta passagem por Ricardo de S.Lourenço: Assim como o trabalho do torno é mais fácil e pronto que os demais, também Maria é mais pronta que todos os santos em ajudar os seus devotos. Vivíssimo é o seu desejo de consolar-nos. Por isso apenas por ela chamamos, logo afável aceita as orações e socorre. Tem razão S.Boaventura ao chamá-la de saúde dos que a invocam, significando que basta invocar esta divina Mãe para ser salvo. Sempre a encontram prestadia para ajudar, quantos a ela se dirigem, reza a sentença de Ricardo de S.Lourenço. Mais deseja essa grande Senhora fazer-nos favores do que nós os desejamos receber, assegura Bernardino de Busti.
    Nem ainda a multidão de nossos pecados deve diminuir nossa confiança, quando nos prostramos aos pes de Maria. Ela é a Mãe de misericórdia, mas a misericórdia não tem razão de ser onde não há misérias para aliviar. Uma boa Mãe não hesita em tratar de um filho coberto de chagas repugnantes, ainda que lhe custe abnegações e trabalhos, observa Ricardo de S.Lourenço. Da mesma forma, também não sabe nossa boa mãe abandonar-nos, quando por ela chamamos , por mais horripilantes que sejam os pecados de que nos precisa curar. E justamente isso quis Maria significar quando fez cer a S.Gertrudes, estendendo seu manto para cobrir com ele todos os que a ela recorriam. Ao mesmo tempo entendeu a santa quer todos os anjos têm cuidado de defender os devotos de Maria contra os Assaltos do inferno.
    É tal a compaixão desta boa Mãe, e tanto amor que nos consagra que nem espera por nossas orações. "Ela se antecipa aos que a desejam"(Sb 6,14) S.Anselmo , ao aplicar estas palavras a Maria diz: A Virgem se antecipa com seu auxílio aos desejosos de sua proteção. Devemos pois , saber que ela nos alcança de Deus muitas Graças, mesmo antes de lha pedirmos. Por isso, segundo Ricardo de S.Vítor, dela se diz que é como a lua (Ct 6,9) Como esta é veloz na sua carreira, assim também Maria o é na prontidão com que atende a seus devotos. Tanto se interessa por nosso bem, que se antecipa até as nossas súplicas. Sua misericórdia é mais pronta em nos socorrer, do que nós somos pressurosos em invocá-la. A causa disto está no seu mui compassivo coração, observa Ricardo. Apenas sabe da nossa miséria, logo deixa correr o leite de sua misericórdia. É impossível a tão benigna Rainha ver a necessidade de uma alma, sem ir incontinenti em seu auxílio.
    Esta grande compaixão de Maria para com nossas misérias a leva e nos socorrer e consolar, mesmo quando a não invocamos. É o que nos mostrou durante sua vida, nas bodas de Caná (Jo 2,3). A seus compassivos olhos não escapou o embaraço dos esposos que, aflitos e vexados, perceberam a falta do vinho á mesa dos convidados. Sem ser rogada, movida somente por seu piedoso coração incapaz de assistir indiferente à aflição de outros, pediu Maria a seu Filho que consolasse a Família. Fê-lo, expondo-lhe com singeleza a necessidade em que ela estava, dizendo: Eles não tem mais vinho. Então o Senhor, para valer àquela família e mais ainda para contentar o compassivo coração de sua Mãe que o desejava, operou o célebre milagre de mudar em vinho a água das talhas. Isto comentando, Conclui Novarino: Se Maria é tão pronta em ajudar, mesmo sem ser rogada, quanto mais o será para consolar que a invoca e chama em seu auxílio.

Santo Afonso Maria de Ligório

domingo, 22 de maio de 2016

23 de maio- Maria ajuda em muitos apuros da vida

    Como pobres filhos da infortunada Eva, somos réus da mesma culpa e condenados à mesma pena. Andamos errando por este vale de lágrimas, exilados de nossa pátria, chorando por tantas dores que nos afligem no corpo e na alma. Feliz, porém, aquele que por entre tais misérias se dirige muitas vezes à consoladora do mundo, ao refúgio dos pecadores, à Grande Mãe de Deus. Feliz quem a invoca e implora com devoção! Bem- aventurado o homem que me ouve e que vela todos os dias à entrada de minha casa (Pr 8,34) Bem-aventurado, diz Maria, quem ouve meus conselhos e permanece constantemente à porta de minha misericórdia, invocando minha intercessão e meu auxílio.
    A Santa Igreja bem a nós, seus filhos, ensina com quanto zelo e quanta confiança devemos recorrer sem cessar a esta nossa amorosa protetora. Pois é ordem sua que lhe tribute um culto particular. Durante o ano celebra muitas festas em sua honra e prescreve que um dia da semana lhe seja especialmente dedicado. Exige também que, diariamente no Ofício Divino, todos os eclesiásticos e religiosos a invoquem em nome do povo cristão, e que três vezes ao dia os fiéis a saúdem ao toque das Ave- Marias.
    Bastaria por isso, somente ver e ouvir que em todas as calamidades públicas a Santa Igreja sempre quer que se recorra à Divina Mãe com novenas, com orações, com procissões e visitas às suas igrejas e imagens. Isto mesmo quer Maria que façamos. Que sempre a invoquemos, que sempre lhe peçamos, não por necessitar dos nossos obséquios, nem das nossas honras tão inadequadas aos seus merecimentos, mas sim para que, à medida de nossa devoção e da nossa confiança, possa melhor socorrer-nos e consolar-nos. Procura, na frase de S.Boaventura, os que dela se aproximam devota e reverentemente; ama-os, nutre-os, aceita-os por filhos.

Santo Afonso Maria de Ligório

sábado, 21 de maio de 2016

22 de maio - Maria é, as vezes a última esperança

    Lê-se no livro de Rute (2,3) que Booz permitiu a uma mulher por nome de Rute respigar, indo atrás dos segadores. Aqui sugere Conrado de Saxônia: Como Rute achou graça aos olhos de Booz, assim Maria achou graça diante de Deus, para recolher as espigas abandonadas pelos segadores.
    Estes últimos são os operários evangélicos, os missionários, os pregadores, os confessores, que com as suas fadigas continuamente colhem e amealham almas para Deus, almas há, porém, rebeldes e obstinadas que são abandonadas por eles. Só a Maria é dado salvar, por sua poderosa intercessão, essas espigas largadas no campo. Mas quão infelizes são as almas que nem por esta doce Mãe se deixam apanhar! Estas,sim, serão com efeito, perdidas e amaldiçoadas. Pecador algum, tão perdido e tão viciado há no mundo, diz Blósio, que Maria o aborreça e despreze. Não; se lhe vier pedir, socorro, ela sabe e pode reconciliá-lo com seu Filho e alcançar-lhe o perdão.
    É, pois, com razão, ó Minha Rainha, que S.Damasceno vos saúda como esperança dos desamparados. Com razão vos clama S.Lourenço Justiniano esperança dos delinquentes; e o Pseudo-Agostinho, único refúgio dos pecadores; S.Efrém, porto seguro dos náufragos, ajuntando que sois até protetora dos réprobos. Finalmente tem razão S.Boaventura, ao exortar à esperança até os mais desesperados, enquanto cheio de ternura diz amorosamente a sua Mãe Santíssima: Senhora, quem não há de confiar em vós? Vós socorreis até os desesperados. Não duvido- Ajunta- que sempre que a vós recorremos, alcançaremos quanto quisermos. Em vós, pois, espere quem desespera.

Santo Afonso Maria de Ligório

sexta-feira, 20 de maio de 2016

21 de maio - Maria é para os pecadores uma segura esperança

    É Maria comparada ao plátano: Eu cresci como o plátano (Eclo 24,14) A isso bem atentam os pecadores. O plátano oferece ao viandante que em sua sombra pode repousar, livre dos raios de sol. Também Maria, quando vê acesa contra eles a ira da divina justiça, os convida a refugiarem-se à sombra da sua proteção. Lamentava-se o profeta Isaías em seu tempo, dizendo: "Eis aí está que tu te iraste, Senhor, porque nós pecamos...; não há quem se levante e te detenha" (64,5-7). Senhor estais justamente irado contra os pecadores, queria ele dizer; não há quem vos possa aplacar. Assim gemia o profeta, diz Conrado de Saxônia, porque então Maria ainda não era nascida. Mas agora, se Deus está irado contra qualquer pecador e Maria toma a sua conta protegê-lo, ela detém o Filho, para que não o castigue, e salva-o. Ninguém há, continua Conrado de Saxônia, mais apto do que ela para suspender a espada da justiça divina, para que não descarregue o golpe sobre os pecadores. Sobre este mesmo pensamento, diz Ricardo de S.Lourenço que Deus, antes de no mundo existir Maria, se queixava de não haver quem o impedisse de punir os pecadores;mas agora é Maria quem o aplaca.
    Ò pecador - exclama Basílio de Seleucia - , não percas a confiança, mas recorre a Maria em todas as necessidades; chama-a em teu socorro, pois a encontrarás sempre pronta para te valer, porque é a vontade de Deus que ela nos valha em todos os nossos apuros. Tem esta Mãe de Misericórdia mui vivo desejo de salvar os pobres pecadores. Por isso vai pessoalmente em busca deles para os ajudar e sabe como reconciliá-los com Deus, se a ela recorrem.
    Desejava Isaac comer alguma caça e prometeu a Esaú que o abençoaria, se lha trouxesse. Mas Rebeca queria que esta bênção coubesse a Jacó, outro filho seu. Mandou-o por isso buscar dois cabritos e guisou-os a gosto de Isaac (Gn 27,9). Os cabritos são a imagem dos pecadores, e Rebeca, segundo S.Antonio, é figura de Maria. Trazei-me os pecadores, diz a Senhora, aos anjos quero prepará-los, obtendo-lhes contrição e bom propósito, para que se tornem dignos e agradáveis a meu Senhor. Revelou a própria Virgem Santíssima a S.Brígida que não há no mundo pecador tão inimizado com Deus, que se não converta e recupere a divina graça, se a invocar e a ela recorrer. Certo dia a mesma santa ouviu Jesus Cristo dizer a sua mãe que ela estaria pronta para obter a divina graça até mesmo a Lúcifer, caso este se humilhasse e implorasse seu auxílio. Jamais aquele espírito soberbo saberá humilhar-se para impetrar o socorro de Maria. Fora isso, entretanto, possível, dele tivera a Virgem piedade, e o poder de suas preces lhe obtivera perdão e salvação. Mas o que não é possível a respeito do demônio acontece com os pecadores que se dirigem a esta compassiva Mãe.
    Figura foi de Maria a arca de Noé. Pois como nela acharam abrigo todos os animais da terra, igualmente sob o manto de Maria encontram refúgio todos os pecadores, cujos vícios e pecados sensuais os tornam semelhantes aos brutos. Há esta diferença, entretanto, observa Pacciucchelli: na arca entraram os brutos e brutos ficaram. Olobo ficou sendo lobo e o tigre ficou sendo tigre. Mas debaixo do manto de Maria o lobo é mudado em cordeiro e o tigre em pomba. Um dia viu S.Gertrudes a Maria com o manto aberto e debaixo dele muitas feras de diversas espécies: leopardos, ursos, etc. Viu também que a Virgem nao os afugentava, mas antes docemente os recebia e afagava. Entendeu a Santa que eles figuravam os míseros pecadores, acolhidos por Maria com afável amor, quando a ela recorrem.
    Razão sobejava, pois, a Egídio de Schoenau ao dizer à Santíssima Virgem: "Senhora, não detestais a nunhum pecador, por mais asqueroso e abominável que seja. Se lhe implora vossa proteção, nunca deixais de estender-lhe compassiva mão para arrancá-lo do abismo do desespero" Bendito e para sempre louvado seja Deus, que vos fez, ó Maria amabilíssima, tão compassiva e tão benigna até para com os mais miseráveis! Infeliz de quem não vos ama, e que podendo recorrer a vós, em vós não confia! Perde-se quem a Maria não recorre, mas quem jamais se perdeu, depois de implorá-la?


Santo Afonso Maria de Ligório

quinta-feira, 19 de maio de 2016

20 de maio - Maria é realmente a esperança dos pecadores

    Depois que Deus criou a Terra, criou também dois luzeiros. Um maior, isto é , o Sol, para que iluminasse de dia. Outro menor, isto é, a Lua, para que brilhasse à noite (Gn 1,16). O sol, diz o Cardeal Hugo, é a figura de Jesus Cristo, de cuja luz gozam os justos que vivem no dia da divina graça. A lua, é a figura de Maria, por meio da qual são iluminados os pecadores que vivem na noite do pecado. Já que Maria é esta lua propícia aos miseráveis pecadores, se algum miserável, diz Inocêncio III, se acha imerso nesta noite de culpa, que há de fazer? Aquele que perdeu a luz do sol, perdendo a divina Graça, volte-se para a lua, faça oração a Maria; dela receberá luz para conhecer a miséria de seu estado e força para deixá-lo imediatamente. Garante-nos S.Metódio que os rogos de Maria convertem continuamente uma quase inumerável multidão de pecadores.
    Um dos títulos com que a Santa Igreja saúda Maria e que muito anima os pobres pecadores, é aquele da Ladainha: Refúgio dos Pecadores.
    Havia na Judéia, outrora, cidades de refúgio, nas quais os culpados podiam abrigar-se e ficavam a salvo das penas merecidas. Agora já não há tantas cidades de refúgio como antigamente. Só há uma , que é Maria Santíssima, da qual foi dito: Coisas gloriosas se tem dito de tí, ó cidade de Deus (Sl 86,3). Existe aqui uma diferença porém. Nas antigas cidades de refúgio não havia asilo para todos os culpados, nem para toda a sorte de delitos, enquanto que sob o manto de Maria  acham refúgio todos os pecadores e toda a espécie de delito. Basta que se recorra a ela, para se estar a salvo. Sou cidade de refúgio para todos que a mim recorrem, faz S.Damasceno dizer nossa Rainha. Só se exige que a ela se recorra, "Ajuntai-vos e entremos na cidade fortificada e guardemos aí silêncio" (Jr 8,14). Esta cidade fortificada, explica S.Alberto Magno, é a Santíssima Virgem fortificada em graça e glória.
    "Guardemos aí silêncio"- a isso observa a Glossa: Já que nós não temos de pedir ao Senhor, basta que entremos nesta cidade, e nos calemos; porque Maria falará e rogará por nós. Exorta por isso Benedito Fernandes todos os pecadores a refugiarem-se sob o manto de Maria, dizendo: Fugi ó Adão, ó Eva, fugi ó filhos seus que tem ofendido a Deus, fugi e refugiai-vos no ceio desta boa Mãe. Não sabeis que é ela a única cidade de refúgio e a única esperança dos pecadores? Também nos sermões atribuídos a S.Agostinho, Maria é chamada nossa única esperança.
    Da mesma forma exprime-se S. Efrém: Vós sois a única advogada dos pecadores e daqueles que precisam de todo o socorro. Eu vos saúdo como asilo e refúgio no qual ainda podem os pecadores achar salvação e acolhimento. E isto precisamente Davi queria fazer com as palavras: Ele me põe a coberto no escondido do seu tabernáculo (Sl 26,5). E quem é este tabernáculo de Deus, senão Maria, como a chama André de Creta? "Tabernáculo feito por Deus, em que só Deus entrou para cumprir os grandes mistérios da Redenção".
    Diz a este propósito o grande padre da Igreja S.Basílio, que o Senhor nos deu Maria como um hospital público, onde se podem recolher todos os enfermos, que são pobres e desamparados de todos os socorros. Ora, pergunto eu, quais são os que mais direito tem a ser admitidos nos hospitais destinados aos indigentes? Não são porventura os mais pobres e mais enfermos? Portanto, quem se achar mais pobre, isto é, mais despido de merecimentos, e mais oprimido das enfermidades da alma, que são os pecados, pode dizer a Maria: Senhora, vós sois o refúgio dos enfermos pobres; não me desampareis. Pois, sendo eu o mais pobre de todos, tenho mais razão para que me aceiteis. Digamos com S.Tomás de Vilanova: Ò Maria, nós, miseráveis pecadores, não sabemos achar outro refúgio fora de vós. Sois nossa única esperança, a quem confiamos a nossa salvação; perante Jesus Cristo sois nossa única advogada, a quem nos dirigimos.
    Astro precursor do sol é Maria, nas revelações de S.Brígida. Quer isto dizer: Quando em uma alma pecadora desponta a devoção a Maria, é sinal certo que dali a pouco Deus a virá enriquecer com a sua graça. Para avivar nos pecadores a confiança na proteção de Maria, recorre o glorioso S.Boaventura à imagem de im mar atingido pela tempestade. Os pecadores já caíram da nau da divina graça e são carregados, de todos os lados, sobre as ondas, pelos remorsos de consciência e pelo temor da justiça de Deus,sem luz nem guia. Já estão próximos de perder toda a esperança, prestes a desesperar. Eis que neste momento o Senhor lhes mostra Maria, Chamada comumente Estrela do Mar, e brada-lhes: Pobres pecadores, já que estais quase perdidos, não desespereis; volvei os olhos para esta formosa Estrela e confiai ; pois Maria vos livrará desta tempestade e vos conduzirá ao porto da salvação.
    O mesmo diz S.Bernardo: Se não queres ficar submergido das tempestades, olha para a Estrela e chama por Maria para que te socorra. Pois, como Blósio, é ela a única salvação de quem ofendeu  Deus, o único refúgio dos tentados e atribulados. -Esta Mãe de misericórdia é toda benigna , toda suave, nao só para com os justos, mas também para com os pecadores e desamparados. Logo que os vê recorrer a ela, pedindo de coração seu auxílio, prontamente os socorre, acolhe-os e obtem-lhes o perdão de seu Filho. A ninguém desdenha, por mais indigno que seja. A ninguém sonega a sua proteção, a todos consola e, apenas é chamada já está presente. Com sua bondade infinita muitas vezes atrai à sua devoção os afastados de Deus e desperta-os da letargia do pecado. Por este meio diepoem -se receber a graça e tornam-se finalmente dignos da eterna glória. De coração compassivo e tão amável dotou o Senhor esta sua filha predileta, que ninguem pode recear recorrer à sua intercessão. Enfim, conclui o piedoso Blósio, não é possível que se perca quem com diligência e humildade cultiva a devoção para com a divina Mãe.

Santo Afonso Maria de Ligório  

quarta-feira, 18 de maio de 2016

19 de maio - Maria é a esperança de todos

    S.Germano, reconhecendo em Maria a fonte de todo o nosso bem e a libertação de todos os males, assim a invoca: Ò Senhora minha, sois a minha única consolação dada por Deus, vós o guia da minha peregrinação, vós fortaleza de minhas débeis forças; a riqueza das minhas misérias, a liberdade das minhas cadeias, e a esperança da minha salvação. Ouvi as minhas orações, tende compaixão dos meus suspiros, ó minha Rainha, que sois o meu refúgio, minha vida, meu auxílio, minha esperança, minha fortaleza!
    Tem, portanto, razão S.Antonino ao aplicar a Maria estas palavras de Sabedoria (7,11): Juntamente com ela me vieram todos os bens. Já que Maria é a mãe e a dispensadora de todos os bens, diz ele, bem se pode afirmar que todos os homens, especialmente os que vivem no mundo como devotos desta Soberana, juntamente com a devoção de Maria adquiriram todos os bens. Por isso, sem mais restrições, dizia o abade de Celes: quem ama Maria acha todo o bem, acha todas as graças e todas as virtudes. porque ela por sua intercessão lhe alcança tudo quanto lhe é necessário para enriquecê-lo com a divina graça. - Ela própria nos faz cientes de ter consigo todas as opulências de Deus, isto é, as divinas misericórdias, para dispensá-los aos que a amam "Comigo estão as riquezas ...a magnífica opulência...para enriquecer os que me amam" (Pr 8,18,21) . Exorta-nos por isso Conrado de Saxônia a que não retiremos os olhos das mãos de Maria, a fim de, por seu intermédio, recebermos os bens que almejamos.
    Oh! quantos soberbos, com a devoção de Maria, acharam a humildade: quantos coléricos, a mansidão; quantos cegos, a luz; quantos desesperados, a confiança; quantos transviados, a salvação! E isto mesmo o profetizou ela, quando proferiu em casa de Isabel aquele seu sublime cântico: Eis que desde agora todas as gerações me chamarão de bem-aventurada (Lc 1,48). Sim, ó Maria, todas as gerações chamar-vos-ão de bem- aventurada - comenta S.Bernardo- porque a todas tendes dado a vida e a glória; pois em vós acham perdão os pecadores e perseverança os justos. O piedoso Landspérgio imagina o Senhor falando assim ao mundo: "Homens, pobres filhos de Adão, que vives no meio de tantos inimigos e de tantas misérias, procurai honrar com especial afeto a minha e vossa Mãe; pois eu dei Maria ao mundo para vosso exemplo, para que dela aprendais a viver como é devido. Dei-a como vosso refúgio para que a ela recorrais em vossas aflições. Esta minha filha eu a fiz tal, que ninguém a pudesse temer, nem ter repugnância de recorrer a ela. Exatamente por isso a formei tão benigna e compassiva, que nem sabe desprezar os que a invocam, nem sonegar seus favores a quem a suplica. A todos abre o manto de sua misericórdia e não despede alma nenhuma desconsolada".
    Louvada seja pois, e bendita a imensa bondade de nosso Deus, que nos concedeu esta excelsa Mãe e advogada tão terna e amorosa!
    Como são ternos os sentimentos de confiança de um S.Boaventura, tão abrasado de amor para com nosso redentor e nossa amantíssima advogada, Maria! Ainda que o Senhor tenha-me reprovado quanto quiser, exclama o Santo, eu sei que ele não pode negar-se a quem ama e a quem de todo coração o busca. Eu o abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não o deixarei; sem me levar consigo, ele não poderá ausentar-se .
    Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro das suas chagas, onde ficarei para que me não possa encontrar fora de si. Finalmente, se o meu Redentor, por causa das minhas culpas, me lançar fora dos seus pés, eu me prostrarei aos pés de Maria, sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto ela não me alcançar o perdão. Por ser Mãe de Misericórdia, nem recusa nem jamais recusou compadecer-se de nossas Misérias, e socorrer os infelizes que imploram o auxilio. E assim, se não por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir o filho a perdoar-me.
    Olhai, pois, para nós, concluamos com Eutímio, olhai para nós finalmente com vossos olhos piedosos, ó Mãe nossa misericordiosíssima! Pois somos servos vossos e em vós temos colocado toda a nossa esperança!

Santo Afonso Maria de Ligório

terça-feira, 17 de maio de 2016

18 de Maio - Maria é realmente a nossa Esperança

    Não suportam os hereges modernos que nós saudemos e chamemos Maria nossa esperança. Dizem que só Deus é nossa esperança, e que ele amaldiçoa quem põe sua confiança na criatura. "Maldito o homem que confia no homem" (Jr 17,5). Maria é criatura, objetam eles;como, pois, uma criatura há de ser a nossa esperança? Isto dizem os hereges. Entretanto quer a Santa Igreja que cada dia todos os eclesiásticos e todos os religiosos em voz alta, e em nome de todos os fiéis, invoquem e chamem Maria com este nome de esperança nossa.
    De dois modos, diz o Angélico S.Tomás, podemos por nossa esperança numa pessoa, como causa principal ou como causa mediante. Quem deseja obter do rei uma graça, espera alcançá-la do rei como soberano e senhor, e espera obtê-la do seu ministro ou valido, como intercessor. No último caso a fraça concedida veio do rei, mas por intermédio do seu valido.- Portanto, quem pretende a graça com razão chama aquele seu intercessor a sua esperança. Por ser infinita bondade, sumamente deseja o Rei do céu enriquecer-nos com as suas graças. Mas porque para tanto é necessária da nossa parte a confiança, deu-nos o Senhor, para aumentá-la, sua própria mãe por advogada e intercessora, e concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer. Por esta razão quer também que nela coloquemos a esperança de nossa Salvação e todo o nosso bem. Sem dúvida são amaldiçoados pelo Senhor, como diz Jeremias, aqueles que põem sua confiança na criatura unicamente. Tal é o procedimento dos pecadores que, em troca de amizade e dos préstimos de um homem, não se incomodam de ofender a Deus, São abençoados pelo Senhor e lhe são agradáveis, porém, os que esperam em Maria, tão poderosa como Mãe de Deus, para impetrar-lhe as graças e a vida eterna. Pois assim quer Deus ver honrada aquela excelsa criatura, que neste mundo o amou e honrou mais do que todos os anjos e homens juntos.
    É, portanto, com muita razão que chamamos à Virgem esperança nossa, porque, como diz S.Roberto Belarmino, cardeal, esperamos por sua intercessão obter o que não alcançaríamos só com nossas orações. Invocamo-la, observa Suarez, para que a dignidade da intercessora supra a nossa falta de méritos. De modo que, continua ele, invocar a Virgem com tal esperança não é desconfiar da misericórdia de Deus, senão temer pela própria indignidade.
    Motivo tem pois, a Igreja em aplicar a Maria as palavras do Eclesiástico (24,24), com as quais vos chama a Mãe da Santa esperança, Mãe que fez nascer em nós, não a esperança vã dos bens transitórios desta vida, mas a santa esperança dos bens imensos e eternos da vida bem-aventurada. Salve, esperança de minha alma, saudava-a S.Efrém, salve, ó segura salvação dos cristãos, auxílio dos pecadores, defesa dos fiéis, salvação do mundo. Aqui pondera S.Boaventura que, depois de Deus, outra esperança não temos senão Maria e por isso a invoca " como única esperança nossa depois de Deus". Também é esta a convicção de S.Efrém. Reflete o Santo sobre a presente ordem da Providência, com que Deus tem determinado que todos, que se hão de salvar, hajam de o conseguir por meio de Maria. e Diz-lhe Então: Senhora, não deixeis de guardar-nos e de proteger-nos sob vosso manto, já que depois de Deus não temos outra esperança senão a vós. O mesmo diz S.Tomás de Vilanova, para quem Maria é nosso único refúgio, socorro e asilo. S.Bernardo parece nos dar o motivo de tudo isso quando diz: "Considerai, ó homem, o designio de Deus, desígnio cuja finalidade é dispensar-nos mais profundamente sua misericórdia. Querendo ele remir o gênero humano, depositou o preço inteiro da redenção nas mãos de Maria para que o reparta à sua vontade".

    Ordenou o Senhor a Moisés que fizesse de ouro puríssimo o propiciatório, dizendo que daí lhe queria falar: Farás outrossim um propiciatório e finíssimo ouro...daí é que eu te darei minhas ordens e te falarei (Ex 25,17 e 22) Na opinião de Pacciucchelli, Maria é este propiciatório de onde o Senhor dala aos homens e concede-nos o perdão, a graça e todos os seus demais dons. Por isso foi que o Verbo Divino, antes de encarnar-se no seio de Maria, mandou o arcanjo pedir-lhe o consentimento; pois Deus queria que a ela ficasse o mundo devendo o mistério da Encarnação. Assim discorre S.Ireneu. Por este motivo diz o Abade de Celes: Todos os bens, todas as graças, os auxílios todos que jamais receberam ou até ao fim do mundo receberão os homens, lhes tem vindo e hão de vir por intermédio de Maria. É portanto, mui justa a exclamação do piedoso Blósio: Ó Maria, sois tão amável e agradecida para com os que vos amam; quem será tão louco ou infeliz que não vos ame? Nas dúvidas e confusões ilustrais o entendimento daqueles que a vós recorrem nas suas aflições. Consolais nos perigos aqueles que em vós confiam. Acudis a quem por vós chama; vós, depois do vosso divino Filho, sois a segura salvação de vossos fiéis servos. Salve, pois, ó esperaça dos desesperados, ó refúgio os abandonados. Sois onipotente, ó Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo quanto vós quereis.

Santo Afonso Maria de Ligório



17 de maio - Maria é nosso auxílio no tribunal divino

     Quando uma alma está pra sair desta vida, diz Isaías, se conturba o inferno todo e manda os demônios mais terríveis a tentá-la antes de sair do corpo e depois acusá-la, quando se apresentar ao tribunal de Jesus Cristo. " O inferno via-se lá embaixo à tua chegada todo turbado, e diante de ti levanta gigantes" (Is 14,9) . Mas Ricardo diz que os demônios, em se tratando de uma alma patrocinada  por Maria, não terão atrevimento, nem ainda para acusá-la. Pois sabem muito bem que o juiz nunca condenou, nem condenará jamais, uma alma patrocinada por sua grande Mãe. S.Jerônimo escreve à virgem Eustóquio que Maria não só socorre seus amados servos na sua morte, mas também os vem esperar na passagem para a eternidade, a fim de os animar e de os acompanhar até o tribunal divino. Ò dia esse, exclama o Santo, em que a Mãe de Deus, rodeada de muitas virgens, há de vir ao seu encontro! E isto se conforma com que a mesma Santíssima Virgem disse a S.Brígida, referindo-se a seus devotos moribundos: Na hora da morte de meus servos eu venho, como Senhora e Mãe amantíssima deles, e lhes trago consolo e alívio. Ajunta S.Vicente Ferrer que a bem-aventurada Virgem recebe as almas dos que morrem. Nossa amorosa Rainha acolhe sob seu manto as almas dos seus servos, apresenta-lhes ao filho que as deve julgar e obtém-lhes a salvação. Foi o que aconteceu a Carlos, filho de S.Brígida. Morrera na perigosa carreira de soldado, longe da mãe, que por isso mesmo muito temia pela salvação dele. Mas a Santíssima Virgem revelou-lhe que Carlos se havia salvo, pelo grande amor que lhe consagrava, razão por que ela própria o assistira na última hora, sugerindo-lhe todos os atos cristãos necessários na última hora. Ao mesmo tempo, viu a Santa, Jesus Cristo no trono, e viu também que o demônio lhe apresentou duas acusações contra a Santíssima Virgem. Era a primeira que Maria lhe tinha impedido de tentar o moribundo; a segunda, que ela mesma havia apresentado ao juiz a alma de Carlos e assim a salvara, sem lhe permitir alegar nem ainda os direitos que ele, demônio, possuía.
    Seus vínculos são uma atadura de salvação - e nela acharás tu no fim o descanso (Eclo 6,29, 31). Feliz de ti, meu irmão, se na hora da morte te achares preso pelas doces cadeias do amor à Mãe de Deus. Como cadeias de salvação, esses vínculos te assegurarão a tua eterna bem-aventurança, e te farão gozar na morte aquela paz bendita, que será princípio da paz e do repouso eterno. Refere o Padre Binetti, no seu livro "A Perfeição", que assistindo ele um grande devoto de Maria à hora da morte, o ouviu dizer ao expirar: " ó meu padre, se soubésseis quanto contentamento sinto por ter sido servo da Santíssima Mãe de Deus! não sei explicar a alegria que sinto nesse instante"! Tinha o padre Suarez muita devoção à Nossa Senhora e costumava dizer que trocaria sua ciência pelo valor de uma Ave-Maria. Ao morrer, tanta lhe era a alegria, que exclamou: Nunca imaginei que fosse tão suave morrer! O mesmo contentamento e alegria sentirás também tu, devoto leitor, se na hora da morte te recordares de haver amado esta Mãe, a qual não sabe deixar de ser fiel com seus filhos, que foram fiéis em servi-la e em obsequiá-la, visitando-lhe as imagens, rezando o rosário, jejuando, rendendo-lhe graças com frequência, louvando-a e encomendando-se a seu poderoso patrocínio.
    Não te privará desta consolação a lembrança de teus pecados passados, se de hoje em diante cuidares em viver como bom cristão, servindo a tão grata e benigna Senhora. Verdade é que o demônio há de vir com angústias e tentações para levar-te ao desespero. Mas a virgem te confortará; virá em pessoa te assistir na hora da morte, como fez a Adolfo, conde de Alsácia. Deixara ele o mundo e entrara na ordem dos Franciscanos, onde se tornara, como rezam as Crônicas, um grande servidor de Maria. Estando para morrer, ao pensar no rigor do juízo divino, começou a tremer perante a morte, cheio de receios sobre a sua salvação. Então Maria, que não dorme nas angústias de seus servos, acompanhada de muitos santos, se apresentou ao moribundo e animando-lhe disse: Meu caro Adolfo, porque tens medo da morte? Porventura não me pertences? Com estas palavras o servo de Maria se consolou, desaparecendo todos os seus temores e expirou em santa paz e contentamento.
    Eia, pois, animemo-nos nós também. Ainda que sejamos pecadores, tenhamos confiança que Maria há de vir assistir-nos na hora da morte, consolando-nos com sua presença, se a servimos com amor durante os dias que ainda nos restam no mundo. Nossa Rainha prometeu um dia a S.Matilde que havia de vir assistir, à hora da morte, todos os seus devotos que a servissem fielmente em vida. Que consolação, ó meu Deus, não será a nossa, quando no último momento de nossa vida, tão decisivo para a causa da nossa salvação, virmos ao pé de nós a Rainha do Céu, assistindo-nos e consolando-nos com a promessa de sua proteção! Inumeráveis exemplos da assistência de Maria a seus servos moribundos, além dos já citados, vêm narrado em vários livros. Esse favor foi concedido a S.Felix de Cantalício, capuchinho, a S.Clara de Montefalco, a S. Teresa, a S.Pedro de Alcântara. Conta que o padre Crasset que S.Maria Ognocense viu a Santíssima Virgem à cabeceira de uma devota viúva, que ardia em febre; e viu-a consolando a doente, refrigerando e aliviando-a em sua febre.
   
Santo Afonso Maria de Ligório    

domingo, 15 de maio de 2016

16 de maio- Maria é nosso conforto na morte

     "Aquele que é amigo o é em todo tempo; e nos transes apertados conhece-se o irmão" (Pr 17,17) . Os amigos verdadeiros e oa verdadeiros parentes não se conhecem no tempo da prosperidade, mas sim no das angústias e das desventuras. Os amigos do mundo não deixam o amigo, enquanto está em prosperidade. Mas o abandonam imediatamente, se lhe acontece uma desgraça ou ele se avizinha a morte. Tal não é o procedimento de Maria com seus devotos. Nas suas angústias e especialmente nas da morte, que de todas são as piores, essa boa mãe não abandona seus fiéis servos. Como é nossa vida no tempo do nosso degredo, obtendo-nos um suave e feliz trânsito. Desde aquele dia em que teve a dor e juntamente a felicidade de assistir à morte de Jesus, seu Filho, cabeça dos predestinados. Por isso a Santa Igreja manda rogar à Bem-aventurada Virgem: Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte.
    Muito e muito grandes são as angústias dos pobres moribundos, já pelos remorsos dos pecados cometidos, já pelo horror do próximo juizo, já pela incerteza da salvação eterna. É então que o inferno lança mão de todas as armas e empenha todas as reservas para ganhar aquela alma que passa para a eternidade. Bem sabe que pouco tempo lhe resta para obtê-la e que para sempre  perde, se então lhe escapar. "O demônio desceu a vós cheio de uma grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo" (Ap 12,12) . Costumando a tentá-la durante a vida, não se contenta de ser ele só que a tenta na morte, mas chama companheiros  para ajudarem. "Encher-se-ão as suas casas com dragões" (Is 14,21). Quando alguém está para morrer, entram-lhe pela casa demônios que à porfia tentam perdê-lo.
    De S.André Avelino conta-se que, estando para morrer, vieram muitos demônios para tentá-lo. E de tal modo investiram contra ele, que deixaram horrorizados aos bons religiosos que o estavam assistindo. Viram eles que o santo se lhe inchou com grande grande agitação o rosto, de tal sorte que se fez de todo negro. Viram-no tremer e debater-se. De seus olhos corriam lágrimas e violentos lhe eram os movimentos da cabeça. Tudo sinais da horrível peleja que lhe dava o inferno. Os religiosos choravam de compaixão, redobravam de orações e tremiam de pavor, vendo que assim morria um santo. Mas consolavam-se em ver que o Santo repetidas vezes movia os olhos para uma devota imagem de Maria, como quem procurava o seu socorro. Vinha-lhes à lembrança a frase na qual ele afirmara que a Mãe de Deus havia de ser o seu refúgio na hora da morte. Enfim, foi Deus servido que terminasse as convulsões do corpo, desinchado e tornado o rosto à sua cor antiga, de olhos tranquilamente fixos naquela imagem, fazer uma devota inclinação a Maria ( a qual se crê que então lhe apareceu), como em ação de graças, e expirou placidamente nos braços da Mãe de Deus, tendo no rosto a transfiguração dos eleitos. Ao mesmo tempo uma religiosa capuchinha, agonizante, voltou-se para as que a assistiam e lhes disse: Rezai a Ave-Maria, porque agora morreu um Santo.
    Ah! como fogem os demônios à presença de Nossa Senhora! Se na hora da morte tivermos Maria a nosso favor, que poderemos recear do inferno? Reanimava-se Davi para as terríveis angústias da sua morte, pondo sua confiança na morte do futuro Redentor e na intercessão da Virgem Maria. "Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte não temerei males; porquanto tu estás comigo. A tua vara e o teu báculo, eles me consolam" (Sl 22,4-5). Pelo báculo entende o Cardeal Hugo o lenho da cruz e pela vara a intercessão de Maria, que foi a vara profetizada por Isaías. Esta Divina Mãe, diz S.Pedro Damião, é aquela poderosa vara que vence todas as violências dos inimigos infernais. Anima-se por isso S.Antonino, dizendo: Se Maria é por nós, quem será contra nós? - Estando à Morte o padre Manuel Padial, da companhia de Jesus, apareceu-lhe Maria, que, para consolá-lo, lhe disse: "Eis finalmente, é chegada a hora em que os anjos, congratulando-se contigo vão dizer: Ó felizes trabalhos, ó bem recompensadas mortificações! E nisso foi visto um bando de demônios que , desesperados, fugiam gritando: Ai! que bada podemos, porque aquela que não tem mancha o defende! Da mesma forma o Padre Gaspar Haywood fooi assaltado por uma grande tentação contra a fé. Encomendou-se, porém, sem demora à Virgem Santíssima e ouviram-no exclamar: Sinceros agradecimentos, ó Maria, porque me viestes ajudar.
    Como assevera Conrado de Saxônia, a Santíssima Virgem, em defesa dos fiéis moribundos, manda o príncipe S. Miguel com todos os seus anjos, para protegê-los contra as tentações do demônio e lhes receber as almas, com especialidade as daqueles seus servos que se recomendaram continuamente a ela.


Santo Afonso Maria de Ligório

15 de maio - Por intermédio de Maria obtemos a graça da Perseverança

    Com as palavras dos Provérbios a nós se dirige Maria: Feliz aquele que me ouve e que vela todos os dias à entrada da minha casa (8,34) Feliz quem escuta a minha voz e por isso está alerta para vir sempre à porta de minha Misericórdia, em busca de socorro e de luzes. Sem dúvida não deixará Maria de obter-lhe luzes e força para sair do vício e trilhar pela vereda da virtude. Pelo que graciosamente Inocêncio III lhe chama "Lua da noite, aurora da manhã, sol de dia". É lua para quem está cego na noite do pecado, a fim de esclarecê-lo e mostrar-lhe o miserável estado de condenação em que se acha. É aurora, isto é, precursora do sol, para quem está iluminado, a fim de o fazer sair do pecado e recuperar a divina graça. Para quem já está em graça é finalmente sol, cuja luz o livra de cair em algum precipício.
    Aplicam os Santos Doutores a Maria as palavras do Eclesiástico: Suas cadeias são ataduras de salvação (6,31) Mas cadeias por quê? , pergunta Ricardo de S. Lourenço. Porque Maria prende os seus servos, para que não se desviem pela estrada dos vícios. Do mesmo modo explica Conrado de Saxônia as palavras que se encontram no ofício da Santíssima Virgem : " Na plenitude dos santos se acha a minha assistência" (Eclo 24,16) Maria não só está colocada na plenitude dos Santos, diz ele, mas também nela os conserva para que não tornem para trás; conserva-lhes as virtudes, a fim de que não diminuam; impede os demônios, para que não lhes façam mal.
    Dos devotos de Maria diz-se que estão cobertos com dois vestidos: "Todos os seus domésticos trazem vestidos forrados" (Pr 31,21). Maria, expõe Cornélio a Lápide, adorna os seus fiéis servos tanto com as virtudes de seu Filho, como com as suas, e assim revestidos conservam eles a santa perseverança. Desta forma explica este comentador quais são estes vestidos duplicados. S. Felipe Neri sempre admoestava os seus penitentes dizendo-lhes: Filhos, se desejais a perseverança, sede devotos de Nossa Senhora! São João Berchmans, dizia também: Quem amar Maria terá perseverança. Bela é a reflexão que faz aqui o Abade Roberto, sobre a parábola do filho pródigo: Se ainda lhe vivesse a Mãe, não deixara o filho pródigo a casa paterna, ou para ela regressara mais depressa do que voltou. Quer com isso dizer que um filho de Maria, ou nunca se aparta de Deus, ou, se por desgraça o faz, logo para ele torna por meio de Maria.
    Oh! se todos os homens amassem esta tão benigna Mãe e amorosa Senhora, e se nas tentações sempre e sem demora recorressem a seu patrocínio, quem cairia jamais? Quem se perderia jamais? Cai e perece só quem não recorre a Maria, S. Lourenço Justiniano, aplicando à Virgem o texto do Eclesiástico: "Eu andei sobre as ondas do mar" (24,8), fá-la dizer: Caminho com meus servos por entre as tormentas em que se acham, para assistí-los e salvá-los do pecado.
    Quando nos vem tentar o Demônio, escreve S. Tomás de Vilanova, não deixemos de fazer como os pintinhos, que mal enxergam o gavião, correm logo a refugiar-se sob s asas da mãe. Logo que nos assaltam tentações, sem discorrer com elas, refugiemo-nos depressa sob o manto de Maria. E vós Senhora, deveis defender-nos, continua o Santo: Depois de Deus outro refúgio não temos senão vós, que sois a a nossa única esperança e protetora, em quem confiamos.
    Conclamamos, pois, com as palavras de S.Bernardo: "Homem, quem quer que sejas, já sabes que nesta vida vais flutuando mais entre perigos e tempestades, do que caminhando sobre a terra. Se não queres ser submergido, não apartes os olhos dos resplendores desta estrela. Olha para a estrela, chama por Maria. Nos perigos de pecar, nas moléstias das tentações, nas dúvidas do que deves resolver, considera que Maria te pode ajudar, chama logo por ela para que te socorra. O seu poderoso nome nunca se aparte do teu coração pela confiança, nem de tua boca para o entoares. Seguindo a Maria, não errarás o caminho da salvação. Quando te encomendas a ela, não desconfies; sustendo-te ela, não cairás. Protegendo-te ela, não perder-te-ás; sendo tua guia, sem fadiga te salvarás. Em suma, pretendendo Maria defender-te, certamente chegarás ao reino dos bem-aventurados".

Santo Afonso Maria de Ligório

sexta-feira, 13 de maio de 2016

14 de maio - Sem Maria não alcançamos a graça da perseverança

    A perseverança final é um dom Divino tão grande que, como disse o santo Concílio de Trento, é um dom de todo gratuito que por nada podemos merecer. Contudo S.Agostinho diz que alcançam de Deus a perseverança todos aqueles que lha pedem. E conforme diz o Padre Suárez, infalivelmente a alcançam, sendo diligentes até o fim da vida em a pedir a Deus. Por isso escreve S.Belarmino: Peça-se a perseverança todos os dias, para que seja obtida cada dia. Ora, se é verdade - como eu o tenho por certo, conforme a sentença hoje comum, como depois mostrarei no capítulo VI- se é verdade, digo, que quantas graças Deus nos dispensa, todas passam pelas mãos de Maria, é também verdade que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir esta sublime graça da perseverança. Esta mesma graça promete a todos aqueles que fielmente a servem nesta vida. "Os que agem por mim não pecarão; aqueles que me esclarecem, terão a vida eterna" (Eclo 24,30).

    Para nossa conservação na vida da divina graça, é-nos necessária a fortaleza espiritual que nos leva a resistir a todos os inimigos da salvação. Ora, esta fortaleza só por meio e Maria se alcança. "Minha é a fortaleza; por mim reinam os reis" (Pr 8,14). Minha é esta fortaleza, diz Maria; Deu depositou em minhas mãos este dom, para que eu conceda aos meus devotos servos. "Por mim reinam os reis", por meu intermédio reinam os meus servos, e dominam sobre todos os seus sentidos e paixões, e assim dignos se tornam de um reino eterno no céu. Oh! quanta força possuem os servos desta grande Rainha para vencer todas as tentações do inferno! È Maria aquela decantada torre dos Sagrados Cânticos: Teu pescoço é como a torre de Davi, que foi a armadura dos esforçados (4,4). Para os que a amam e a ela recorrem nos combates, é como uma torre forte e cingida de todas as armas na luta contra o inferno.
    A Santíssima Virgem é por isso chamada de plátano. "Eu me elevei como o plátano á borda d'água, nos caminhos" (Eclo 24,19). Diz o Cardeal Hugo que as folhas do plátano são semelhantes a um escudo. Assim se explica a proteção de Maria para com aqueles que a ela acolhem. O Beato Amadeu dá uma razãoa estas palavras e diz: Assim como o plátano com a sombra dos seus ramos defende os transeuntes da chuva e do sol, do mesmo modo sob o manto de Maria acham os homens refúgio contra o ardor das paixões e a fúria das tentações.
    Infelizes as almas que se afastam desta defesa e cessam de venerar a Maria, e de se lhe  recomendar nos perigos! Que seria do mundo, se não nascesse mais o sol? Nada mais do que um caos de trevas e de horror - pergunta e responde S.Bernardo. "Retira o sol da terra e que será do dia? Perca uma alma a devoção para com Maria, e que será senão trevas? "Sim, a alma ficará cheia daquelas trevas de que fala o Espírito Santo: Puseste trevas e foi feita a noite; nela transitarão todas as alimárias das selvas (Sl 103,20). Quando em uma alma já não resplandece  a divina luz, e anoitece, ficará sendo um covil de todos os pecados e dos demônios. Ai daqueles, exclama S. Anselmo, que desprezam a luz deste sol, isto é, a devoção a Maria! Com razão temia S.Francisco de Borja pela perseverança doa que não davam provas de uma especial devoção á Santíssima Virgem. Perguntando certo dia aos noviços pelos santos de sua devoção, conheceu que deles alguns não eram especialmente devotos de Nossa Senhora. Advertiu o mestre de noviços que olhasse com mais atenção aqueles infelizes. E, de fato, todos eles perderam miseravelmente a vocação, e saíram da Companhia.
    Razão sobrava, portanto, a S Germano, ao chamar a Virgem de respiração dos cristãos. Pois como o corpo não pode viver sem respirar, tão pouco pode a alma sem recorrer e recomendar-se a Maria, por cujo intermédio adquirios e conservamos com segurança a vida da divina graça.
    O Beato alano, assaltado uma vez de uma forte tentação, esteve em termos de perder-se por se não ter recomendado a Maria. Apareceu-lhe então a Santíssima Virgem, e para o fazer mais advertido em outras ocasiões, bateu-lhe levemente no rosto e acrescentou: Se te houvesses recomendado a mim, não terias corrido tão grande risco.

Santo Afonso Maria de Ligório

quinta-feira, 12 de maio de 2016

13 de maio- Devem os pecadores procurar com Maria a graça de Deus

    Logo, se Maria não achou a graça para si, porque sempre dela esteve cheia, para quem achou? Responde o Cardeal Hugo, num comentário a este passo: Achou-a para os pecadores que a tinham perdido. Corram, pois, a Maria os pecadores que perderam a graça, porque em seu poder a acharão certamente, continua este devoto escritor, e digam-lhe: Senhora, a coisa achada deve-se restituir a quem perdeu; aquela graça, que vós achastes, não é vossa, porque nunca a perdestes, por isso no-la deves restituir. Se, pois, desejamos recuperar a graça do Senhor - conclui Ricardo de São Lourenço - , vamos a Maria, que a encontrou e sempre a encontra. E já que a Virgem foi e sempre há de ser muito querida por Deus, se a ela recorremos, certamente acharemos a graça. A própria Mãe de Deus garante-nos, nos Sagrados Canticos, que Deus a pôs no mundo para ser a nossa defesa e por isso também está constituida medianeira de paz entre Deus e os pecadores: "Eu me tenho na sua presença tornado como uma que acha a paz" (8,10). com estas mesmas palavras anima S.Bernardo o pecador, dizendo: Vai ter com esta Mãe de Misericórdia e mostra-lhes as chagas que na alma te fizeram os teus pecados. Ela não deixará de rogar a seu filho que te perdoe, por aquele leite que lhe deu; e o Filho, que tanto a ama, atende-la-a com toda certeza. Com efeito, a Santa Igreja nos manda pedir ao Senhor que nos conceda o poderoso socorro da intercessão de Maria, para que nos levantemos de nossos pecados. "Concedei, misericordioso Senhor, fortaleza à nossa fraqueza, para que nós, que celebramos a memória da Santa Mãe de Deus, pelo auxílio de sua intercessão, nos levantemos de nossas iniquidades".
    Com razão, pois, a chama S.Lourenço Justiniano esperança dos malfeitores, porque é a Virgem que lhe obtém o perdão. Acertadamente diz S.Bernardo, escada dos pecadores, porque dando a mão aos pobres decaído, os tira do precipício do pecado e fá-los subir a Deus. Com razão lhe chama Pseudo-Agostinho, única esperança de todos os pecadores, pois só por seu intermédio esperamos a remissão de todos os nossos pecados. E o mesmo diz S.João Crisóstomo: Os pecadores só por intercessão de Maria recebem o perdão. Por isso em nome deles assim o saúda  Santo; Deus te Salve, Mãe de Deus e nossa, céu onde Deus reside; trono, no qual dispensa o Senhor todas as graças; roga sempre a Jesus por nós, para que pelos teus rogos possamos alcançar o perdão no dia do juízo e a bem-aventurança na eternidade.
    Com razão, finalmente, é Maria chamada aurora. "Quem é esta, que vai caminhando como a aurora que se levanta?" (Ct 6,9). Sim, por isso dise Inocêncio III: sendo a aurora o fim da noite e o começo do dia, com razão a ela comparamos a Virgem Maria, que pôs termo aos vícios e fez nascerem as virtudes. E o mesmo efeito que causou no mundo o nascimento de Maria causa agora nas almas o nascimento de sua devoção. Põe termo à noite do pecado e faz andar a alma pelo iluminado caminho da virtude. Daí as palavras de S.Germano: ó Mãe de Deus, vossa proteção traz a imortalidade; vossa intercessão,  vida. E no sermão sobre o Cíngulo da virgindade diz o santo: " Pronunciar com afeto o nome de Maria ou é sinal de vida, ou de a ter brevemente. Cantou Maria o Magnificat: Eis que já desde agora me chamarão bem-aventurada todas as gerações (Lc 1,48). "Sim Senhora minha- acode S.Bernardo - , todos os vossos servos alcançam por vossa intercessão a vida da graça e a glória eterna. Em vós acham os pecadores o perdão, e os justos a perseverança, e depois a vida eterna". Não desconfieis, ó pecadores, diz o devoto B. Bernardino de Busti; ainda que tenhais cometido todos os pecados, recorrei com sinceridade à Mãe de Deus, pois sempre a encontrareis com as mãos cheias de misericórdia. E, ajunta: Maria deseja mais fazer e conceder-vos favores, do que vós desejais recebê-los.
    Na frase de S.André de Creta é a Santíssima Virgem penhor de perdão divino. Isto é, Deus promete garantido perdão aos pecadores, quando recorrem à Maria para que se reconcilie com o Senhor, e como garantia disso lhe dá um penhor. Este penhor é, sem dúvida, Maria Santíssima, que nos foi dada como intercessora. Por sua intercessão Deus perdoa, em vista dos merecimentos de Jesus Cristo, a todos os pecadores que a ela recorrem. Disse um anjo a S.Brígida que os santos profetas exultavam de alegria ao saber que Deus, pela humildade e pureza de Maria, havia de aplacar-se e receber á sua graça os pecadores que o haviam menosprezado.
    Nenhum pecador deve temer que Maria o desatenda se recorrer à sua piedade. Não, pois ela é Mãe de Misericórdia e como tal deseja salvar os mais miseráveis. Maria é aquela arca feliz, observa Egiberto, que livra do naufrágio a todos os que nela se refugiam. No tempo do dilúvio até os animais foram salvos na arca de Noé. Debaixo do manto de Maria se salvam também os pecadores. Certa vez viu S.Gertrudes , Maria Santíssima com um manto aberto, debaixo do qual estavam refugiadas muitas feras: Leões, ursos, tigres. Viu também como a Santíssima Virgem não só as afastava, mas com grande piedade as recolhia e afagava. E com isto entendeu a Santa que Ainda os pecadores mais perdidos, quando recorrem a Maria, não são expulsos, mas antes bem aceitos e salvos da morte eterna. Entremos pois, nesta arca; refugiemo-nos sob o manto de Maria. Sem dúvida ela não nos repelirá, mas seguramente há de nos salvar.

Santo Afonso Maria de Ligório

quarta-feira, 11 de maio de 2016

12 de maio - A oração de Maria obtém-nos a graça da justificação

    Para a exata compreensão da razão por que a Santa Igreja nos ordena que chamemos Maria nossa vida, é necessário saber que, assim como a alma dá vida ao corpo, assim também a graça divina dá vida a alma. Uma alma sem a graça divina só tem nome de viva, mas na realidade está morta, como foi dito àquele bispo no Apocalipse: Tens reputação de que vives, mas estás morto (Ap 3,1). Obtendo Maria por meio de sua intercessão a graça aos pecadores, deste modo lhes dá vida. Ouçamos as palavras que a Igreja lhe põe na boca, aplicando-lhe a seguinte passagem dos Provérbios: Os que vigiam desde manhã por me buscarem, achar-me-ão (8,17). Os que recorrem a mim desde manhã, isto é, sem demora, certamente me acharão. Ou, segundo a tradução grega: acharão a graça. De modo que recorrer a Maria é recobrara graça de Deus. Lemos por isso pouco depois: Quem me encontra, encontra a vida e receberá do Senhor a salvação. (Pr 8,35). Ouvi-lo, vós que procurais o reino de Deus, exclamou S.Boaventura, honrai a Santíssima Virgem Maria e achareis a vida juntamente com a eterna salvação.
    Na afirmativa de S.Bernardino de Sena, Deus não destruiu o homem logo após o pecado, devido ao singular amor para com esta futura filha. Não lhe resta a menor dúvida de que todas as misericórdias e mercês, em favor dos pecadores na Antiga lei, só lhes tinham sido feitas por Deus em consideração desta abençoada Virgem.
    Exorta-nos por isso, com razão, S,Bernardo: Procuremos a graça, mas procuremo-la por meio de Maria. Se formos tão infelizes, que perdemos a divina graça, procuremos recuperá-la por meio de Maria; porque se a perdemos ela a achou. E por este motivo o Santo lhe chama descobridora da graça. Para nossa consolação declarou S.Gabriel Arcanjo, quando disse à Virgem: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus (Lc 1,30).
    Mas, se Maria nunca se vira privada da graça, como podia dizer o anjo que tinha achado? Só se pode achar uma coisa que se perdeu. A Virgem, entretanto, sempre esteve com Deus e não só em Graça, mas cheia de graça, como o mesmo arcanjo manifestou, quando, ao saudá-la disse: Ave Maria, cheia de graça; o Senhor é contigo...

Santo Afonso Maria de Ligório