Mostrando postagens com marcador congregação mariana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador congregação mariana. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Meditação para o 1° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O presente domingo tem intima ligação com o anterior. O escândalo da cruz também se aparenta com a tribulação das tentações. Porque não viveremos em paz? Porquê este sentimento de instabilidade angustiosa debaixo dos nossos passos? Porque não serão seguros os caminhos?
     Da mesma forma que temos de sofrer, também temos de ser tentados; porque os sofrimentos e tentações são provas e garantias da nossa verdade interior. Somos sinceros para com Deus? Somos sinceros para conosco mesmos? No perigo se verá. Trata-se pois, duma simples prova, exame que pode e há de servir ao nosso triunfo na glória: " porque eras aceite a Deus, foi necessário que a tentação te provasse." ( Tob 12,18)
     É que, perante a facilidade com que nos iludimos e nos debilitamos, as tentações: ensinam-nos e fortalecem-nos.

1. ENSINAM

     1. Porque a paz ilude-nos sobre o que somos. Quando, na prosperidade tudo corre à medida dos nossos desejos, é tão difícil julgarmo-nos fortes, e atribuir-nos o bom êxito da nossa vida!... Daí que confiemos em nós mesmos, e que entremos a viver com a sensação habitual de segurança e estabilidade que supõem, por outro lado, esquecimento de Deus e da necessidade absoluta que temos d'Ele.
     
Vem a tentação a sacudir-nos a tranquilidade; declara-se uma crise em que tremem os arrimos que escoravam a nossa pretendida suficiência. E eis-nos desamparados, vogando ao acaso, com a revelação patente de todas as infâmias de que somos capazes, com as vertigens de todos os abismos. Aí está o que somos.
     2.A provação esclarece. É neste momento que a tentação nos ensina a orar e a apreciar a graça. Sentindo a nossa debilidade e atração do mal, espontaneamente olharemos para o céu e para Deus, como a criança que a mãe afastou um pouco, para a obrigar a caminhar para si. Saímos da terra firme e da segurança; fomos ao mar, colheu-nos a tempestade. E ao sentir-nos na solidão e na instabilidade das ondas, aprendemos a orar. E fizemos, a grande descoberta de que é pela graça que somos alguma coisa. O resto, ou é temperamento bem inclinado, ou clima moral de circunstâncias favoráveis.

2. FORTALECEM

     1. Porque a paz enfraquece-mos. O costume envilece. A prosperidade sempre bem sucedida, leva, insensivelmente, à rotina, à virtude sem convicção, à indolência moral. E como se insinuam, sutilmente, as impurezas do amor próprio nessa dormência da vontade que depôs as armas!... Como amortece aquela vigilância matutina, e aquele entusiasmo juvenil do querer, que fazem a autenticidade da virtude!...
     Mas lá vem a tentação, colocando o oiro no cadinho, e fazendo cair as escórias de todas as pequenas e grandes sensualidades! O mar agita-se, e as impurezas que por lá andavam, são lançadas à praia, e joeiradas no vai e vem das ondas. Quantas fibras do coração se doem, quando a vida nos sacode, quantos apegos secretos, vindos a lume, revelados nas crises que nos agitam, e obrigam as pequeninas feras a sair do esconderijo!...
     2. A provação enrijece. E então, somos obrigados a combater. Precisamos de fazer apelo a todos os recursos da alma e da graça. Temos de nos levantar a indolência a que nos habituáramos, de entrar na vida dura, que enrijece a vontade. A tempestade, ao passar, fez que a árvore se apegasse mais ao chão, deitando as raízes mais fundo. Formam-se, assim, hábitos de virtude, que são muito diferentes do descanso e da rotina. O hábito não é repouso, é força. Como, antigamente, as cartas de nobreza eram concedidas depois de grandes feitos militares, assim, nas tentações é que se alcançam os hábitos de virtude, que são a aristocracia da vontade, como lhes chamou profundamente um autor católico. As convicções tornam-se muito mais íntimas, porque se arraigam na vida difícil, porque as temos de defender e manter à custa de sangue.

CONCLUSÕES

     1. A tentação é a mortificação que Deus nos manda. Considerávamos, no domingo passado, que tinhamos de tirar prova, pela cruz, da nossa sinceridade moral. E que essa prova era a mortificação, garantia da pureza com que usamos das criaturas e servimos a Deus. Mas o Senhor, por seu lado, manda-nos também outras provas, consentindo que sejamos tentados para mostrarmos o que somos. A tentação é pois, a mortificação que Deus nos manda, como a mortificação é a tentação com que nós examinamos a nós mesmos.
     2. A tentação não são as ocasiões que nós buscamos. O que é preciso é que sejam provas que Deus nos manda, e não ocasiões de pecado, em que nos arriscamos. Porque, essas, já revelam apego à culpa, e supõem, por isso mesmo, que não estamos dispostos a usar das graças que Deus nos concede. Quem vai, indiscriminadamente, a teatros, cinemas e bailes, quem olha para tudo o que é prestígio do mal - como há de manter-se na tentação, se já vai vencido? Como há de resistir à vertigem o que a procura? 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Meditação Para do Domingo da Quinquagésima

Pe João Mendes SJ

     O Evangelho de hoje compreende duas partes que se relacionam, pelo menos simbolicamente: o anúncio da Paixão e a cura do cego. Os Apóstolos não compreenderam; escandalizaram-se com a cruz, foram os primeiros a manifestar aquela cegueira, que é afinal de todos nós, diante da necessidade de sofrer.
     Para ser cristão, é preciso abraçar a dor, ter a coragem de a aceitar no centro mesmo da vida. É esse o caminho para a felicidade autêntica; mas é esse anseio de felicidade que, em nós, se recusa a consentir. Daí, a grande dificuldade, e o círculo fechado em que o homem se debate: a cruz atrai e repele. Atrai, enquanto é custoso aceitar o sofrimento, como o caminho da alegria.
    Peçamos pois, a Cristo que nos ensine a sair desta contradição, abrindo os olhos de nossa cegueira, com um milagre tão grande como o que curou o cego.

1. EM QUE CONSISTE O ESCÂNDALO DA CRUZ

      1.As demasias da renúncia. A cruz, e as repugnâncias que ela levanta em nós, não são. somente, a mortificação do que é imperfeito e pecaminoso. O que já não era pouco, e que seria exigência de uma perfeição laica, teoricamente possível, num pagão. É também, a morte de muito do que é legitimo e bom. Consiste em sofrer mais do que seria preciso para praticar o bem e evitar o mal; o que, aplicado a Cristo, em que ele podia remir o mundo de modo menos cruento. É esse, no fundo, o escândalo dos Apóstolos, perante os sofrimentos do seu Mestre, e é o escândalo dos ímpios perante a dor dos inocentes e a penitência dos justos; - que sofram os pecadores, bem está; mas porque há de sofrer a inocência? porque se há de sofrer em vão?

     2. Necessidade da renúncia.  Temos de aceitar a humildade da nossa natureza, que precisa da flagelação do sofrimento para se purificar. Só é perfeito o que sofre. É certo que nem todo o que padece é puro; mas todo o que é bom teve de sofrer. Eis o escândalo: porque há de andar o bem crucificado?.
    É que o dom da integridade não foi restituído em toda a sua perfeição. Quer dizer: o domínio da alma sobre o corpo, ainda mesmo com o auxílio da graça, não é absoluto. De tal modo que, só com uma ajuda especialíssima, se poderiam evitar as pequenas venialidades. Facilmente se intrometem impurezas, na visão e no uso que temos das coisas. Por isso, para assegurar a pureza das intenções, temos que renunciar a muito do que é legítimo. É toda a tradição da santidade da Igreja, pois em todos os Santos, há sempre alguma coisa de excessivo e de loucura, no rigor com que se mortificam. A mortificação é a prova real da virtude autêntica; e os homens de Deus tem todo o empenho em se assegurarem dela.

2. REPARAÇÃO DO ESCÂNDALO

     1. A Vida Divina. Com o sofrimento, não se perde nada, pelo contrário. Ser cristão é receber uma vida divina em troca da humana, a vida eterna em troca da temporal. É essa a troca, realizada na cruz, que está no começo e à raiz da nossa vida. Quando fomos batizados, perguntou-nos o sacerdote, à porta da Igreja: << E a fé para que te serve? - Dá-me a vida eterna >>, respondemos nós. O cristianismo não pode, pois, deixar de ser uma vontade de eternidade. Pois se o cristão é o mercador que vendeu tudo para comprar a pedra preciosa, como não há de andar absorvido com a sorte ultra-terrena do seu jogo arriscado? E quem o poderá levar ao mal? que fazem os homens que sacrificam a vida pela honra? e pelo amor? e pela vaidade de agradar à galeria?
     2. A vida humana. Mas já nesta vida, e no plano meramente natural, e apesar da renúncia, o mercador da pérola começa a ganhar. Porque o Cristianismo e já uma penetração da eternidade no tempo; e a vida eterna de Deus, mesmo na sombra da fé, já concede ao homem o esboço dos dotes do corpo glorioso. A cruz, abraçada com decisão, resolve muitas das mais difíceis antinomias que preocupam os homens - é ver os Santos! Dá-lhes a alegria na dor, a liberdade na submissão, a segurança no abandono, a riqueza no despojamento, a grandeza na humildade, a autonomia no amor. Tudo isto são extremos, igualmente apetecíveis, que os homens procuram, inclinando-se , ora para um lado ora para o outro, e caindo em todos os excessos. Só a cruz de Cristo concilia as oposições, e harmoniza o irreconciliável.

CONCLUSÕES

     1.Cristo crucificado. Depois que Deus foi pregado numa cruz, e assumiu a dor humana, para transfigurar, já o escândalo do sofrimento da inocência se desvanece. Tudo ganha sentido, tudo se torna solidário. Os que tem culpas e impurezas, sofrem para as reparar e purificar; os que as não tenham, mesmo as crianças, sofrem para reparar as dos outros. Mas já não há sofrimento em vão. Porque toda a dor se pode unir à de Cristo Crucificado, e formar, com ela, a grande obra de solidariedade humana, que é a Redenção da Culpa.
     2. O Cristianismo é, assim, um novo sistema de valores. O cristão, que aceita a realidade da Culpa e da sua redenção pela cruz, aparece no mundo como um louco que construísse o universo à sua maneira. Não concorda com os outros homens, é um estranho que aprecia o que os outros desprezam, e despreza os que os outros apreciam. Troca os bens palpáveis pelos impalpáveis, este mundo pelo outro mundo. Mas só a luz da Fé, penetrada de Caridade, fará que a cruz se nos torne amável e o seu mistério conatural. A grande cegueira, a que nos esconde o mundo sobrenatural, vem das repugnâncias que em nós levanta o dever da renûncia.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Meditação para o Domingo da Sexagésima

Pe João Mendes SJ

     A Palavra de Deus é semente. Como preparação para a pregação da palavra divina, durante o tempo da quaresma, a Igreja lembra-nos esta parábola, que é das mais belas que Jesus pronunciou.
     S. Paulo dirá mais tarde: " Vós sois agricultura de Deus " ( I Cor 3,9) ; porque, de fato, é do céu que vem a semente, e nós somos cultivados por Deus, como a terra é pelo lavrador. Mas o Senhor que a nossa colaboração, quer que o campo reaja com a influência do alto, e faça crescer a "semente de Deus".

1. A PALAVRA DE DEUS É SEMENTE

     1. Semente é um germe de vida. que se lança à terra para produzir frutos semelhantes a essa mesma semente. Assim, do grão de trigo que se lança no sulco das lavras, germinará uma espiga, com grãos de trigo iguais ao primeiro.
     Deus lançou à terra a sua semente que foi o Verbo Encarnado, princípio de vida e Verdade divina para o homem. Ele é o grande princípio, a grande revelação, que transformará as inteligências e dará alentos novos à vontade; e que, na intenção divina, deverá fazer germinar, entre os filhos de Adão, a multidão inumerável dos filhos de Deus, semelhantes a Cristo, seu unigênito por natureza.
     2. A semente de Deus mostrou-se fecundíssima.  Porque transformou as inteligências dos homens do mundo antigo pagão; a visão nova do universo, que o Messias ensinou, no Sermão da Montanha, mudou o apreço das coisas, trocando os princípios de valor. É ver, logo nos primeiros tempos da Igreja; que diferença entre o critério de um sábio grego ou romano, e o dum asceta cristão! E não só transformou as inteligências dos homens e a sua visão do mundo, mas fecundou-lhes as vontades, levando-as  a abraçar as consequências dessa nova luz, dando-lhes força e coragem, com os exemplos e os auxílios do Verbo Encarnado, Mártires, Virgens, Anacoretas, Confessores, Religiosos - semelhantes a Cristo, seara divina nascida da palavra de Deus...- toda a vida de perfeição da Igreja é o fruto desta semente fecundíssima, é a família divina gerada por esta semente de Deus, tudo imagens parciais do Verbo Encarnado, formando um Cristo Total.

2. QUE SUPÕE O TERRENO PREPARADO

     1. Atenção intelectual.  A semente, por si só, não germina, precisa do húmus do terreno onde cai. A agricultura de Deus é como a agricultura dos homens. Por isso, a Semente caída a beira da estrada, ou entre os espinhos, é a Palavra de Deus que não chega a ser ouvida, porque a alma é aberta e dissipada como terreno onde passa toda a gente, ou distraída pelas preocupações deste mundo que sufocam os rebentos do fervor. É preciso atender, pensar, alguma vez, em ouvir a Palavra de Deus, a única que é indispensável ouvir. Sabem-se e estudam-se tantas ninharias... Quando se resolverá o nosso espírito a fugir ao mundo da bagatela?

     2. Colaboração da vontade. intimamente ligada ao que precede, pois, quando a inteligência se aplicar, é porque já a vontade se moveu. Mas a colaboração do nosso querer é, sobretudo, em profundidade: é aquele humor que alimenta as raízes, e que não se encontra nas pedras; é aquela ternura escondida onde pegam bem as insinuações de Deus. Corações duros, impenetráveis ao passo invisível do Amor incriado, nesses, não há semente divina que vingue. A revelação do verbo pega, em nós, nas pequenas e múltiplas radículas afetivas de aceitação e oferta, que prendam, ao nosso coração, o convite do Bem. E nisto que consiste o ser " ex Deo" , da linhagem de Deus.

CONCLUSÕES

     1. Boa vontade. Tenhamos, pois, docilidade, que consiste no desejo de ser ensinado, e na preparação espiritual para o ser - e é esta a docilidade intelectual; e em ter um coração inclinado à luz, de sulcos abertos e revolvidos pela dor, dispostos a aceitar a recolher a palavra verdadeira - e é esta a docilidade da vontade. Que o Senhor nos transforme as entranhas, dando-nos um coração de carne, em vez do coração de pedra da nossa insensibilidade.
     2. Reflexão. O mundo vive na inconsciência e na irreflexão. A demanda da vida divina é, portanto, um ato de atenção que vence o prestígio da bagatela, e se dispõe a ouvir a palavra de Deus. Ser Cristão é interiorizar-se, fugir das aparências materiais, demandando o Deus desconhecido, que atua no silêncio, como as sementes, e na tranquilidade como o fermento.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Meditação para o Domingo da Septuagésima

Pe João Mendes SJ

     Parábola dos operários da Vinha. Oferece-nos um sentido histórico, aplicável aos Judeus, e outro universal, relativo aos homens de todos os tempos. O significado da Alegoria, no seu aspecto aparentemente desconcertante, fala-nos duma justiça divina que não se ajusta aos moldes humanos, já que os supera infinitamente.
     Em rigor, ninguém tem direitos diante de Deus; e o Senhor é soberanamente livre na sua ação. De modo particular; a justiça de Deus está acima da justiça dos homens, e temos de aceitar-lhe o mistério.

1- O QUE FAZ O MÉRITO NÃO É O MUITO TEMPO OU ESTADO DE PERFEIÇÃO

     1. Aplicação aos Judeus. O povo escolhido foi chamado, logo na primeira hora, para trabalhar na vinha de Deus. Com ele estabeleceu Jeová a sua aliança, para ele era, antes de todos, o Messias. Só muito mais tarde, foram chamados os gentios, e com os mesmos privilégios dos eleitos da primeira hora. Daí, o escândalo judaico do espírito de casta, que se supunha com direitos diante de Deus, e que pensava em injustiça quando se via igualado com gentes impuras.

     Cristo mostra-lhes, agora, que o Senhor é livre na disposição de seus dons, que não se prende em contatos pequenos, e que sua justiça é mais ampla que os cálculos acanhados dos homens. Diante de Deus, " não há Judeu nem gentio"' - dirá depois S. Paulo ( Col 3,11)
     2. Aplicação a todos os homens. O que faz o mérito não é muito o tempo, nem certa fidelidade, longo tempo mantida. Na velhice ou no último momento, qualquer pecador, como o Bom Ladrão, ou aquele condenado por quem orou Santa Teresinha, pode ouvir o convite de acesso a eternidade. Esta é, substancialmente, a mesma para todos; é uma só a mesa do banquete, porque a glória é a visão da mesma Infinita Perfeição.
     E quanto à capacidade subjetiva de o gozar, quem sabe as surpresas que nos esperam? O poeta Rimboud levou uma bem triste vida de pecado; mas o sacerdote que o confessou, à hora da morte, declarou ter encontrado, poucas vezes, fé tão pura. Não admira, pois, que o Pai do Pródigo faça grande festa, quando chega o filho pecador! O mais velho, o da longa fidelidade, é que não devia estranhá-lo. Quem sabe em qual dos corações havia mais amor?

2. ...E QUEM RETRIBUI É UMA JUSTIÇA QUE SE CONFUNDE COM O AMOR 

     1. A justiça dos homens é cega, para ser igual para todos, porque só premia segundo as aparências. Nunca poderá julgar o íntimo dos corações que lhe são inacessíveis. Para ser perfeita é cega - e nisso está a sua pobreza; tem medo do amor e das suas parcialidades, e por isso, aplica, rigidamente, os princípios da igualdade para todos. Por isso, as leis dos homens são inflexíveis, e escravas da letra, como escravas são também as aparências. E que será, quando não é a justiça, mas a má vontade, o despeito ou o ciúme, quem julga das ações alheias?  Cristo recomendou-nos tanto que não julgássemos... e que seríamos medidos pela medida que usássemos com os outros... É que é muito difícil julgar, com acerto, um coração.
     2. Mas a Justiça de Deus confunde-se com o puro amor. É, portanto uma justiça muito mais misteriosa, desconcertante e clarividente, nas suas decisões. Não admira que a ação da Providência seja tão inacessível, e que brinque com as aparências e os alvedrios. Assim como as mães sabem ver, como ninguém, os méritos dos filhos, assim Deus vê muito melhor do que nós, e com uma clarividência perfeita, todos os desejos de bem que há, ocultos, no coração do maior dos desgraçados. Foi Cristo quem disse aos príncipes dos Sacerdotes e anciãos do povo : " Publicanos e meretrizes entrarão primeiro que vós, no Reino de Deus ..." ( Mt 21,3)
     O mistério da nossa liberdade só é compreensível por Deus, porque essa liberdade é um mistério no homem. E Deus desvenda esse segredo, precisamente, porque sua justiça é iluminada pelo amor. A justiça dos homens é cega, para que o amor não a corrompa; mas a de Deus, pelo contrário, é clarividente, porque olha com os olhos do amor, - e nisso está a sua excelência infinita. Quando, também nós, tivermos de julgar as vidas dos nossos irmãos, amemos o mais que pudermos, os nossos réus, porque, só assim, nos assemelhamos à justiça divina.

CONCLUSÕES

     1. Evitar o desânimo. Mudar na velhice? impossível. Tudo perdido, - Não. Nunca é tarde na vida para nos voltarmos para Deus. Porque só um ato, o da undécima hora, pode resgatar todo o passado, e merecer o mesmo prêmio que os que trabalham o dia inteiro. Sendo a justiça de Deus tão ampla e amorosa, sempre nos ficam motivos de esperança.
     2. Evitar o desleixo. Do fato de os últimos poderem redimir o atraso, com pouco tempo de trabalho, não se segue que quem trabalhar bem todo o dia não tenha mais mérito. Se o vinhateiro sai a contratar operários, logo de manhã, sinal é de que lhe agrada a diligência e se  bom trabalho da undécima hora é tão premiado, isso nos mostra que o bom trabalho das outras o será também. E sendo a justiça de Deus tão misteriosa, por se confundir com o amor, nem por isso a devemos tomar como indulgência transigente; mas temamos sempre, porque essa aliança misteriosa tanto joga a nosso favor como contra nós.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Meditação Para o 3° Domingo Após a Epifania

Pe João Mendes SJ

     O  Evangelho relata a cura de dois doentes, dois milagres alcançados pela Fé, mas por uma fé mais profunda e viva, no segundo que no primeiro caso. O leproso aproxima-se de Jesus e expõe~lhe o seu mal, como uma oração tão simples como eficaz. O Senhor toca-o, e ele fica limpo de toda a lepra.
     Depois vem o centurião, e sem exigir a presença de Jesus, apela somente para o seu poder. E o Senhor realiza o milagre a distância. É que é sobretudo pela fé que Deus se nos torna presente, e que nós recebemos a eficácia do poder divino.

1. A FÉ TORNA-NOS RECEPTIVOS DO PODER DIVINO

     O milagre por contato. O leproso, o intocável, aquele de quem todos fugiam, pode, enfim, prostrar-se diante do homem que é Deus. Este, ao menos, não o teme nem lhe terá horror. Talvez o pobre gafo sentisse demasiada sofreguidão, e era bem natural, da presença física do Taumaturgo, e não discriminasse bem o objeto da sua confiança. Mas cria: "Senhor, se Vós quiserdes, podeis curar-me!". Ainda que a humanidade do Redentor seja instrumento da Divindade, contudo, para esta, formalmente, é que deve ir a nossa crença. A fé diz respeito ao Deus que se esconde e se revela no homem.
     Necessidade da fé. A presença de Cristo ser-nos-ia inútil se não acreditássemos na sua divindade. " Se crês...", " A tua fé te salvou...". E foi também a fé do leproso que o salvou: " Se quiserdes, podeis curar-me. - Quero. Sê Curado!". Muitos viram e ouviram a Cristo, muitos lhe tocaram e foram d'Ele tocados, e ficaram como antes. "Mestre, toda esta gente te aperta e importuna, como dizes que alguém te tocou?". É que entre tantos, era a hemorroíssa quem tinha a fé verdadeira; só essa foi receptiva da ação divina. Em Nazaré, Cristo não praticou milagres. Porque não pudesse? Não, mas porque os seus conterrâneos o tomavam simplesmente como um dos seus, " O Filho do carpinteiro", e não criam no Deus o culto. É como na Eucaristia: o pagão que comungasse, só receberia o alimento material dum corpo humano sacrificado. Assim no convívio de Cristo: se não tivermos fé, Ele será para nós como um homem qualquer.

2. PORQUE É O PRIMEIRO CONTATO COM O MUNDO SOBRENATURAL

     O milagre à distância. O Centurião não requer a presença física de Jesus: "Dizei uma só palavra, e o meu servo será curado". Como se dissesse: há outro modo mais íntimo de Deus aproximar-se dos homens e os homens d'Ele. E Nosso Senhor elogia, entusiasticamente aquela fé que não tinha igual em Israel. E a Igreja tornou as palavras daquele que, ainda há pouco, era simples pagão, para as aplicar ao "misterium fidei" por excelência.
     Contato com Deus pela fé. Não é preciso a presença física de Cristo, porque a crença sobrenatural é já o nosso primeiro contato com o mundo de Deus. A luz da fé não é mais que a própria luz íntima do Senhor, a luz inacessível que ele habita, enquanto comunicada ao homem; é conhecermos, quanto nos é dado agora, os arcanos de Deus, a sua Trindade de Pessoas, mediante a revelação do Verbo Encarnado. Quando, para além do que vêem os olhos e do que vê a razão, a nossa alma adere à realidades sobrenaturais, saimos do mundo das aparências, entramos no mundo de Deus, iluminados diretamente da sua luz, ainda na obscuridade do mundo dos sentidos, mundo dos enigmas e das sombras, mas vendo já, e possuindo, em princípio, a glória divina. " Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e aquele que nos enviaste, Cristo Jesus"
     É assim que as almas animadas de fé viva dir-se-ia tocarem no mundo sobrenatural, tê-lo presente, senti-lo e respirá-lo. Por isso, quanto mais fé mais união com Deus e mais caridade. O Centurião estava, talvez, muito mais próximo de Cristo do que o leproso ajoelhado diante d'Ele. O que nos torna presentes ao Salvador, e a Ele presente a nós, é a união que tivermos com Ele, pela Fé e pela Caridade.

CONCLUSÃO

     A presença de Cristo. Quantos de nós, alguma vez, não teremos sentido pena de não ter visto e tocado a Nosso Senhor Jesus Cristo, quando passou na Terra. Mas, pela fé, podemos corrigir o atraso do tempo e a distância do espaço, e sermos mais presentes ao Redentor do que os contemporâneos. Não é a presença corporal o que nos une com Ele e com a sua Divindade, mas o convívio sobrenatural da crença.
     E o Reino dos Céus ainda está suspenso sobre nós, atualmente. A mensagem e a vida de Cristo continuam à espera da nossa adesão, como se o Senhor nos perguntasse também a nós: " E  vós? quem dizeis que eu sou?" Trata-se de um toque assimilador, de fazer descer a vida de Deus. Esse vínculo misterioso, parentesco divino e nó de eternidade, é a Fé.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Meditação para o 2° Domingo após a Epifania

Pe João Mendes SJ

         A presença de Cristo nas Bodas de Caná é comovedora de condescendência humana. Fala-nos a história de muitos casos de Príncipes e grandes que honraram com sua presença as bodas dos servos. Mas que venham Deus e sua Mãe a tomar parte nas alegrias festivas do amor humano ... louvada seja a sua bondade.
       Que íntimo sentimento de carinho fraterno, o do Coração de Jesus, trazendo a sua sagrada presença de Filho da Família Divina ao banquete da família humana. Porque terá ido o Verbo Encarnado ao humilde festim de um casamento?

1. A TRINDADE

      Eis o grande mistério: Deus é Família! Afirmação esta podia causar-nos estranheza. Então, a vida íntima e exclusiva de Deus é parecida com a nossa? Sim, é Verdade. Mas a pergunta admirada devia fazer-se em sentido inverso: como é que o Senhor consentiu que a nossa vida fosse parecida com a sua?
     Por Deus ser família é que nós, imagem sua, também somos. E Cristo vem de muito alto, de um abismo divino de pureza e de harmonia, para a pobre lareira esmorecida da nossa casa humana. Na Trindade, tudo é conhecimento, geração e amor, na Luz e na Santidade infinitas. Que vida de familia e que lar, onde Três pessoas distintas vivem da mesma natureza, infinitamente perfeita e infinitamente feliz! Que união, que intimidade, e que amor!..

2. EM NAZARÉ

     O Verbo Encarnado nasceu numa família. Quando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou, podia ter aparecido entre nós, como homem adulto, sem as dependências, fraquezas e humilhações das crianças. Mas nasceu numa família, e a sua união com a natureza humana realizou-se num seio materno e num lar humano.
     Essa família, a Sagrada Família por antonomásia, como mais perfeita imagem da Trindade, foi uma família virginal, onde Cristo, virgem nasceu duma Virgem, desposada com esposo Virgem. Foi tudo espiritual e santo no nascimento do Verbo Encarnado.
     Mas apesar da santidade dos seus pais na terra, como eles eram, no entanto, pálida imagem da Vida Trinitária! Nosso Senhor Jesus Cristo é, assim, o traço de união entre a Família de Deus e a Família do homem.


3. EM CANÁ

     O Verbo Encarnado abençoa a família. A presença de Cristo, em Caná da Galiléia, mais que condescendência, é aprovação. O Verbo Encarnado vem honrar e dignificar a família humana. Vem trazer a Bênção de Deus ao que é sombra imperfeita dos esplendores da Trindade; vem purificar e sagrar um fogo doméstico, centelha do amor divino, que as paixões dos homens facilmente deixarão corromper e abafar nas cinzas do egoísmo.
     E levou o Senhor a sua simpatia compassiva a concorrer para a festa com o vinho miraculoso, símbolo da alegria sensível. Ele que gozava da alegria sem sombras, e do vinho, tão ovo e tão antigo, da Divindade felicíssima. Foi o Primeiro milagre do Messias. Como os seus olhos pousariam, com amor e indulgência, no júbilo dos dois esposos! Enquanto Deus, sabia muito bem o que era o amor e a família por essência; como homem, nascido entre homens, fazia que os sentimentos divinos, no seu coração de carne, se transformassem numa infinita condescendência.
     E desde então, desde que o Próprio Deus assistiu às Bodas do amor das suas criaturas, é que o casamento e a família se transfiguraram num mistério divino, e virão a ser um Sacramento ou fonte de graça.

CONCLUSÃO

     O Matrimônio é imagem da Trindade. O Verbo é a imagem perfeita do Pai; e do amor mútuo de ambos, procede o Espírito Santo, o Dom, o Amor personificado. Também na família humana, a esposa é o ideal, em que se revê o esposo; e do amor de ambos, tão alto que se desdobra m novos filhos de Deus, procede o dom supremo dos filhos, que são o amor personificado dos pais. Não há família perfeitamente constituída sem estes elementos.
     O Matrimônio é fonte de vida Trinitária. É que, a base da família, está a Nova Lei, um Sacramento. E o Sacramento é um sinal eficaz de graça, e a graça é uma comunicação de vida Divina. O matrimônio é , pois, coisa tão santa que espalha, na família, a mesma vida familiar de Deus, a sua vida Trinitária. E assim temos como lar cristão é já a imagem da Trindade, e mais que imagem, pequena célula divina da Jerusalém Celeste que é o corpo dos bem-aventurados. Como não há de a Igreja defender, ciosamente, a santidade e a indissolubilidade da família !!!


Sagrada Família de Nazaré guardai as nossas famílias !!!

Congregações, Celeiros, Chuva e Vocações‏

Alexandre Martins, cm.

“Celeiro de Vocações” é um dos apelidos das Congregações Marianas por vários papas e que demonstra a utilidade destas associações em fomentar e proporcionar à Igreja suas vocações sacerdotais.
Exemplos não faltam: desde proporcionar o aumento das fileiras da Companhia de Jesus até ser o embrião de novos conventos, como o clássico exemplo de Madre Teresa de Calcutá que, com companheiras de sua Congregação Mariana na sua Albânia natal, foram o primeiro grupo das Missionárias da Caridade.

A atualidade da formação para o vocacionado

 

Nos tempos atuais, as Congregações Marianas tornaram-se um importante instrumento de orientação vocacional. Por mais que o apostolado leigo tenha se desenvolvido e tomado formas, o estilo de formação espiritual do Congregado ainda é muito útil às novas gerações de vocacionados. “A atualidade dessa espiritualidade é importante para o mundo atual, e sua regra de vida conduz a pessoa na Escola da Santidade.” afirma1 D. Orani Tempesta, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ).
As atividades espirituais comuns das Congregações Marianas produzem na alma vocacionada o gosto crescente das coisas do alto. É a partir dessas “janelas para o Céu” que o vocacionado sente crescer seu amor pelo serviço do altar ou pelo convento em uma vida recolhida. Os que não são chamados à vida religiosa apenas sentem manter em seus corações a chama da piedade e o apelo à conversão, mas não o crescimento do amor de Deus até à paixão como a alma vocacionada. É uma boa oportunidade de discernir entre um apenas “bom Congregado” e uma futura vocação religiosa. Quantos enganos não seriam evitados se algumas Congregações Marianas tivessem mais atividades espirituais frequentes e profundas!

A Direção Espiritual do Congregado como fundamento do discernimento vocacional

 

A Direção Espiritual é uma prática comum a toda a Igreja. É algo dos primórdios do Cristianismo e uma pratica naturalmente oriental. Busca sempre conselho junto ao sábio” (Tob 4,19). No Oriente, é tradicional e comum a relação “mestre e discípulo” era fundamental em qualquer filosofia2 e absolutamente necessária em qualquer religião. Nas Congregações Marianas desde as primeiras regras3 insiste-se que o Congregado tenha um diretor espiritual. Os benefícios são imenso e, se para os jovens são utilíssimos, para os adultos também são necessários. Em toda a vida do Congregado a presença de um Diretor Espiritual4 deve permanecer.
Não se entende o discernimento vocacional em uma alma sem diretor espiritual. Embora nem todos os sacerdotes – confessores em sua essência – tenham vocação para uma correta e frutuosa direção espiritual, a uma alma vocacionada o diretor espiritual é imprescindível.“E que grande coisa é, filhas, um maestro sábio, temeroso, que prevê os perigos. É todo o bem que uma alma espiritual pode desejar, porque é grande segurança. Não poderia encarecer com palavras o que isto importa”.5 Podemos ate dizer, sem medo de errar, que um vocacionado sem um diretor espiritual não é um vocacionado de verdade. Afirma s. João Paulo II: “para poder descobrir a vontade concreta do Senhor sobre a nossa vida, são sempre indispensáveis (…) a referência a uma sábia e amorosa direção espiritual”.6
De fato, quantos procuram a vida religiosa como um escape do mundo, com uma forma de fugir dos naturais compromissos seculares como o trabalho assalariado, o progresso no estudo e uma família e filhos? Quantos querem “fazer carreira” na Igreja, como se ela fosse um empresa multinacional ou uma ONG? E isso é tão frequente em nossos dias que mereceu um pronunciamento especial do papa Francisco: ““E quando a Igreja quer se vangloriar da sua quantidade e cria organizações, escritórios e se torna um pouco burocrática, a Igreja perde a sua principal substância, e corre o perigo de se transformar numa organização não-governamental, numa ong. E a Igreja não é uma ong. É uma história de amor ... Os escritórios são necessários, mas até um certo ponto: o importante é como ajudo esta história de amor. Mas quando a organização fica em primeiro lugar, o amor desaparece e a Igreja, coitada, se torna uma ong. E este não é o caminho”.7
Acreditamos que, para o coração honesto e amoroso de Deus, a Direção Espiritual serviria para um correto discernimento vocacional.

Regras seguidas antes e depois do chamado vocacional

 

A disciplina e hierarquia tradicionais nas Congregações Marianas servem para educar a alma vocacionada a compreender sua vida religiosa futura.”nos congregados de Maria, esta como que ingênita "reverência e humilde submissão aos pastores sagrados" brota necessariamente das suas próprias regras”, afirma o papa Pio XII.8
Cada ordem ou comunidade religiosa possui sua própria regra. Todos os que ingressam em alguma delas tem conhecimento das regras ou estatutos e prometem segui-los amorosa e filialmente. A um Congregado mariano, que por bom tempo leu, aprendeu e seguiu a Regra das Congregações Marianas torna-se mais fácil seguir a regra da ordem religiosa à qual ingressa.
A hierarquia das Congregações Marianas não é seguida sob pena de pecado, mas pela consciência de que uma casa deve estar arrumada e que a organização leva à eficiência e ao sucesso. Obedecer à hierarquia é, para um bom Congregado, algo natural e espontâneo. Os votos de obediência, tanto na vida religiosa quanto sacerdotal, são naturais para o Congregado habituado à vida na hierarquia da Congregação Mariana.

Sem preocupação com o futuro das vocações

 

A priori, não é necessário que uma Congregação Mariana se preocupe com “jornadas vocacionais” ou atividades do gênero, tão em moda em algumas dioceses para o recrutamento de vocações sacerdotais se religiosas. Como dito acima, uma vida de Congregação Mariana levada a sério naturalmente conduz ao discernimento vocacional. Lembremos que, quando as Congregações Marianas eram chamada de “celeiros de vocações” não haviam os encontros vocacionais diocesanos e nem as comemorações do Mês das Vocações Sacerdotais e Religiosas.
Será que a Igreja criou essas atividades porque as Congregações Marianas deixaram de ser fornecedoras de vocações? É algo a se pensar.
Os sacerdotes que se preocupam com o declínio das vocações sacerdotais deveriam por sua vez fomentar a vida espiritual das Congregações Marianas e ver nelas um terreno fértil de vocacionados.
As Congregações Marianas sempre foram e sempre serão celeiros de vocações. Basta ser a regra cumprida e a piedade dos Congregados aumenta. As vocações irão surgir como capim no solo depois da chuva.
Santa Maria, rainha dos vocacionados, rogai por nós!



________________________________________________
1- Mensagem pelo Dia Nacional do Congregado Mariano 2013, disponível em http://www.cnbb.org.br/articulistas/dom-orani-joao-tempesta/9336-avante-congregados-marianos, visitado em 17/1/15

2- Uma relação mestre-discípulo que incluia não somente a transmissão de idéias, pensamentos e conceitos por meio da palavra, mais também que além do mais a presença exemplar do mestre, exercia uma grande influência sobre o discípulo. Considerados como mestres de vida, não só transmitiam conceitos teóricos, senão que sua instrução abarcava todos os aspectos da vida e do comportamento moral. E o discípulo? Ele era o aprendiz. Dele se esperava a vontade de aprender, assimilar e modelar-se conforme uma doutrina e estilo de vida. Esperava-se uma atitude de abertura de consciência, de confiança e de disponibilidade com relação ao seu maestro.O modelo do mestre é Jesus: “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima”. ( Jo 1,38-40) – Guadalupe Magana, disponível em es.catholic.net, visita em 17/1/15

3- Regras Comuns, 36; Bis Saecularii,4; Regra de Vida 12,a,4.

4- São Inácio de Loyola, influenciou decisivamente sobre a direção espiritual dado que ela representava a coluna vertebral durante os Exercícios Espirituais. É necessário para Exercício Espirituais: - discernir as disposições pessoais do exercitante; suas emoções internas; ajudá-lo em suas dificuldades; dispôr conforme a elas a matéria dos puntos para meditar; e ajudar a abrir sua alma a voz de Deus, máxima ao realizar a eleição o reforma de vida, respeitando sempre a liberdade do exercitante. Neste contato pessoal, tanto o exercitador como o exercitante devem mostrar-se dóceis às moções do Espírito Santo: afinal o exercitador se lhe concede um carisma especial pelo que desempenha eficazmente seu ofício para ajudar o exercitante; e a este se comunicam as luzes e graças adequadas à situação de sua lama através do exercitador: para fazê-lo caminhar pela via da fé, da humildade, da simplicidade do espírito. Finalmente, por tanto, coloquio na fé. – Guadalupe Magana, disponível em es.catholic.net, visita em 17/1/15

5- S. Teresa de Jesús, Obras Completas. Ed Aguilar, Madrid, Camino de Perfección. N. XXXVII, p. 369.

6- in, Christifideles Laici, n 58, p. 175.

7- papa Francisco em homilia na Missa com funcionários do Instituto de Obras da Religião, Casa Santa Marta, Vaticano, 24/4/2013 24


8- Bis Saecularii, 11.

sábado, 11 de novembro de 2017

Transmissão da 44° Assembleia Nacional da Congregações Marianas do Brasil

Como acontece todos os anos a Congregação Mariana Nossa Senhora Auxiliadora realizará a Transmissão Ao vivo da 44° Assembleia Nacional das Congregações Marianas do Brasil diretamente de Aparecida-SP. A transmissão pode ser acompanhada pelo nosso canal do Youtube e pelos links abaixo:


                                                                  Missa de Abertura


Primeira Parte




Segunda Parte




domingo, 29 de outubro de 2017

Discurso de Encerramento do Congresso do Cristo Redentor

Cardeal Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra.
Domingo 11 de outubro de 1931
Igreja de São Francisco de Paula, Rio de Janeiro

Ao legado de Sua Santidade o papa Pio XI, o Cardeal Arcebispo do Rio, cabe-lhe a honra insigne de encerrar o Congresso de Cristo Redentor e não o fará em discurso mas sim em palavras simples.
O representante do Santo Padre deve antes de tudo agradecer as palavras de carinho e amor que neste congresso foram proferidas.
Nas horas de tribulações, nas horas em que cravejam de angústia e dor o papa, quando não faltam renegados que insuflam a plebe amotinada a queimar conventos e asilos, quando um país há no mundo em que chegam a arregimentar um verdadeiro exército para uma guerra de extermínio ao nome de Deus, deve a pessoa do papa chegar a consoladora notícia de que, nas outras bandas do mar, existe um povo que faz questão de ser fiel a Cristo Rei, fiel à Santa Igreja, fiel ao soberano pontífice.
Nós queremos que ele Reine sobre o Brasil. E Cristo reinará! É o que o legado vai dizer ao papa, que lhe deu uma missão de amor e de benção.
Nas horas tristes, dirá ao papa que contempla a nossa Guanabara, o nosso Corcovado. O papa dirá então: " que lindo trono para o Cristo Redentor". E o cardeal legado dirá: " existe outro trono mais antigo e mais resistente que o granito do Corcovado: é o trono da Eucaristia, o trono da adoração perpétua".
O legado do sumo pontífice quer saudar hoje, e pede a seus filhos espirituais uma braçada de flores, uma explosão de aplausos, para o Episcopado nacional, grato pelo muito que fizeram os bispos, grato pelo que fizeram em prol do monumento, pelo brilho nunca dantes visto em outras solenidades. Podem todos imaginar como o coração se enche de emoção.

O representante do papa beija comovido as mãos que espalham esmolas da terra e do céu. Tem viva na retina e no coração a visão magnífica da hora santa em Santa Ana em que , os bispos, pareciam um colar de ametistas, que um anjo custódio tivesse como símbolo de amor e reparação para todo o povo brasileiro.
Tinha a impressão de que a legião dos bispos, nas horas presentes de guerras, formava uma força maior que a de todas as fortalezas. Amanhã eles irão sagrar a Cristo Rei do Brasil.
Os corações de nossos bispos serão a jóia mais preciosa para o diadema de Cristo Rei. Colocaram ao lado do trono duas bandeiras: a do papa e a da pátria e, por cima, a imagem do Salvador abraça num olhar carinhoso a todos: papa, bispos, povo brasileiro.
Mas se os homens persistirem na contumácia das competições políticas regionais e pessoais, tudo isto erá estraçalhando a unidade da pátria.
Senhor, eu não quero ser poeta lúgubre da morte da mais bela das pátrias! Senhor prefiro mil vezes sepultar os poucos anos que me restam a ver a infelicidade na pátria deste Brasil que é nosso!
Ó pátria, ajoelhe-se junto a Cruz do Redentor, junto á cruz onde nasceste grande e cresceste imensa. Brasil! Ò Pátria, conserva-te de joelhos diante de Cristo Redentor porque assim poderás apresentar-se de pé diante das outras nações, adorando um só Cristo Redentor.
Senhor! Aos pés do Cristo Redentor, Juremos fidelidade ao Brasil, à integridade da pátria. Agora compreendeis a elevação patriótica destas manifestações da pátria a Cristo Redentor.
Cristo vive, reina e impera!
Falta ainda completar estas palavras. Na praça de São Pedro, em Roma, existe um obelisco com essa inscrição e ainda argumento "et plebem suam ab omni malo defendant". O legado pontifício pede a aprovação de todos com aplausos para colocar no pedestal do Cristo Redentor a inscrição das palavras: "Cristo vence, Cristo Reina, Cristo impera, e contra todos os males defenda seu brasil"
Nunca o Brasil será vencido. Cristo vence, Cristo reina e porque reina a cruz nunca será humilhada ou desterrada da nossa pátria.
Para apagar a fé do Brasil seria preciso subir aos céus e apagar todas as estrelas. Seria necessário um terremoto ou maremoto que atingisse a Cristo no Corcovado, montanha escarpada que transformamos no trono perpétuo do Redentor. Seria preciso calcinar o granito do corcovado, o corcovado do coração.
Cristo impera, e na terra na qual  Cristo reina é preciso que todos se amem, é preciso que estale o beijo de toda a família brasileira.
Cristo impera, e o seu império é o imperio da paz, do amor e da misericórdia e do perdão. Aqui na terra enluarada pela visão branca do Cristo não há vencedores nem vencidos. Somos todos irmãos, filhos da mesma pátria, membros da mesma família.
Ao gesto amoroso de Cristo que abre os braços acolhedores a todos os brasileiros, sem distinção, deve responder o gesto patriótico do amplexo fraternal de todos os filhos e habitantes desta terra bendita.
Cristo vence ! E porque esta terra é sua, ela nunca será vencida pelo estrangeiro invasor, nem retalhada pela guerra civil.Seremos doce império em que não há lugar para tiranias. Nem a tirania de capitalismos vorazes, nem a tirania da demagogia sangrenta, nem a tirania dos potentados, nem a tirania do povo.

CRISTO VENCE, CRISTO REINA, CRISTO IMPERA, E CONTRA TODOS OS MALES DEFENDA O SEU BRASIL !!!

A mortificação, escada para subir ao Céu

As verdades que Cristo pregou do alto da montanha continuam válidas para hoje: fora da Cruz não existe outra escada por onde subir ao Céu.
Embora seja contraditória, tem atraído muitas pessoas a ideia de um Cristianismo sem sofrimento, sem penitências nem mortificações. Não se fala mais da necessidade de renunciar a si mesmo e tomar a própria Cruz [1], embora tenha sido o próprio Cristo a sublinhar tal obrigação. Não se ostenta mais a figura de Jesus Crucificado nas paredes de construções e nem mesmo nas igrejas, como se a constante lembrança das dores de Cristo fosse penosa ou até perigosa para as pessoas.
É, de fato, um ditado bastante repetido: “Falar só de dor e sofrimento afasta as pessoas da Igreja”. Mas, onde está a caridade daqueles que calam tais temas apenas para manter o número de fiéis? É certo que o homem moderno não quer ouvir falar dessas coisas – antes, prefere que adociquem sua boca com o mel das novidades e dos prazeres. Mas a religião católica tem que ver com as vontades e preferências do mundo ou, antes, com a vontade e o reinado de Deus? A fé cristã tem que ver com o que o homem deseja ou com o que o homem verdadeiramente precisa?
Rebate-se: “Mas, o homem precisa sofrer?” Na verdade, a pergunta está mal colocada. Não é que o ser humano precise sofrer; é que ele precisa amar. E, novamente – afinal, sempre convém repetir –, neste mundo, não é possível que sejamos privados de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar. Não é que a religião cristã seja “masoquista” ou cultue a dor; é que foi esse o meio que Cristo escolheu para amar-nos e é também o meio pelo qual nós devemos amá-Lo. “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” [2], diz Santo Agostinho. Não basta que o sangue de Cristo tenha sido derramado por todos; é preciso que aproveitemos de Sua eficácia, associando a nossa liberdade à ação da graça divina.
Neste tema, adverte o padre Garrigou-Lagrange, é preciso evitar dois extremos perigosos: o primeiro, menos comum, é o rigorismo jansenista, que apregoa a prática de árduas mortificações sem considerar a razão para isso, como que numa tentativa de alcançar o Céu por forças puramente humanas. Com isso, perde-se de vista “o espírito da mortificação cristã, que não é soberba, senão amor de Deus” [3].
O segundo erro a ser evitado parece dominar o mundo de hoje: trata-se do naturalismo prático. Com os argumentos já apresentados acima, essa tendência reduz a fé cristã a um bom mocismo, ignorando – ou fingindo ignorar – as consequências do pecado original sobre o gênero humano.
Nessa brincadeira perigosa, nem as palavras de Jesus contam mais. O Cristo que adverte para arrancarmos de nós os olhos e as mãos, se são para nós ocasião de queda, porque “é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ir para o inferno” [4]; o Cristo que pede que ofereçamos a face esquerda a quem bater em nossa direita, que entreguemos o nosso manto a quem nos tirar a túnica, que andemos dois quilômetros, ao invés de um só [5]; o Cristo que alerta para não jejuarmos “de rosto triste como os hipócritas” [6], “só para serdes notados” [7], é solenemente ignorado pelos naturalistas, que preferem fundar para si uma nova religião: a de um deus leniente com o pecado, com a indolência e com a preguiça espiritual.
É preciso deixar muito claro que não é possível construir um “novo” caminho diferente do que indicou Jesus e do que trilharam os Santos. “Mirabilis Deus in sanctis suis”, diz a Vulgata: “Deus é maravilhoso nos Seus santos” [8]. E eles não passaram por outra via senão a da mortificação. Como se explica, por exemplo, que uma Santa Catarina de Sena tenha começado tão cedo a flagelar-se e a fazer jejuns rigorosos [9]? Que, defender a sua pureza São Francisco se tenha revolvido na neve, São Bento se tenha jogado num silvado e São Bernardo tenha mergulhado num tanque gelado?
A chave para todas essas penitências é o amor, que não pode ser vivido neste mundo sem que crucifiquemos a nossa carne. Santo Afonso de Ligório ensina que “ou a alma subjuga o corpo, ou o corpo escraviza a alma”. São Bernardo respondia aos que zombavam dos penitentes do seguinte modo: “Somos em verdade cruéis para com o nosso corpo, afligindo-o com penitências; porém mais cruéis sois vós contra o vosso, satisfazendo a seus apetites nesta vida, pois assim o condenais juntamente com a vossa alma a padecer infinitamente mais na eternidade”.
Por que não se fala mais dessas coisas em nossas igrejas? Porque, infelizmente, quase nenhum espaço foi preservado desse maldito naturalismo, que pretende “inventar a roda” moldando um Cristianismo sem Cruz.
Para viver, é necessário mortificar-se, morrer mesmo, como o grão de trigo de que fala o Evangelho [11]. As verdades que Cristo pregou do alto da montanha continuam válidas para hoje e, como diz Santa Rosa de Lima, “fora da Cruz não existe outra escada para subir ao Céu”.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

domingo, 22 de outubro de 2017

Ave Maria

Foi assim que o Anjo Gabriel saudou Maria. Em aramaico, deve ter dito: "shalom lach", ou seja, "a paz esteja contigo". São Lucas, ao usar a expressão grega "khaire", confere outro sabor à saudação e diz: "alegra-te".
São Lucas é o evangelista da alegria. Dizem que era pintor e que de suas obras teriam restado somente o quadro da Virgem Maria que os Poloneses veneram em Czestockowa. Verdade ou não, o certo é que Lucas, em seu Evangelho, retrata, maravilhosa e bela, a Virgem Maria: ela é a virgem do amor e da alegria.
Ela é virgem, mas ama José, um homem puro e bom, a quem está prometida em casamento. Quem nasceu para criar um mundo novo devia ter um coração novo e saber amar de maneira nova, para além dos limites da carne e do sangue.

Não é sem razão que o arcanjo, extasiado perante a beleza de Maria, lhe diz: "Alegra-te". Como não alegrar-se ao contemplar as maravilhas que o amor do Deus da Beleza espargiu pelo mundo e que ainda fazem arregalar os olhos humanos, apesar da miséria gerada pelo pecado que as contamina ?
Sim, alegra-te, Maria, porque foste preservada de toda contaminação. Tu és a maravilha mais bela, a criatura mais estupenda.
Alegra-te Maria, porque tudo foi feito para ti, uma vez que tudo foi feito para Teu Filho. Alegra-te ainda mais porque teu Filho virá ao Mundo a fim de recriá-lo em pureza e amor, Justiça e paz, santidade e alegria.
A alegria! Sinal dos tempos messiânicos. O messias, filho de Maria, fará exultar os corações de santa alegria.
São Lucas sabia desta alegria e soube transmiti-la. Os relatos que abrem o Evangelho e nos conduzem rapidamente à casa de Maria estão impregnados de alegria.
Com razão, portanto, o evangelista põe nos lábios do arcanjo um sorriso e o convite à alegria messiânica. O mundo novo vai começar. Aproximam-se os dias do cumprimento da esperança. O Filho de Deus está pra vir. E Maria é o caminho do Messias, a porta donde despontará o sol da Salvação.
Sim, alegra-te, Maria! Alegra-te duplamente: porque o mundo vai ser salvo e porque tu, salva por antecipação e de modo mais excelente, foste escolhida como mãe do Salvador, Mãe dos tempos messiânicos, Mãe do mundo novo.
Permite, pois, Maria, que eu também me alegre contigo e, com Gabriel, te diga: Alegra-te! Ave Maria !
Mãe da alegria! "Alegria das minhas alegrias!"

Dom Hilário Moser SDB

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA PADROEIRA DO BRASIL



Rezemos pela nossa Pátria, à Virgem Aparecida, pelo destino da Nação, pelos seus futuros Governantes e pelo aumento da fé, esperança e caridade de todos os católicos brasileiros

Ó Maria Imaculada, Senhora da Conceição Aparecida, aqui tendes, prostrado diante de vossa milagrosa imagem, o Brasil, que vem de novo consagrar-se à vossa maternal proteção. Escolhemo-vos por especial Padroeira e Advogada da nossa Pátria; queremos que ela seja inteiramente vossa: vossa é a sua natureza sem par; vossas são as suas riquezas; vossos, são os campos e as montanhas, os vales e os rios; vossa é a sociedade; vossos são os lares e seus habitantes, com seus corações e tudo o que eles têm e possuem; vosso é, enfim, todo o Brasil. Sim, ó Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!

Por vossa intercessão temos recebido todos os bens das mãos de Deus, e todos os bens esperamos receber, ainda e sempre, por vossa intercessão. Abençoai, pois, o Brasil que Vos ama; abençoai o Brasil que Vos agradece; abençoai, defendei, salvai o vosso Brasil!

Protegei a Santa Igreja; preservai a nossa Fé, defendei o Santo Padre; assisti os nossos Bispos; santificai o nosso Clero; socorrei as nossas famílias; amparai o nosso povo; esclarecei o nosso governo; guiai a nossa gente no caminho do Céu e da felicidade! Ó Senhora da Conceição Aparecida, lembrai-Vos de que nós somos e queremos ser vossos vassalos e súditos fiéis. Mas lembrai-vos também de que nós somos e queremos ser vossos filhos. Mostrai, pois, ante o Céu e a Terra, que sois a padroeira poderosa do Brasil e a Mãe querida de todo o povo brasileiro!

Sim, ó Rainha do Brasil, ó Mãe de todos os brasileiros, venha sempre mais a nós o vosso reino de amor e, por vossa mediação, venha a nossa Pátria o reino de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso. Amém.

Ó Senhora Aparecida, Mãe querida, tenho tanta confiança em Vós, que espero a vossa proteção e vosso amparo em todos os passos de minha vida e na hora da morte. Amém.


domingo, 23 de julho de 2017

Flores na água‏



As plantas são seres dotados de uma vida própria. Não possuem alma como a nossa, mas um “elemento vital” que tem suas características.
Analisemos, resumidamente, uma folha. Mesmo que venha uma lagarta ou outro animal para destruí-la, se estiver unida ao ramo e este ao tronco - em uma palavra, se nela houver seiva - a mesma folha se reestruturará. Quando colhemos flores ou folhagens e as colocamos na água, elas mantêm o seu frescor e mesmo o seu vigor por certo tempo. Veja: certo tempo, maior ou menor, mas não para sempre.
Somos muitas vezes estas folhas, estas flores. O próprio Mestre nos compara a plantas muitas vezes nos Evangelhos[1]. E realmente o somos se atentarmos para os fatos acima.
As lagartas e pragas são as tentações e perseguições que nos acometem. Sim, muitas, para não dizer todas, são dadas por Deus[2], pois Ele é quem tudo permite e que prova o justo com provações como o ouro se purifica no fogo. Mas nada mudará para a folha unida ao ramo, que se reestrutura devido à seiva constante que provém do tronco para as extremidades. Assim nós, unidos à Igreja, não nos acovardamos ou perecemos por causa da Divina Seiva da Graça de Deus transmitida pelos Santos Sacramentos.
Às vezes, queremos perpetuar o frescor e vitalidade de uma planta dando um ambiente não-natural para ela, como é o caso de colocarmos flores em jarros d’água. Evidentemente não teremos grande sucesso. Assim a alma, colocada em ambientes que não podem dar o contato permanente com a Graça, logo definhar-se-á.
Como, nós, membros da Congregação Mariana, podemos ser somente marianos de um mês? Somente neste mês meditaremos sobre as glórias da Virgem? Somente neste mês rezaremos mais amiúde o terço? Somente neste mês faremos sacrifícios especiais para a Mãe de Deus? Somente nestes dias procuraremos divulgar mais sua devoção? Deixemos isso para os demais católicos. Nós não fazemos isso.
Não somos mesquinhos em nossa devoção à Mãe de Deus. A ela nos consagramos perpetuamente e propomos “fazer o quanto puder para que sejais dos mais fielmente servida e amada”. [3]
O congregado mariano planta a rosa de sua devoção em terreno fértil, o seu coração puro é regado constantemente com a água-viva que provém de uma fonte perene, a Congregação. As nossas práticas são de todo o dia, toda a hora, pois nossa Mãe não é de um dia, nem de alguns momentos. Ela é Mãe sempre, como sempre atenta a nossas dificuldades.
Esta é uma das vantagens da Congregação Mariana frente a outros grupos ou movimentos da Igreja. A começar de nosso caráter de associação pública de fiéis [4], ela é perenemente ereta como uma organização que não “fecha suas portas”. A formação constante a que os congregados, mesmo os associados, recebem os orienta em todos os matizes de suas vidas. É realmente um farol em mar revolto... A Consagração à Virgem é feita de modo perpétuo. E como tão boa Mãe deixaria seus filhos prediletos abandonados? Nenhuma mãe desta terra, mesmo muito pecadora, faria isso com seu filho. Nossa Mãe é a Puríssima Virgem. Como podemos imaginar sequer que isso possa acontecer conosco? Triste ver alguns que abandonam a Congregação por não estarem mais “atraídos” por ela. É claro que há as empatias, mas alguns perdem a Fé e, por isso mesmo, podem ser chamados de infelizes. Podem ser comparados ao filho-pródigo dos Evangelhos que trocou a mesa do pai pelos porcos, por Esaú que trocou a Primogenitura por um prato de lentilhas...[5]
Como servos (vassalos) desta augusta Rainha, temos suas insígnias, suas cores, somos marcados com seu sinal, somos sua propriedade[6]. Nenhum soberano deixa seus súditos à mercê dos inimigos. De igual modo, esta Senhora não deixa seus servos desamparados. “Jamais se ouviu dizer que algum daqueles que tem recorrido a vossa proteção (...) fosse por vós desamparado”[7], diz a secular oração à Virgem.
Portanto, não somos “marianos de mês”, mas de uma vida inteira. Inclusive no Céu, onde poderemos cantar perfeitamente os louvores da Mãe de Deus.



Alexandre Martins, cm.
(Publicado originalmente no Boletim “Salve, Rainha” da Congregação Mariana da UFRJ em maio de 1997)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Oração a São Luiz Gonzaga


Ó Luís Santo, adornado de angélicos costumes, eu, vosso indigníssimo devoto, vos recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu corpo. Rogo-vos por vossa angélica pureza, que intercedais por mim ante ao Cordeiro Imaculado, Cristo Jesus e sua santíssima Mãe, a Virgens das virgens, e me preserveis de todo o pecado. Não permitais que eu seja manchado com a mínima nódoa de impureza; mas quando me virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai do meu coração todos os pensamentos e afetos impuros e, despertando em mim a lembrança da eternidade e de Jesus crucificado, imprime profundamente no meu coração o sentimento do santo temor de Deus e inflamai-me no amor divino, para que, imitando-vos cá na terra, mereça gozar a Deus convosco lá no céu. Amem"

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Consagração À Nossa Senhora Auxiliadora


Meu Senhor, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, vos reconheço como meu Senhor, vos adoro e vos proclamo principio e fim de toda criação. Suplico-vos com humildade que renoveis em mim aquele misterioso testamento que fizestes sobre a Cruz, quando deixastes Maria como Mãe do apóstolo João. Fazei-me hoje a mim também filho de Vossa Mãe e dai-me a vossa Mãe como minha mãe. Dai-me a graça de pertencer a ela e de tê-la como Mãe durante toda a minha vida. Santíssima Virgem Maria, Advogada e Auxiliadora dos Cristãos, eu me confio por inteiro à vossa bondade maternal. Animado por esse desejo quero imitar vossas virtudes; elejo-vos hoje como minha Mãe e vos suplico Ter-me entre vossos filhos. Ofereço-vos o dom de mim mesmo, quanto sou e tenho. Acolhei minha vontade e fortalecei em mim a confiança com a qual hoje me ofereço. Que vossa proteção me assista todos os dias de minha vida e na hora de minha morte, para que ao abandonar este vale de lagrimas possa reunir-me convosco e gozar no Reino de Vosso Filho. Amém

Autor: São João Bosco

domingo, 21 de maio de 2017

A República Mariana

Alexandre Martins, cm.

A Sociedade humana se organiza em grupos. De acordo com a história da humanidade, esses grupos se organizam de formas características.
As irmandades católicas, e também as confrarias, se organizam de uma forma familiar, como o próprio nome diz. Ou seja, são irmãos que se consideram parte de uma mesma família. Daí o nome “irmandade” (reunião de irmãos) e “confraria” (do latim, “frater”, irmão, também é reunião de irmãos) serem nomeados esses agrupamentos.

O usado na Idade Média

Como as irmandades e confrarias foram concebidas na Idade Média, como a primeira confraria mariana que se tem notícia, a fundada pelo início do século XI, em Ravena, Itália, pelo Beato Pedro de Honestis (1049-1119), a sua organização era concebida como as guildas medievais.
Uma irmandade tem um chefe denominado Provedor que, como significa o nome, é o que provê as necessidades do grupo, como um pai na sua família, imitando outra instituição quase medieval: os mosteiros e seus abades.
Nas irmandades e confrarias a mesa diretora é composta em geral pelos mais antigos que se revezam de acordo com o tamanho e necessidade da confraria. Símbolos são usados amplamente para distinguir o grau e a importância do Provedor e os membros da mesa de direção, mesmo para os que não são membros da irmandade.

A Idade Moderna

Como advento das Congregações Marianas surge uma organização diferente.
As Congregações Marianas embora taxadas de “medievais” até por alguns jesuítas modernos, curiosamente surgiu na própria Idade Moderna, século XVI. A Idade Média havia terminado há várias décadas atrás. Mesmo o famoso Concílio de Trento, renovador de per si na história da Igreja, havia sido realizado poucos anos antes da fundação da primeira Congregação Mariana.
Como uma instituição moderna, portanto, as Congregações Marianas adotaram uma organização também moderna.
O governo das Congregações Marianas é entregue aos leigos, com a supervisão de um sacerdote. As irmandades e confrarias também o eram, mas com as Congregações Marianas a forma era algo de “republicano” em comparação com as irmandades que eram, por sua vez, mais “monarquistas” e “feudais”.

Leigos como diretores

Um exemplo claro do citado acima é o título que o dirigente leigo possui nas Congregações Marianas: o de Prefeito, ou Presidente, títulos empregados na Europa e Brasil, respectivamente. Esse título exemplifica bem o caráter comunitário da gestão administrativa das Congregações Marianas. O diretor é alguém eleito por seus pares e pode ser tanto um antigo Congregado quanto um mais novo. Além disso, os demais diretores também são escolhidos do mesmo jeito. Se compreende então que é a comunidade de Congregados que são representados em um pequeno grupo que organizará a vida da Congregação Mariana por um determinado período e que por sua vez será substituída por outros em nova eleição interna.
O sacerdote possui neste cenário uma posição e atuação bem particular. Embora as Regras Comuns de 1910 tenham dado poderes maiores aos sacerdotes, que possuíam o título de Diretor Espiritual, na realidade essa autoridade era exercida mais num sentido de amorosa orientação do que rígida disciplina.
Mesmo o famoso pe. Coster, jesuíta que tanto utilizou das Congregações Marianas para o trabalho de evangelização e apostolado nas cidades europeias do século XVII, dava apenas as orientações gerais par suas associações e para seus Congregados, deixando-os livres para a ação.
Infelizmente, no início do século XX, no Brasil, as Congregações Marianas eram tratadas de forma mais rígida pelos sacerdotes, colocando os dirigentes numa situação de praticamente dependência deles, sem muita iniciativa particular. Com a mudança das Regras em 1967, e o consequente retorno à posição mais colaborativa do sacerdote, os dirigentes ficariam como que desamparados na orientação de seus trabalhos administrativos e a consequência foi uma grande queda no ímpeto apostólico das Congregações Marianas no Brasil.
Mas as novas Regras que dirigem as Congregações Marianas no Brasil, se por um lado não modificaram a posição colaborativa do sacerdote na organização da associação, por outro lado não impedem que se possa retornar à tradição das clássicas Congregações Marianas.

A Regra brasileira de 1994

A Regra de Vida de 1994 nada se refere a não poder ser aceito na Diretoria alguém ainda no Aspirantado, quando não há número de Congregados marianos para isso, como se verifica nas Congregações Marianas que são recentemente fundadas. O antigo costume de haver a Consagração Perpétua aos primeiros fundadores de uma Congregação Mariana caiu em desuso na década de 1970 no Brasil.
A primeira diretoria é escolhida praticamente em um consenso pois em geral o número inicial é pequeno. A Regra de 1994 até mesmo a chama de “diretoria provisória” Daí a possibilidade de haver aspirantes entre os diretores.
A diretoria clássica era composta por um número considerável de pessoas. Sua divisão era de “oficiais maiores” e “oficiais menores”. O temo “oficial” dá-se porque a pessoa possui um “ofício” um função, e não, como se pode pensar de primeiro, alguma honraria ou prêmio.
Na tradição das Congregações Marianas, os oficiais maiores são o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário e o Tesoureiro. O assistente eclesiástico é uma função que, embora compunha o elenco dos oficiais maiores, não é algo especial, pois não é eleito, mas nomeado. Em paróquias, é uma função naturalmente exercida pelo pároco.
Os oficiais menores são os demais cargos que venham a existir, como o de Porta-bandeira.
A escolha da Diretoria, em especial os oficiais maiores se dá por eleição simples entre os Congregados marianos. É um costume abster o Aspirantado de votar.
A duração do mandato se dá por um ou dois anos, E sempre foi feita uma cerimônia especial de posse de diretoria, com um pequeno juramento proferido pelos diretores perante o altar e o padre assistente, aonde se sublinha o caráter serviçal da função de diretor.

O protagonismo moderno das Congregações Marianas

As Congregações Marianas, fundadas na Idade Moderna, sempre estiveram à frene do seu tempo. Seu protagonismo se deu também através de uma gestão participativa de escolha livre entre os membros. Algo comparável a uma pequena república, ou mesmo uma pequena cidade onde seus habitantes escolhem seu prefeito.
Os diretores são os eleitos para organizar e guiar essa pequena república, uma república que não segue as leis humanas mas as leis do Evangelho. Uma república que tem como pátria a pátria celeste. Uma república que usa as cores da Mãe de Deus. Uma república da Virgem Maria.