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sábado, 31 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Páscoa

Pe João Mendes S.J

     Os homens todos andam em busca de alegria, e tão poucos encontram! Porque tem medo ao risco de ir buscar onde ele está: do outro lado do sofrimento. Eis aí a divina aventura do cristão, a seríssima empresa da sua vida.
     É assim a alegria pascal: fruto da dor, alegria redimida, paz onde se encontram a pureza de alma e o amor verdadeiro. A grande festa do cristianismo, A Páscoa é a festa da alegria, mas da alegria purificada na verdade da vida, no grande encontro com Deus. " A alegria é a coisa mais séria deste mundo" disse o artista português ( Almada Negreiros). E, realmente, é num Domingo da Ressurreição, que melhor vemos e sentimos a razão dessas palavras.
     
1. O CRISTIANISMO É ALEGRIA...


     1. Porque é participação na vida de Deus, e essa vida é gloriosa. Ser cristão é escolher a eternidade, e vencer a morte. No batismo pedimos a vida eterna à porta da Igreja, começamos a ser divinos; e as nossas ações daí em diante serão humano-divinas, gloriosas portanto. É que a graça não é só um direito, e já um princípio; são as arras da glória eterna, a posse de Deus e do Céu, se bem que ainda às escuras na penumbra da fé, e nos domínios da dor e da morte. Daí o aspecto do alheamento e estranheza que o mundo sente diante do cristão convicto. É que escolheu a eternidade, renunciando aos prestígios do tempo. Tem que ser considerado estrangeiro.
     2. Porque tudo na vida cristã pode ser triunfo. Todas as dores e fracassos se podem transformar em vida divina. O Sangue de Cristo, derramado para redenção nossa, é realmente o elixir da eterna juventude que tão buscado foi pelos alquimistas antigos. Todos os fracassos e destinos falhados, até a ruína, transfigurados em valores divinos. E, se a vida só pode ter sentido e sabor, quando se desvanecer o aspecto da morte, nesse caso, ninguém mais desafogado e livre da fatalidade que o cristão. E foi esse sentimento de liberdade de espírito, diante de todas as fatalidades do mundo antigo, o que sentiram as primeiras gerações de seguidores de Cristo: desafogo perante o destino, pela decifração do absurdo.

2. MAS ALEGRIA CONQUISTADA

     1. Não é fácil a alegria cristã: não é nenhum dom gratuito que me seja entregue como a um príncipe privilegiado é entregue uma herança real. Tenho de a conquistar. E é esta a mais bela e mais gloriosa empresa da minha vida. A terrível seriedade da nossa alegria de cristãos, vem de que a participação na vida gloriosa de Deus é obtida mediante uma participação na Paixão de Cristo. A primitiva cerimônia do batismo por imersão era a sepultura do homem velho, da qual sairemos ressuscitados, juntamente com Cristo, para vivermos a novidade da vida cristã.

     2. Portanto, ser cristão é ser homem novo, resgatado e restaurado. É manter na alma o rejuvenescimento da primavera depois do inverno, da novidade depois da ruina, da verdade depois da mentira. É uma paz, ou satisfação das aspirações essenciais, em perpétua construção e conquista, com sabor de vitória.
     Mas, para ter paz no coração, aquela paz de Deus que ultrapassa todo o sentido, é preciso manter a verdade da vida, numa longa e continuada fidelidade. É o que nos pede S. Paulo na Epístola da missa de Hoje: " purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, uma vez que sois ázimos. Não foi Cristo imolado, ele é nossa Páscoa? E assim, banqueteemo-nos, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. A nossa alegria é, pois, um gozo redimido nos sofrimentos de Cristo, uma luz de pureza e autenticidade, isenção do que é velho, mundano, e mentiroso, ázimos de sinceridade e de verdade.

CONCLUSÕES

     1. A vaidade de ser triste, tão comum aos românticos, e a todos os homens na medida em que todos temos alguma coisa de romântico, essa maneira de se propor como excepcional pelo sofrimento, é um dos estados de alma menos cristãos. Se tudo, na vida do discípulo de Cristo, é triunfo, e triunfo para a eternidade, como poderá ele comprazer-se de tristeza? Os homens excepcionais não tem fatalmente um destino heróico da tragédia, como queria o paganismo antigo; mas são aqueles que chegam à simplicidade e à humildade de sempre se julgarem felizes. O soberbo é trágico porque julga que todo o êxito lhe é devido, e o humilde é alegre, porque aceita a vida e os acontecimentos.
     2. As ascensões do coração. Depois dum bem alcançado é preciso procurar outro maior, porque só assim rejuvenesce a alegria, e vai caindo o que é velho. O motivo porque tantos, no princípio da conversão, vivem felizes, e depois perdem o gosto e a paz de Deus, é porque deixaram cansar o amor na rotina dos bens iguais; ou por outra: porque deixaram de tender so bem maior e de morrer ao que é pequeno. Para ser feliz é preciso renovar-se continuamente, com um ideal e uma doação sempre novos. Daí que conquistar a alegria seja o mesmo que conquistar a perfeição: ir subindo sempre a montanha cujos cimos vão sempre fugindo. E não se cansar, nem desistir da subida. Porque a alegria, com perfeição, não tem nível certo, ou altura marcada. É uma pureza, gozosa mas instável, que se vai criando, em altitudes, cada vez mais elevadas. Só assim seremos ázimos de sinceridade e verdade, repassados de Deus e de sua Luz beatificante.

sábado, 24 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Ramos

Pe. João Mendes S.J

     O triunfo de Cristo, que no Evangelho de hoje se comemora, é um contraste perfeito com as discussões de domingo passado. Aí, era a má vontade e falta de clareza interior, perante a luz divina que se propõe ao coração do homem: " Amaram os homens mais as trevas do que a luz".
     Hoje, as almas dos simples e dos bem intencionados, recebem e aclamam " o que vem em nome do Senhor". Neste erguer de ramos de palma e de oliveira, tudo tem o caráter espontâneo do que floresce naturalmente: são corações que se abrem.

1 O TRIUNFO DE CRISTO É A HUMILDADE E MANSIDÃO

     1. Os triunfadores deste mundo, os homens que arrastam as multidões, lançam mão do aparato exterior, dos grandes lances e abalam os nervos. Levam-nos após a si, atraídos pelo efeito espetacular de grandes paradas, desfiles armados, clarins, bandeiras. Aqueles mesmos que têm dotes pessoais de atração sedutora parece que são possuidores de uma espécie de magnetismo que é mais senhor dos nossos nervos que daquele amor profundo que deseja puramente o bem melhor. Há qualquer coisa de falso e traiçoeiro na sedução que os grandes homens exercem sobre os nossos entusiasmos delirantes. Não entram pela porta do redil, que é a aspiração profunda ao bem sem limites; não são ele o Bom Pastor, mas sim, lobos suspeitos.

     2. O triunfo de Cristo tem caráter autêntico da naturalidade: espontâneo, simples, como uma flor se abre ao sol ou um coração se rende ao amor. Nos antigos triunfos romanos, um escravo ia dizendo ao ouvido do triunfador para que a glória o não embriagasse: " lembra-te que és homem!". Agora, diz Bossuet, é necessário que lhe digamos: " Lembra-te que és Deus". Ausência absoluta de tudo o que seja espetacular, ou para causar efeito: o Senhor montado simplesmente num jumentinho, sem mais alarde que os atrativos da sua Pessoa Divina; e à volta, a aclamação das crianças, de cuja boca sai o louvor acabado, e dos discípulos e populares, cuja alma simples, não amarga pela inveja dos fariseus, reconhece, instintivamente, onde está a fonte que jorra para a vida eterna. Tudo familiar, suave, pacífico; e aqueles ramos de palma e oliveira dir-se-ia brotarem, tão naturalmente, como uma primavera de amor entusiasta, nas almas bem formadas.

2. MAS IRREPRIMÍVEL, PORQUE FUNDADO NO AMOR

     1. Donde vem o ressentimento, Cristo foi, no conjunto da sua missão, mal recebido pelos homens; " e os seus não o receberam". É que Ele vem trazer a espada e a guerra, separar oa pais dos filhos, e os irmãos dos irmãos: é uma mensagem incômoda que o homem velho não perdoa, e que o leva a juntar-se aos escribas e fariseus: " Fora! Fora!". Mas as exigências de Cristo não são mais do que correlativo das nossas ambições desmedidas. Precisamente porque nós ambicionamos muito mais do que os limites deste mundo, é que o Senhor tem de nos dizer que desapeguemos do que é pobre e limitado. E assim, se nós não fossemos tão excessivos no amor, não seria Cristo tão implacável no que nos pede. A cruz nasce da terrível seriedade e profundeza do nosso amor exigente. E por isso, quando as exigências de Cristo se encontram com as ambições do homem então, somos santos e felizes.
     2. Donde vem a aclamação. Vem de que, nas almas, há alguma coisa de mais fundo que os ressentimentos do homem velho, uma verdade que aclama Cristo e necessita Dele . Para além das nossas maldades e do miserável apego às pobres alegrias da terra, lateja, doloridamente, a angústia essencial da nossa pobreza de amor. Para além dos pequenos amores, queremos o Amor profundo o que não engane e sempre dure. E é por isso, que há, também, em nós, quem tome partido por Cristo e por sua bondade santa e exigente. " Hosana ao filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor" E quantas vezes, como agora na entrada de Jerusalém, o Mestre não é aclamado pelo que de mais puro existe no coração do homem! Que são, por exemplo, as grandes manifestações mundiais dos congressos Eucarísticos, em meio do materialismo trepídante da vida moderna, senão o triunfo, suave e bondoso, do Rei que vem a nós na mansidão invencível do seu amor?!

CONCLUSÕES

     1. O nosso Chefe. Todos nós desejamos alguém a quem seguir e a quem nos possamos entregar. Mas quem nos dará o triunfo perfeito? Sejamos fiéis a nós mesmos, entrando no grupo dos que aclamam a Cristo; juntemo-nos ao cortejo humilde e simples, fazendo da nossa vida, uma fidelidade ao Bem autêntico e sem encarecimentos. O homem velho prefere os triunfadores espetaculares. Deixemos os efeitos fáceis, e firmemos a vida na verdade do Amor.
     2. O êxito da Vida. Colocaremos, assim, o êxito e o triunfo pessoal a que todo o homem aspira, para além da segurança aparente com que nos apoiam os aplausos do homem. Estes podem dar-nos a ilusão momentânea de que nos fazem maiores; mas quando nos faltam, logo vemos o logro e o desamparo. Cada um é o que é diante de Deus, e mais nada. É vivermos para dentro e para o profundo, em demanda do reino de sombra da humildade simples, onde nasce o rei da Glória.

terça-feira, 20 de março de 2018

Programação Para a Semana Santa

23/03 - (sexta-feira) 19h-  Recitação da Coroa das Sete Dores de Nossa Senhora

24/03- (sábado) 09h - Confissões

25/03 - (Domingo de Ramos) 09h - Santa Missa com Procissão e Benção de Ramos

29-/03- (Quinta- Feira Santa)

09h - Missa do Crisma ( Catedral São Dimas SJC)

20H - Santa Missa "in coena Domini" seguida de adoração ao Santíssimo Sacramento

30/03- ( Sexta Feira Santa)

09h - Via-Sacra e Confissões

15h - Solene Ação Litúrgica

31/03- ( Sábado Santo)  20h - Vigília Pascal

01/04- (Domingo de Páscoa) 09h Missa Solene

CAPELA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
Av . São João s/n
São João
Jacareí - SP

sábado, 17 de março de 2018

Meditação para o Domingo da Paixão

Pe João Mendes S.J

     O Evangelho deste domingo é um dos episódios culminantes da luta de Cristo com os fariseus, desse fundo desentendimento das vontades humanas perante a Luz, que levou Israel a não aceitar o Redentor e a crucificá-lo. Cristo não discute só com os doutores da lei, mas com os sofismas de todos os homens que amam mais as trevas do que a luz, e que tem medo de Deus e de suas exigências sobrenaturais.
     Na variedade de ideias e incidentes da polemica referida no Evangelho, salientam-se duas linhas gerais, relativas, consequentemente, ao problema da Fé: Cristo vive, intimamente unido ao Pai, cuja glória procura, e cuja doutrina reflete fielmente. E os Fariseus, porque não são de Deus, também, por isso, não ouvem a Cristo que a Deus está unido.

1. CRISTO É " DE DEUS"

     1. A santidade de Cristo. Os fariseus acusavam a Cristo de estar possesso do demônio. Mas o Senhor desafia-os, com segurança divina, a que O acusem de pecado. E como poderiam fazê-lo, se Ele só procura a Glória de Deus, à qual se doou numa consagração perfeita? E é essa pureza absoluta de intenções, esse desprendimento generosíssimo e piedoso, que reverte de Deus Pai para seu Filho, transformando num testemunho de santidade e de verdade. Diante dos Santos, sentimos a proximidade do eterno e do definitivo, da segurança e do amor, - precisamente, porque, neles, o homem se apagou, e adere puramente a Deus, enchendo-se de uma verdade e de uma presença divinas, que os impõe por si mesmos. Devia ter sido assim, e incomparavelmente mais, com N.S Jesus Cristo.
     2. A doutrina de Cristo apresenta o mesmo ar de autenticidade: doutrina pura, impecável, como a do sermão da montanha, que não lisonjeia nenhuma paixão. O Redentor não é mais do que a testemunha do que ouviu do Pai; e se disser que O não conhece, será, como os fariseus, mentiroso. Por isso é que quem ouvir as suas palavras e as guardar, ficará, para sempre, isento da morte. É como se o Senhor dissesse: nas doutrinas e sistemas dos homens, quantos interesses escondidos! justamente, porque essas doutrinas nasceram, os mais das vezes, para justificar-lhes o proceder. Mas com Ele, não é assim. Os seus ensinamentos procedem da fonte mesma da verdade e da vida, sem traição nem desvio, porque Ele está unido ao Pai, com sinceridade puríssima.

2. OS FARISEUS PORQUE NÃO SÃO DE DEUS REJEITAM A CRISTO

     1. O que é ser << ex Deo>>, ou << ex veritate>>. É estar persuadido que a Verdade é santa, porque se confunde com o bem; que a Verdade não é mero pábulo da curiosidade intelectual, e que só nos deve servir para sermos bons. Que utilidade teriam sistemas, e filosofias, e criticas, se não nos ajudassem a vivermos mais humanamente, e sermos melhores?
     A Verdade adquire, assim, caráter sagrado; não pode, portanto, comparecer, diante de nós, como um réu; mas nós é que devemos buscá-la como à razão de ser da nossa vida; como alguma coisa de sacrossanto, que se procura com amor, com pureza, e com infinito respeito. E como a Verdade se confunde, objetivamente, com o Bem, se queremos um atalho para a luz, comecemos por ser, lealmente, bons. Mas como posso eu, sem conhecer explicitamente a Verdade, saber onde está o bem? Pois por certo instinto da consciência, por um raciocínio que anda implícito na nossa vida, e que até os ignorantes e incultos apreendem, por uma espécie de conaturalidade com o Bem verdadeiro. É isto ser de Deus e ser da Verdade.
     2. Os fariseus rejeitaram a Cristo, porque iludiam o puro instinto do Bem; porque tinham o coração cheio de enigmas e desvãos, e de secretas alianças com o mal. Era isso o que os levava a fixarem-se de preferência nas razões que poderiam ter contra Cristo.
     A Verdade, quase sempre nos aparece com algumas sombras; ou por outra: a revelação de Deus não é necessitante. Nesse caso, porque hei de me fixar, de preferência, nas razões positivas e não nas dificuldades? É porque a isso me inclina o sacrário interior da minha vida; o peso e a delicadeza da minha sinceridade última; o pertencer, por natureza, ao partido do Bem e da Bondade; e o não poder ser perfeitamente bom. Se não ao lado de Deus, entregando-me numa doação de amor total. Se não tiver parcialidade pelo bem, não chegarei à Verdade.

CONCLUSÕES

     1. O Pecado contra a luz. Se tivermos algum empenho ou inclinação subconsciente para fugirmos ás verdades da Fé, então, todas as dificuldades e obscuridades nos servirão de pretexto, e por essas fendas se introduzirão, furtivamente, com a aparência de razões fortes, todas as nossas oposições inconfessáveis. E se tivermos, à raiz mesma do coração e da sinceridade, uma vontade essencial de sermos bons, então, esteremos de acordo com Deus; e todas as objeções admitem uma explicação.
     Mas, por mais bem intencionadas e desapaixonadas que julguemos ser ao nosso ponderar as razões, poderemos sustentar, de ânimo tranquilo, o olhar rigoroso da consciência? teremos a garantia absoluta, de que, nos movimentos mais radiculares da vontade, não houve nenhuma fuga para outros interesses? que tivemos de boa vontade sem liga nem mistura? quer dizer: que fomos santos e não encontramos a luz?
     2. A empresa máxima da vida,  o grande acerto da existência, consiste em que, em nós, o desejo da Verdade coincida com o desejo do bem. Na medida em que não coincidirem, pecamos contra a luz. Quem for sincero com a própria consciência, ouve a voz de Deus, põe-se de acordo com Cristo. po isso, quem é de Deus ouve a Cristo que é de Deus: << O que crê no Filho de Deus, tem o testemunho de Deus em si mesmo>>. E é esse o problema que vai até a raiz do nosso ser, até ao âmago da consciência, enquanto ela é a voz do nosso destino. A conquista da verdade pelo amor sutêntico é a formidável empresa de nossa vida.

sábado, 3 de março de 2018

Meditação para o 3° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     A perícopa que se lê no evangelho de hoje é muito variada. Conta-nos primeiro a cura do demônio mudo- e daí que se costume falar da confissão neste domingo. Vem, depois, o processo de ruína das recaídas no pecado. E finalmente, diante da doutrina do Mestre, há uma mulherzinha que levanta a voz, de entre multidão, para louvar a Mãe que tal filho deu ao mundo. E o Senhor emenda o elogio, fazendo-se reverter, não tanto para os que tenham boa doutrina, quanto para os que, ouvindo a palavra de Deus, a ponham por obra.
     Todas estas ideias se poderão, talvez, agrupar à volta da noção de católico prático.

1. A CASA DOS SETE DEMÔNIOS

     1. Recair é abusar da graça e da misericórdia. A primeira culpa é fruto da ignorância, da fragilidade e da surpresa. Mas as recaídas, normalmente, já não têm as mesmas desculpas, porque o homem já conhecia, tanto a própria fraqueza como a desilusão que é o pecado. Mas houve uma presunção, ou falsa segurança, de quem julga que pode manter-se imune das ocasiões de perigo; e ao mesmo tempo, um pequeno raciocínio, ofensivo da misericórdia de Deus: "Pequei, e que mal me veio daí?" ( Eccl 5,4) . E como o Senhor disse que perdoaria setenta vezes sete, o pecador anima-se a ofendê-lo mais tarde. É o católico " não praticante", ou a tentativa de servir a dois senhores, e de os enganar a ambos.
     2. Recair é escravizar-se a maus amos. Quando o demônio volta à alma que uma vez pecou, e se arrependeu depois, encontra-a tão nova e regenerada como se acabasse de ser criada. Mas traz, consigo, outros sete espíritos piores que o espíritos da primeira culpa. Sete significa número perfeito; aqui, o poder, em pleno, do mal. É que as recaídas são o forjar de algemas com que a alma trabalha para a sua própria escravidão. Os sete demônios são piores que o primeiro, porque são os maus hábitos que nos acorrentam, junto com as graças de Deus que se desmerecem. Sobretudo em certos pecados, como o da impureza, mau é começar. Perdeu-se o brio e o pundonor da integridade que era uma grande força; depois, já parece que um pouco mais ou um pouco menos não trará grande mal; e adquire-se o pendor ou a facilidade de cair que é a pior das fatalidades.

2. FELIZES DOS QUE OUVEM E GUARDAM

     1. Porque conhecem a Deus e se lhe assemelham. A palavra de Deus é uma segunda encarnação, diz Bossuet, comentando a Origenes e a Santo Agostinho. Porquanto, devendo Cristo mostrar-se a todos os homens, e não o tendo feito na verdade da sua carne, fá-lo na verdade da sua palavra. Com o interesse de Zaqueu, subindo a uma árvore para ver passar a Cristo, procuremos também vê-lo, na pregação dos seus Apóstolos.

     Mas, se além de vermos, guardamos, então, assemelhamo-nos ao Divino Exemplar da nossa Divinização. Cumprir a palavra de Cristo faz-nos parecidos ao Pai do Céu, dá-nos traços e feições de família. De tal modo, que se, por absurdo, a maternidade divina não trouxesse consigo a assimilação moral, cumprir a palavra do Senhor seria parentesco mais íntimo que ser mãe de Deus. Foi o que o Mestre confirmou, no lugar paralelo de S. Matheus: " O que fizer a vontade de meu Pai que está no céu, esse é que é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe." ( Mat 12,50).
     2. Porque o amor liberta. A fidelidade à Lei, quando é adesão amorosa e não simples formalismo, liberta a alma, e renova-lhe o entusiasmo. Praticar, ser dócil à atração do bem maior, é ver e sentir que o senhor é bom e que vale a pena servi-lo. O amor renova-se com as delicadezas da fidelidade e com a experiência das doações generosas. O motivo por que, muitas vezes, se cai na rotina estéril, é porque se para na generosidade. Se tendermos ao bem maior, o amor transforma-se numa conquista insaciável do Sumo Bem, e encontra, em si mesmo, a alegria que o leve a novas ascensões do coração.
     O católico " não praticante" julga que pode abraçar a Deus e ao mundo, e que encontra a liberdade de movimentos na sua situação dúbia. Mas em vão; porque ninguém pode servir a dois senhores, e porque o verdadeiro desafogo conquista-se na fidelidade ao amor.

CONCLUSÕES

     1. O católico " não praticante". Aí, está uma expressão que muitas vezes se ouve, e que não faz grande sentido. Aquele que " não pratica", no mundo atual, é um contra senso, porque as situações extremas tendem a agravar-se, portanto e esclarecer-se. Em tempos apocalípticos como os nossos, o "não praticante", é um absurdo que a lógica da vida rejeita. Mas em qualquer época, pensar de uma maneira e viver de outra, será sempre hipocrisia e falta de caráter, onde quem acaba por sofrer são as ideias, já que a vida é mais forte do que elas. Este ilogismo, prático, esta ausência de sinceridade para com a verdade, é o caminho mais suave e mais certo para a tristeza moral, para o fastio e para a descrença.
     2. Confissão contrita e sincera. O grande remédio para pormos coerência na nossa vida, é a confissão bem feita, porque ela é, também, a grande prova da nossa sinceridade e boas disposições. Fora casos anormais, quem a sério se arrepende, propõe-se, também a sério, fugir das ocasiões de pecado; e, com certeza, melhora a vida. De maneira que, se caímos na indolência para examinarmos as nossas confissões; porque é muito possível que não sejam sinceras, e nos andemos a enganar a nós mesmos e ao confessor - a Deus, não. A confissão, bem persuadida, é primacial obreira de coerência psicológica e de reforma radical.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Meditação para o 1° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O presente domingo tem intima ligação com o anterior. O escândalo da cruz também se aparenta com a tribulação das tentações. Porque não viveremos em paz? Porquê este sentimento de instabilidade angustiosa debaixo dos nossos passos? Porque não serão seguros os caminhos?
     Da mesma forma que temos de sofrer, também temos de ser tentados; porque os sofrimentos e tentações são provas e garantias da nossa verdade interior. Somos sinceros para com Deus? Somos sinceros para conosco mesmos? No perigo se verá. Trata-se pois, duma simples prova, exame que pode e há de servir ao nosso triunfo na glória: " porque eras aceite a Deus, foi necessário que a tentação te provasse." ( Tob 12,18)
     É que, perante a facilidade com que nos iludimos e nos debilitamos, as tentações: ensinam-nos e fortalecem-nos.

1. ENSINAM

     1. Porque a paz ilude-nos sobre o que somos. Quando, na prosperidade tudo corre à medida dos nossos desejos, é tão difícil julgarmo-nos fortes, e atribuir-nos o bom êxito da nossa vida!... Daí que confiemos em nós mesmos, e que entremos a viver com a sensação habitual de segurança e estabilidade que supõem, por outro lado, esquecimento de Deus e da necessidade absoluta que temos d'Ele.
     
Vem a tentação a sacudir-nos a tranquilidade; declara-se uma crise em que tremem os arrimos que escoravam a nossa pretendida suficiência. E eis-nos desamparados, vogando ao acaso, com a revelação patente de todas as infâmias de que somos capazes, com as vertigens de todos os abismos. Aí está o que somos.
     2.A provação esclarece. É neste momento que a tentação nos ensina a orar e a apreciar a graça. Sentindo a nossa debilidade e atração do mal, espontaneamente olharemos para o céu e para Deus, como a criança que a mãe afastou um pouco, para a obrigar a caminhar para si. Saímos da terra firme e da segurança; fomos ao mar, colheu-nos a tempestade. E ao sentir-nos na solidão e na instabilidade das ondas, aprendemos a orar. E fizemos, a grande descoberta de que é pela graça que somos alguma coisa. O resto, ou é temperamento bem inclinado, ou clima moral de circunstâncias favoráveis.

2. FORTALECEM

     1. Porque a paz enfraquece-mos. O costume envilece. A prosperidade sempre bem sucedida, leva, insensivelmente, à rotina, à virtude sem convicção, à indolência moral. E como se insinuam, sutilmente, as impurezas do amor próprio nessa dormência da vontade que depôs as armas!... Como amortece aquela vigilância matutina, e aquele entusiasmo juvenil do querer, que fazem a autenticidade da virtude!...
     Mas lá vem a tentação, colocando o oiro no cadinho, e fazendo cair as escórias de todas as pequenas e grandes sensualidades! O mar agita-se, e as impurezas que por lá andavam, são lançadas à praia, e joeiradas no vai e vem das ondas. Quantas fibras do coração se doem, quando a vida nos sacode, quantos apegos secretos, vindos a lume, revelados nas crises que nos agitam, e obrigam as pequeninas feras a sair do esconderijo!...
     2. A provação enrijece. E então, somos obrigados a combater. Precisamos de fazer apelo a todos os recursos da alma e da graça. Temos de nos levantar a indolência a que nos habituáramos, de entrar na vida dura, que enrijece a vontade. A tempestade, ao passar, fez que a árvore se apegasse mais ao chão, deitando as raízes mais fundo. Formam-se, assim, hábitos de virtude, que são muito diferentes do descanso e da rotina. O hábito não é repouso, é força. Como, antigamente, as cartas de nobreza eram concedidas depois de grandes feitos militares, assim, nas tentações é que se alcançam os hábitos de virtude, que são a aristocracia da vontade, como lhes chamou profundamente um autor católico. As convicções tornam-se muito mais íntimas, porque se arraigam na vida difícil, porque as temos de defender e manter à custa de sangue.

CONCLUSÕES

     1. A tentação é a mortificação que Deus nos manda. Considerávamos, no domingo passado, que tinhamos de tirar prova, pela cruz, da nossa sinceridade moral. E que essa prova era a mortificação, garantia da pureza com que usamos das criaturas e servimos a Deus. Mas o Senhor, por seu lado, manda-nos também outras provas, consentindo que sejamos tentados para mostrarmos o que somos. A tentação é pois, a mortificação que Deus nos manda, como a mortificação é a tentação com que nós examinamos a nós mesmos.
     2. A tentação não são as ocasiões que nós buscamos. O que é preciso é que sejam provas que Deus nos manda, e não ocasiões de pecado, em que nos arriscamos. Porque, essas, já revelam apego à culpa, e supõem, por isso mesmo, que não estamos dispostos a usar das graças que Deus nos concede. Quem vai, indiscriminadamente, a teatros, cinemas e bailes, quem olha para tudo o que é prestígio do mal - como há de manter-se na tentação, se já vai vencido? Como há de resistir à vertigem o que a procura? 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Meditação Para do Domingo da Quinquagésima

Pe João Mendes SJ

     O Evangelho de hoje compreende duas partes que se relacionam, pelo menos simbolicamente: o anúncio da Paixão e a cura do cego. Os Apóstolos não compreenderam; escandalizaram-se com a cruz, foram os primeiros a manifestar aquela cegueira, que é afinal de todos nós, diante da necessidade de sofrer.
     Para ser cristão, é preciso abraçar a dor, ter a coragem de a aceitar no centro mesmo da vida. É esse o caminho para a felicidade autêntica; mas é esse anseio de felicidade que, em nós, se recusa a consentir. Daí, a grande dificuldade, e o círculo fechado em que o homem se debate: a cruz atrai e repele. Atrai, enquanto é custoso aceitar o sofrimento, como o caminho da alegria.
    Peçamos pois, a Cristo que nos ensine a sair desta contradição, abrindo os olhos de nossa cegueira, com um milagre tão grande como o que curou o cego.

1. EM QUE CONSISTE O ESCÂNDALO DA CRUZ

      1.As demasias da renúncia. A cruz, e as repugnâncias que ela levanta em nós, não são. somente, a mortificação do que é imperfeito e pecaminoso. O que já não era pouco, e que seria exigência de uma perfeição laica, teoricamente possível, num pagão. É também, a morte de muito do que é legitimo e bom. Consiste em sofrer mais do que seria preciso para praticar o bem e evitar o mal; o que, aplicado a Cristo, em que ele podia remir o mundo de modo menos cruento. É esse, no fundo, o escândalo dos Apóstolos, perante os sofrimentos do seu Mestre, e é o escândalo dos ímpios perante a dor dos inocentes e a penitência dos justos; - que sofram os pecadores, bem está; mas porque há de sofrer a inocência? porque se há de sofrer em vão?

     2. Necessidade da renúncia.  Temos de aceitar a humildade da nossa natureza, que precisa da flagelação do sofrimento para se purificar. Só é perfeito o que sofre. É certo que nem todo o que padece é puro; mas todo o que é bom teve de sofrer. Eis o escândalo: porque há de andar o bem crucificado?.
    É que o dom da integridade não foi restituído em toda a sua perfeição. Quer dizer: o domínio da alma sobre o corpo, ainda mesmo com o auxílio da graça, não é absoluto. De tal modo que, só com uma ajuda especialíssima, se poderiam evitar as pequenas venialidades. Facilmente se intrometem impurezas, na visão e no uso que temos das coisas. Por isso, para assegurar a pureza das intenções, temos que renunciar a muito do que é legítimo. É toda a tradição da santidade da Igreja, pois em todos os Santos, há sempre alguma coisa de excessivo e de loucura, no rigor com que se mortificam. A mortificação é a prova real da virtude autêntica; e os homens de Deus tem todo o empenho em se assegurarem dela.

2. REPARAÇÃO DO ESCÂNDALO

     1. A Vida Divina. Com o sofrimento, não se perde nada, pelo contrário. Ser cristão é receber uma vida divina em troca da humana, a vida eterna em troca da temporal. É essa a troca, realizada na cruz, que está no começo e à raiz da nossa vida. Quando fomos batizados, perguntou-nos o sacerdote, à porta da Igreja: << E a fé para que te serve? - Dá-me a vida eterna >>, respondemos nós. O cristianismo não pode, pois, deixar de ser uma vontade de eternidade. Pois se o cristão é o mercador que vendeu tudo para comprar a pedra preciosa, como não há de andar absorvido com a sorte ultra-terrena do seu jogo arriscado? E quem o poderá levar ao mal? que fazem os homens que sacrificam a vida pela honra? e pelo amor? e pela vaidade de agradar à galeria?
     2. A vida humana. Mas já nesta vida, e no plano meramente natural, e apesar da renúncia, o mercador da pérola começa a ganhar. Porque o Cristianismo e já uma penetração da eternidade no tempo; e a vida eterna de Deus, mesmo na sombra da fé, já concede ao homem o esboço dos dotes do corpo glorioso. A cruz, abraçada com decisão, resolve muitas das mais difíceis antinomias que preocupam os homens - é ver os Santos! Dá-lhes a alegria na dor, a liberdade na submissão, a segurança no abandono, a riqueza no despojamento, a grandeza na humildade, a autonomia no amor. Tudo isto são extremos, igualmente apetecíveis, que os homens procuram, inclinando-se , ora para um lado ora para o outro, e caindo em todos os excessos. Só a cruz de Cristo concilia as oposições, e harmoniza o irreconciliável.

CONCLUSÕES

     1.Cristo crucificado. Depois que Deus foi pregado numa cruz, e assumiu a dor humana, para transfigurar, já o escândalo do sofrimento da inocência se desvanece. Tudo ganha sentido, tudo se torna solidário. Os que tem culpas e impurezas, sofrem para as reparar e purificar; os que as não tenham, mesmo as crianças, sofrem para reparar as dos outros. Mas já não há sofrimento em vão. Porque toda a dor se pode unir à de Cristo Crucificado, e formar, com ela, a grande obra de solidariedade humana, que é a Redenção da Culpa.
     2. O Cristianismo é, assim, um novo sistema de valores. O cristão, que aceita a realidade da Culpa e da sua redenção pela cruz, aparece no mundo como um louco que construísse o universo à sua maneira. Não concorda com os outros homens, é um estranho que aprecia o que os outros desprezam, e despreza os que os outros apreciam. Troca os bens palpáveis pelos impalpáveis, este mundo pelo outro mundo. Mas só a luz da Fé, penetrada de Caridade, fará que a cruz se nos torne amável e o seu mistério conatural. A grande cegueira, a que nos esconde o mundo sobrenatural, vem das repugnâncias que em nós levanta o dever da renûncia.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Congregações, Celeiros, Chuva e Vocações‏

Alexandre Martins, cm.

“Celeiro de Vocações” é um dos apelidos das Congregações Marianas por vários papas e que demonstra a utilidade destas associações em fomentar e proporcionar à Igreja suas vocações sacerdotais.
Exemplos não faltam: desde proporcionar o aumento das fileiras da Companhia de Jesus até ser o embrião de novos conventos, como o clássico exemplo de Madre Teresa de Calcutá que, com companheiras de sua Congregação Mariana na sua Albânia natal, foram o primeiro grupo das Missionárias da Caridade.

A atualidade da formação para o vocacionado

 

Nos tempos atuais, as Congregações Marianas tornaram-se um importante instrumento de orientação vocacional. Por mais que o apostolado leigo tenha se desenvolvido e tomado formas, o estilo de formação espiritual do Congregado ainda é muito útil às novas gerações de vocacionados. “A atualidade dessa espiritualidade é importante para o mundo atual, e sua regra de vida conduz a pessoa na Escola da Santidade.” afirma1 D. Orani Tempesta, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ).
As atividades espirituais comuns das Congregações Marianas produzem na alma vocacionada o gosto crescente das coisas do alto. É a partir dessas “janelas para o Céu” que o vocacionado sente crescer seu amor pelo serviço do altar ou pelo convento em uma vida recolhida. Os que não são chamados à vida religiosa apenas sentem manter em seus corações a chama da piedade e o apelo à conversão, mas não o crescimento do amor de Deus até à paixão como a alma vocacionada. É uma boa oportunidade de discernir entre um apenas “bom Congregado” e uma futura vocação religiosa. Quantos enganos não seriam evitados se algumas Congregações Marianas tivessem mais atividades espirituais frequentes e profundas!

A Direção Espiritual do Congregado como fundamento do discernimento vocacional

 

A Direção Espiritual é uma prática comum a toda a Igreja. É algo dos primórdios do Cristianismo e uma pratica naturalmente oriental. Busca sempre conselho junto ao sábio” (Tob 4,19). No Oriente, é tradicional e comum a relação “mestre e discípulo” era fundamental em qualquer filosofia2 e absolutamente necessária em qualquer religião. Nas Congregações Marianas desde as primeiras regras3 insiste-se que o Congregado tenha um diretor espiritual. Os benefícios são imenso e, se para os jovens são utilíssimos, para os adultos também são necessários. Em toda a vida do Congregado a presença de um Diretor Espiritual4 deve permanecer.
Não se entende o discernimento vocacional em uma alma sem diretor espiritual. Embora nem todos os sacerdotes – confessores em sua essência – tenham vocação para uma correta e frutuosa direção espiritual, a uma alma vocacionada o diretor espiritual é imprescindível.“E que grande coisa é, filhas, um maestro sábio, temeroso, que prevê os perigos. É todo o bem que uma alma espiritual pode desejar, porque é grande segurança. Não poderia encarecer com palavras o que isto importa”.5 Podemos ate dizer, sem medo de errar, que um vocacionado sem um diretor espiritual não é um vocacionado de verdade. Afirma s. João Paulo II: “para poder descobrir a vontade concreta do Senhor sobre a nossa vida, são sempre indispensáveis (…) a referência a uma sábia e amorosa direção espiritual”.6
De fato, quantos procuram a vida religiosa como um escape do mundo, com uma forma de fugir dos naturais compromissos seculares como o trabalho assalariado, o progresso no estudo e uma família e filhos? Quantos querem “fazer carreira” na Igreja, como se ela fosse um empresa multinacional ou uma ONG? E isso é tão frequente em nossos dias que mereceu um pronunciamento especial do papa Francisco: ““E quando a Igreja quer se vangloriar da sua quantidade e cria organizações, escritórios e se torna um pouco burocrática, a Igreja perde a sua principal substância, e corre o perigo de se transformar numa organização não-governamental, numa ong. E a Igreja não é uma ong. É uma história de amor ... Os escritórios são necessários, mas até um certo ponto: o importante é como ajudo esta história de amor. Mas quando a organização fica em primeiro lugar, o amor desaparece e a Igreja, coitada, se torna uma ong. E este não é o caminho”.7
Acreditamos que, para o coração honesto e amoroso de Deus, a Direção Espiritual serviria para um correto discernimento vocacional.

Regras seguidas antes e depois do chamado vocacional

 

A disciplina e hierarquia tradicionais nas Congregações Marianas servem para educar a alma vocacionada a compreender sua vida religiosa futura.”nos congregados de Maria, esta como que ingênita "reverência e humilde submissão aos pastores sagrados" brota necessariamente das suas próprias regras”, afirma o papa Pio XII.8
Cada ordem ou comunidade religiosa possui sua própria regra. Todos os que ingressam em alguma delas tem conhecimento das regras ou estatutos e prometem segui-los amorosa e filialmente. A um Congregado mariano, que por bom tempo leu, aprendeu e seguiu a Regra das Congregações Marianas torna-se mais fácil seguir a regra da ordem religiosa à qual ingressa.
A hierarquia das Congregações Marianas não é seguida sob pena de pecado, mas pela consciência de que uma casa deve estar arrumada e que a organização leva à eficiência e ao sucesso. Obedecer à hierarquia é, para um bom Congregado, algo natural e espontâneo. Os votos de obediência, tanto na vida religiosa quanto sacerdotal, são naturais para o Congregado habituado à vida na hierarquia da Congregação Mariana.

Sem preocupação com o futuro das vocações

 

A priori, não é necessário que uma Congregação Mariana se preocupe com “jornadas vocacionais” ou atividades do gênero, tão em moda em algumas dioceses para o recrutamento de vocações sacerdotais se religiosas. Como dito acima, uma vida de Congregação Mariana levada a sério naturalmente conduz ao discernimento vocacional. Lembremos que, quando as Congregações Marianas eram chamada de “celeiros de vocações” não haviam os encontros vocacionais diocesanos e nem as comemorações do Mês das Vocações Sacerdotais e Religiosas.
Será que a Igreja criou essas atividades porque as Congregações Marianas deixaram de ser fornecedoras de vocações? É algo a se pensar.
Os sacerdotes que se preocupam com o declínio das vocações sacerdotais deveriam por sua vez fomentar a vida espiritual das Congregações Marianas e ver nelas um terreno fértil de vocacionados.
As Congregações Marianas sempre foram e sempre serão celeiros de vocações. Basta ser a regra cumprida e a piedade dos Congregados aumenta. As vocações irão surgir como capim no solo depois da chuva.
Santa Maria, rainha dos vocacionados, rogai por nós!



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1- Mensagem pelo Dia Nacional do Congregado Mariano 2013, disponível em http://www.cnbb.org.br/articulistas/dom-orani-joao-tempesta/9336-avante-congregados-marianos, visitado em 17/1/15

2- Uma relação mestre-discípulo que incluia não somente a transmissão de idéias, pensamentos e conceitos por meio da palavra, mais também que além do mais a presença exemplar do mestre, exercia uma grande influência sobre o discípulo. Considerados como mestres de vida, não só transmitiam conceitos teóricos, senão que sua instrução abarcava todos os aspectos da vida e do comportamento moral. E o discípulo? Ele era o aprendiz. Dele se esperava a vontade de aprender, assimilar e modelar-se conforme uma doutrina e estilo de vida. Esperava-se uma atitude de abertura de consciência, de confiança e de disponibilidade com relação ao seu maestro.O modelo do mestre é Jesus: “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima”. ( Jo 1,38-40) – Guadalupe Magana, disponível em es.catholic.net, visita em 17/1/15

3- Regras Comuns, 36; Bis Saecularii,4; Regra de Vida 12,a,4.

4- São Inácio de Loyola, influenciou decisivamente sobre a direção espiritual dado que ela representava a coluna vertebral durante os Exercícios Espirituais. É necessário para Exercício Espirituais: - discernir as disposições pessoais do exercitante; suas emoções internas; ajudá-lo em suas dificuldades; dispôr conforme a elas a matéria dos puntos para meditar; e ajudar a abrir sua alma a voz de Deus, máxima ao realizar a eleição o reforma de vida, respeitando sempre a liberdade do exercitante. Neste contato pessoal, tanto o exercitador como o exercitante devem mostrar-se dóceis às moções do Espírito Santo: afinal o exercitador se lhe concede um carisma especial pelo que desempenha eficazmente seu ofício para ajudar o exercitante; e a este se comunicam as luzes e graças adequadas à situação de sua lama através do exercitador: para fazê-lo caminhar pela via da fé, da humildade, da simplicidade do espírito. Finalmente, por tanto, coloquio na fé. – Guadalupe Magana, disponível em es.catholic.net, visita em 17/1/15

5- S. Teresa de Jesús, Obras Completas. Ed Aguilar, Madrid, Camino de Perfección. N. XXXVII, p. 369.

6- in, Christifideles Laici, n 58, p. 175.

7- papa Francisco em homilia na Missa com funcionários do Instituto de Obras da Religião, Casa Santa Marta, Vaticano, 24/4/2013 24


8- Bis Saecularii, 11.

sábado, 11 de novembro de 2017

Transmissão da 44° Assembleia Nacional da Congregações Marianas do Brasil

Como acontece todos os anos a Congregação Mariana Nossa Senhora Auxiliadora realizará a Transmissão Ao vivo da 44° Assembleia Nacional das Congregações Marianas do Brasil diretamente de Aparecida-SP. A transmissão pode ser acompanhada pelo nosso canal do Youtube e pelos links abaixo:


                                                                  Missa de Abertura


Primeira Parte




Segunda Parte




segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA PADROEIRA DO BRASIL



Rezemos pela nossa Pátria, à Virgem Aparecida, pelo destino da Nação, pelos seus futuros Governantes e pelo aumento da fé, esperança e caridade de todos os católicos brasileiros

Ó Maria Imaculada, Senhora da Conceição Aparecida, aqui tendes, prostrado diante de vossa milagrosa imagem, o Brasil, que vem de novo consagrar-se à vossa maternal proteção. Escolhemo-vos por especial Padroeira e Advogada da nossa Pátria; queremos que ela seja inteiramente vossa: vossa é a sua natureza sem par; vossas são as suas riquezas; vossos, são os campos e as montanhas, os vales e os rios; vossa é a sociedade; vossos são os lares e seus habitantes, com seus corações e tudo o que eles têm e possuem; vosso é, enfim, todo o Brasil. Sim, ó Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!

Por vossa intercessão temos recebido todos os bens das mãos de Deus, e todos os bens esperamos receber, ainda e sempre, por vossa intercessão. Abençoai, pois, o Brasil que Vos ama; abençoai o Brasil que Vos agradece; abençoai, defendei, salvai o vosso Brasil!

Protegei a Santa Igreja; preservai a nossa Fé, defendei o Santo Padre; assisti os nossos Bispos; santificai o nosso Clero; socorrei as nossas famílias; amparai o nosso povo; esclarecei o nosso governo; guiai a nossa gente no caminho do Céu e da felicidade! Ó Senhora da Conceição Aparecida, lembrai-Vos de que nós somos e queremos ser vossos vassalos e súditos fiéis. Mas lembrai-vos também de que nós somos e queremos ser vossos filhos. Mostrai, pois, ante o Céu e a Terra, que sois a padroeira poderosa do Brasil e a Mãe querida de todo o povo brasileiro!

Sim, ó Rainha do Brasil, ó Mãe de todos os brasileiros, venha sempre mais a nós o vosso reino de amor e, por vossa mediação, venha a nossa Pátria o reino de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso. Amém.

Ó Senhora Aparecida, Mãe querida, tenho tanta confiança em Vós, que espero a vossa proteção e vosso amparo em todos os passos de minha vida e na hora da morte. Amém.


domingo, 21 de maio de 2017

A República Mariana

Alexandre Martins, cm.

A Sociedade humana se organiza em grupos. De acordo com a história da humanidade, esses grupos se organizam de formas características.
As irmandades católicas, e também as confrarias, se organizam de uma forma familiar, como o próprio nome diz. Ou seja, são irmãos que se consideram parte de uma mesma família. Daí o nome “irmandade” (reunião de irmãos) e “confraria” (do latim, “frater”, irmão, também é reunião de irmãos) serem nomeados esses agrupamentos.

O usado na Idade Média

Como as irmandades e confrarias foram concebidas na Idade Média, como a primeira confraria mariana que se tem notícia, a fundada pelo início do século XI, em Ravena, Itália, pelo Beato Pedro de Honestis (1049-1119), a sua organização era concebida como as guildas medievais.
Uma irmandade tem um chefe denominado Provedor que, como significa o nome, é o que provê as necessidades do grupo, como um pai na sua família, imitando outra instituição quase medieval: os mosteiros e seus abades.
Nas irmandades e confrarias a mesa diretora é composta em geral pelos mais antigos que se revezam de acordo com o tamanho e necessidade da confraria. Símbolos são usados amplamente para distinguir o grau e a importância do Provedor e os membros da mesa de direção, mesmo para os que não são membros da irmandade.

A Idade Moderna

Como advento das Congregações Marianas surge uma organização diferente.
As Congregações Marianas embora taxadas de “medievais” até por alguns jesuítas modernos, curiosamente surgiu na própria Idade Moderna, século XVI. A Idade Média havia terminado há várias décadas atrás. Mesmo o famoso Concílio de Trento, renovador de per si na história da Igreja, havia sido realizado poucos anos antes da fundação da primeira Congregação Mariana.
Como uma instituição moderna, portanto, as Congregações Marianas adotaram uma organização também moderna.
O governo das Congregações Marianas é entregue aos leigos, com a supervisão de um sacerdote. As irmandades e confrarias também o eram, mas com as Congregações Marianas a forma era algo de “republicano” em comparação com as irmandades que eram, por sua vez, mais “monarquistas” e “feudais”.

Leigos como diretores

Um exemplo claro do citado acima é o título que o dirigente leigo possui nas Congregações Marianas: o de Prefeito, ou Presidente, títulos empregados na Europa e Brasil, respectivamente. Esse título exemplifica bem o caráter comunitário da gestão administrativa das Congregações Marianas. O diretor é alguém eleito por seus pares e pode ser tanto um antigo Congregado quanto um mais novo. Além disso, os demais diretores também são escolhidos do mesmo jeito. Se compreende então que é a comunidade de Congregados que são representados em um pequeno grupo que organizará a vida da Congregação Mariana por um determinado período e que por sua vez será substituída por outros em nova eleição interna.
O sacerdote possui neste cenário uma posição e atuação bem particular. Embora as Regras Comuns de 1910 tenham dado poderes maiores aos sacerdotes, que possuíam o título de Diretor Espiritual, na realidade essa autoridade era exercida mais num sentido de amorosa orientação do que rígida disciplina.
Mesmo o famoso pe. Coster, jesuíta que tanto utilizou das Congregações Marianas para o trabalho de evangelização e apostolado nas cidades europeias do século XVII, dava apenas as orientações gerais par suas associações e para seus Congregados, deixando-os livres para a ação.
Infelizmente, no início do século XX, no Brasil, as Congregações Marianas eram tratadas de forma mais rígida pelos sacerdotes, colocando os dirigentes numa situação de praticamente dependência deles, sem muita iniciativa particular. Com a mudança das Regras em 1967, e o consequente retorno à posição mais colaborativa do sacerdote, os dirigentes ficariam como que desamparados na orientação de seus trabalhos administrativos e a consequência foi uma grande queda no ímpeto apostólico das Congregações Marianas no Brasil.
Mas as novas Regras que dirigem as Congregações Marianas no Brasil, se por um lado não modificaram a posição colaborativa do sacerdote na organização da associação, por outro lado não impedem que se possa retornar à tradição das clássicas Congregações Marianas.

A Regra brasileira de 1994

A Regra de Vida de 1994 nada se refere a não poder ser aceito na Diretoria alguém ainda no Aspirantado, quando não há número de Congregados marianos para isso, como se verifica nas Congregações Marianas que são recentemente fundadas. O antigo costume de haver a Consagração Perpétua aos primeiros fundadores de uma Congregação Mariana caiu em desuso na década de 1970 no Brasil.
A primeira diretoria é escolhida praticamente em um consenso pois em geral o número inicial é pequeno. A Regra de 1994 até mesmo a chama de “diretoria provisória” Daí a possibilidade de haver aspirantes entre os diretores.
A diretoria clássica era composta por um número considerável de pessoas. Sua divisão era de “oficiais maiores” e “oficiais menores”. O temo “oficial” dá-se porque a pessoa possui um “ofício” um função, e não, como se pode pensar de primeiro, alguma honraria ou prêmio.
Na tradição das Congregações Marianas, os oficiais maiores são o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário e o Tesoureiro. O assistente eclesiástico é uma função que, embora compunha o elenco dos oficiais maiores, não é algo especial, pois não é eleito, mas nomeado. Em paróquias, é uma função naturalmente exercida pelo pároco.
Os oficiais menores são os demais cargos que venham a existir, como o de Porta-bandeira.
A escolha da Diretoria, em especial os oficiais maiores se dá por eleição simples entre os Congregados marianos. É um costume abster o Aspirantado de votar.
A duração do mandato se dá por um ou dois anos, E sempre foi feita uma cerimônia especial de posse de diretoria, com um pequeno juramento proferido pelos diretores perante o altar e o padre assistente, aonde se sublinha o caráter serviçal da função de diretor.

O protagonismo moderno das Congregações Marianas

As Congregações Marianas, fundadas na Idade Moderna, sempre estiveram à frene do seu tempo. Seu protagonismo se deu também através de uma gestão participativa de escolha livre entre os membros. Algo comparável a uma pequena república, ou mesmo uma pequena cidade onde seus habitantes escolhem seu prefeito.
Os diretores são os eleitos para organizar e guiar essa pequena república, uma república que não segue as leis humanas mas as leis do Evangelho. Uma república que tem como pátria a pátria celeste. Uma república que usa as cores da Mãe de Deus. Uma república da Virgem Maria.

segunda-feira, 13 de março de 2017

São José

Alisson Oliveira. cm

São Mateus o chama e define também: —O Justo. Joseph cum esset justas... José como era justo...
Não simplesmente a virtude cardeal da justiça porém muito mais amplo a virtude em grau sublime e
heroico jamais visto ou alcançado (depois de Maria Ssma) de se conformar a Lei de Deus.
“José é chamado de Justo porque tem a perfeição de todas as virtudes”
São Jerônimo, Homilia 3, in Luccam.
O MAIOR DOS SANTOS
Depois de Maria, José. É sem dúvida o maior dos santos, pois recebeu de Deus maiores graças e
desempenhou a maior e mais sublime missão na terra. Pai adotivo do Filho de Deus humanado e esposo
da Mãe de Deus. Poderia alguém na terra, depois de Maria excedê-lo na gloria da santidade? Quem
teve maior e mais sublime missão a cumprir na terra?
Sem dúvida, dos sete dons do Espirito Santo, os que São José mais deve ser exercitado, em razão
de sua função, foram o dom do conselho e o da fortaleza, para dirigir, governar e defender a Sagrada
Família entre tantas privações e adversidades, sem perder de vista um só momento o supremo sacrifício
da Cruz.

S. José excede a dignidade dos Apóstolos. Estes foram ministros e dispensadores dos mistérios de
Deus, vasos de eleição, colunas da fé, mensageiros da palavra divina. S. José foi maior que Moises em
santidade, a São João Batista, S. Pedro e S. Paulo, bem como também aos maiores mártires e doutores
da Igreja. Nenhum santo teve como Ele privilégios tão singulares e viveu mais unido a Deus e mais
abrasado na Divina Caridade. Pelas relações com Jesus e Maria Santíssima é o maior dos santos, e
precede a todos os eleitos no culto que lhe prestamos.
Pai adotivo de Jesus
A maior glória de São José, a mais rica pérola do seu coroa, o título e privilégio que o faz o maior
dos Santos é o de Pai do Filho de Deus humanado. Todos os Santos, se gloriam de serem chamados
servos de Deus, servos de Jesus Cristo. São José, e só ele, foi chamado Pai do Salvador, Pai de Jesus
Cristo. Entre os títulos de glória do Santo, este é sem dúvida o maior.
Os nazarenos, diz o Evangelista, tinha José por pai de Jesus. Assim dizia e julgava o povo
ignorante do adorável mistério da Encarnação do Verbo. Os Evangelistas, que narraram e conheceram
o mistério da Encarnação e a Divindade de Jesus, chamavam a José pai de Jesus. E Jesus mil vezes o
havia de chamar Pai, e a ele esteve sujeito e obediente trinta anos desde Belém.
São José, pois, é e deve ser chamado Pai de Jesus, Pai virginal, não Pai carnal, Pai putativo,
genealógico, jurídico ou legal, adotivo, eletivo, nutrício, virginal, afetivo e de ofício de Jesus Cristo e
segundo a geração humana, porque Maria Imaculada concebeu, e foi Mãe de Jesus por obra e graça do
Espírito Santo. Eis a sua glória: Pai de Jesus.
Qual graça extraordinária para o São José de ver, dar ordens e prover tudo daquilo que Nosso
Senhor necessitava... Ah que graça extraordinária, S. José de que como por um véu, não brilhar como
o Sol do meio dia na Terra, a exemplo de Moisés (Ex 34, 29-35) ao descer do monte com as tábuas da
Lei nas mãos, brilhava a sua face que os hebreus nem conseguiam olhar para ele.
O esposo virginal de Maria Santíssima
“ José, filho de Davi, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa” Mt 1,20.
“José... fez como lhe tinha mandado o anjo do Senhor, e recebeu em sua casa Maria, sua
esposa” Mt 1,24.
Foi José verdadeiro e legítimo esposo de Maria, de um matrimônio, perfeitamente virginal,
maravilhosamente fiel, milagrosa e infinitamente fecundo.
E formou São José semelhante a Maria. José foi formado à semelhança da Virgem, sua esposa. O
céu, escolheu a São José como o único digno de um tal tesouro: —Maria.
Para ser esposo da Mãe de Deus, que pureza e que santidade não havia de ter São José! E se Deus
o escolheu entre os homens o mais semelhante à mais perfeita das criaturas, sua santíssima Esposa.
Para lembrar os dois títulos de maior glória que o tornam o maior e o mais singular dos Santos — Pai
adotivo de Jesus Cristo e Esposo de Maria Imaculada.
E aqui fica a resposta à pergunta: Quem é São José? Virum Mariae de quanatus est Jesus. — É o esposo
de Maria, diz o Evangelista, da qual nasceu Jesus.
São José, príncipe da casa real de Davi
São José era da nobre estirpe, como nos relata os Evangelhos de S. Mateus 1, 1-17 e S. Lucas 3, 23-28. “Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias. Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa. Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão... Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. S. Mateus 1, 1-17


“ não era apropriado que o Rei dos reis convivesse, na sua intimidade, com quem não fosse nobre nem de espirito e de sangue. Não convinha que Aquele a Quem servem milhões de anjos escolhesse como pai adotivo alguém que não fosse de nobre linhagem, nem que a Virgem, escolhida como Mãe de Deus, á qual prestam homenagem todos os habitantes da Jerusalém terrestre, fosse casada com homem de origem plebeia”. Suma dos dons de São José.
Segundo São Mateus mostra as gerações de Davi até Cristo, mudando assim em S. José para indica-lo como pai adotivo e não carnal de Nosso Senhor.
Assim as promessas a dinastia de Davi, na qual S. José tem a glória de pertencer, a um título muito especial: foi o último e não menor e transmitiu a Nosso Senhor a herança davídica.
Prefiguração no Antigo Testamento
Uma das figuras mui própria, em que os Santos Padres reconhecem haver sido misteriosamente representado São José, foi o antigo Patriarca José, Vice-rei do Egito, porque nele se cumpriram todas as grandezas. Sonhara ele que o Sol, a Lua e as Estrelas o adoravam e foi nisto um retrato figurativo da obediência que Jesus e Maria, verdadeiro Sol e verdadeira Lua, havia de ter a São José, e o respeito que os mais santos, simbolizados nas estrelas, lhe tributam. Chamou-se também a José o salvador do mundo, porque proveu de mantimento e livrou da fome não só o Egito, mas toda a terra em torno; e tudo isto foi anuncio de que o glorioso São José na lei da graça havia de ser a quem todo o gênero humano devesse a salvação, pois salvou o Redentor, livrando-o da tirania de Herodes, que o queria matar, quando menino, e ele foi também o que guardou o pão da vida de Jesus Cristo, que é o sustento do universo.
“Ide a José” Gn 41,55.
A virgindade de São José
A virgindade perpétua é outra coroa de glória do santo Patriarca. A Escritura nada fala da virgindade de S. José, mas a Tradição nos guarda e garante esta opinião com segurança. A Tradição teológica, escreve o Pe. Cantera, reprova todos os erros contra esta doutrina e afirma unanemente a Virgindade de S. José, é uma verdade teologicamente, da qual não é lícito a nenhum cristão duvidar. É célebre a resposta de S. Jerônimo ao herege Helvídio: Dizes, que Maria não ficou Virgem. Pois não só defendo e afirmo a Virgindade de Maria, como digo ainda mais: por Maria foi Virgem também S. José(2). (1) Cantera - San José en el Plano Divino (2) Adv. Helv. n° 19.
Dia de São José
Por isso, hoje é dia de festa para a Fé. O culto a São José começou no Oriente, passando mais tarde para o Ocidente, onde hoje alcança grande popularidade.
Pio IX estendeu a festa do Patrocínio de São José a toda a Igreja com o decreto "inclytus Patriarcha Joseph", de 10 de setembro de 1847. Declarou solenemente o Bem-aventurado José “Patrono da Igreja Católica”, e ordenamos que a sua festa de 19 de março, dupla de primeira classe, todavia sem oitava por causa da Quaresma, fosse celebrada no mundo inteiro
São José e Santa Teresa de Ávila
“Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claro que, tanto desta necessidade como de outras maiores, de perder a honra e perder a alma, este pai e senhor meu me livrou melhor do que eu lhe saberia pedir. Não me recordo, até agora, de lhe haver suplicado nada que não tenha deixado de fazer.
É coisa que espanta (que maravilha) as grandes mercês que me tem feito Deus por meio deste bem-aventurado santo, dos perigos que me tem livrado, tanto de corpo quanto de alma. A outros santos parece
que o Senhor lhes deu graça para socorrer em uma necessidade; a este glorioso santo tenho experiência que socorre em todas e que quer o Senhor dar-nos a entender que assim como esteve submetido a ele na terra, que como tinha nome de pai - sendo custódio - podia mandar Nele, também no céu faz quanto lhe pedem. E isto o tem comprovado algumas pessoas, a quem eu dizia que se encomendassem a ele, também por experiência; e ainda há muitas que começaram a ter-lhe devoção havendo experimentando esta verdade.
Queria eu persuadir a todos para que fossem devotos deste glorioso santo, pela grande experiência que tenho dos bens que ele alcança de Deus. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota e faça particulares serviços, que não a vejamos mais adiantada nas virtudes porque muito aproveitam as almas que a ele se encomendam. Parece-me, já há alguns anos, que a cada ano, em seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo cumprida. Se o pedido segue meio torcido, ele o endereça para o meu bem.
Se fosse uma pessoa que tivesse autoridade no escrever, de bom grado me estenderia em dizer muito a miúdo as mercês que este glorioso santo tem feito a mim e a outras pessoas. Só peço, pelo amor de Deus, que o prove quem não me crê e verá por experiência o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção.
Pessoas de oração, em especial, sempre deveriam ser a ele afeiçoadas. Não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos, no tempo que passou com o Menino Jesus, e não se dar graças a São José pelo bem com o qual lhes ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome este glorioso santo por mestre e não errará no caminho”.3
Invoquemos o nosso Anjo da Guarda para que nos ajude a honrar ao nosso grande Santo Protetor, que é também Príncipe dos Anjos e Arcanjos. São José fora constituído também, no Reino de Deus, o grande Príncipe, e lhe foram dadas as maiores e mais extraordinárias prerrogativas que o fizeram o Príncipe sem igual, acima de todos os súditos do Rei dos reis depois de Maria Santíssima, Rainha dos céus e da terra. E nesta singular e privilegiada missão, quem pode contentar a supremacia de José sobre todos os Anjos e coros angélicos?
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Referências bibliográficas
Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida 6,6-8
São José, Mons. Ascânio Brandão
Bíblia Pe João de Matos
São José. O esposo de Maria, da qual nasceu jesus. Ed Petrus 1ª edição-2010