Mostrando postagens com marcador Exercicios Espirituais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Exercicios Espirituais. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Meditação para o 1° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O presente domingo tem intima ligação com o anterior. O escândalo da cruz também se aparenta com a tribulação das tentações. Porque não viveremos em paz? Porquê este sentimento de instabilidade angustiosa debaixo dos nossos passos? Porque não serão seguros os caminhos?
     Da mesma forma que temos de sofrer, também temos de ser tentados; porque os sofrimentos e tentações são provas e garantias da nossa verdade interior. Somos sinceros para com Deus? Somos sinceros para conosco mesmos? No perigo se verá. Trata-se pois, duma simples prova, exame que pode e há de servir ao nosso triunfo na glória: " porque eras aceite a Deus, foi necessário que a tentação te provasse." ( Tob 12,18)
     É que, perante a facilidade com que nos iludimos e nos debilitamos, as tentações: ensinam-nos e fortalecem-nos.

1. ENSINAM

     1. Porque a paz ilude-nos sobre o que somos. Quando, na prosperidade tudo corre à medida dos nossos desejos, é tão difícil julgarmo-nos fortes, e atribuir-nos o bom êxito da nossa vida!... Daí que confiemos em nós mesmos, e que entremos a viver com a sensação habitual de segurança e estabilidade que supõem, por outro lado, esquecimento de Deus e da necessidade absoluta que temos d'Ele.
     
Vem a tentação a sacudir-nos a tranquilidade; declara-se uma crise em que tremem os arrimos que escoravam a nossa pretendida suficiência. E eis-nos desamparados, vogando ao acaso, com a revelação patente de todas as infâmias de que somos capazes, com as vertigens de todos os abismos. Aí está o que somos.
     2.A provação esclarece. É neste momento que a tentação nos ensina a orar e a apreciar a graça. Sentindo a nossa debilidade e atração do mal, espontaneamente olharemos para o céu e para Deus, como a criança que a mãe afastou um pouco, para a obrigar a caminhar para si. Saímos da terra firme e da segurança; fomos ao mar, colheu-nos a tempestade. E ao sentir-nos na solidão e na instabilidade das ondas, aprendemos a orar. E fizemos, a grande descoberta de que é pela graça que somos alguma coisa. O resto, ou é temperamento bem inclinado, ou clima moral de circunstâncias favoráveis.

2. FORTALECEM

     1. Porque a paz enfraquece-mos. O costume envilece. A prosperidade sempre bem sucedida, leva, insensivelmente, à rotina, à virtude sem convicção, à indolência moral. E como se insinuam, sutilmente, as impurezas do amor próprio nessa dormência da vontade que depôs as armas!... Como amortece aquela vigilância matutina, e aquele entusiasmo juvenil do querer, que fazem a autenticidade da virtude!...
     Mas lá vem a tentação, colocando o oiro no cadinho, e fazendo cair as escórias de todas as pequenas e grandes sensualidades! O mar agita-se, e as impurezas que por lá andavam, são lançadas à praia, e joeiradas no vai e vem das ondas. Quantas fibras do coração se doem, quando a vida nos sacode, quantos apegos secretos, vindos a lume, revelados nas crises que nos agitam, e obrigam as pequeninas feras a sair do esconderijo!...
     2. A provação enrijece. E então, somos obrigados a combater. Precisamos de fazer apelo a todos os recursos da alma e da graça. Temos de nos levantar a indolência a que nos habituáramos, de entrar na vida dura, que enrijece a vontade. A tempestade, ao passar, fez que a árvore se apegasse mais ao chão, deitando as raízes mais fundo. Formam-se, assim, hábitos de virtude, que são muito diferentes do descanso e da rotina. O hábito não é repouso, é força. Como, antigamente, as cartas de nobreza eram concedidas depois de grandes feitos militares, assim, nas tentações é que se alcançam os hábitos de virtude, que são a aristocracia da vontade, como lhes chamou profundamente um autor católico. As convicções tornam-se muito mais íntimas, porque se arraigam na vida difícil, porque as temos de defender e manter à custa de sangue.

CONCLUSÕES

     1. A tentação é a mortificação que Deus nos manda. Considerávamos, no domingo passado, que tinhamos de tirar prova, pela cruz, da nossa sinceridade moral. E que essa prova era a mortificação, garantia da pureza com que usamos das criaturas e servimos a Deus. Mas o Senhor, por seu lado, manda-nos também outras provas, consentindo que sejamos tentados para mostrarmos o que somos. A tentação é pois, a mortificação que Deus nos manda, como a mortificação é a tentação com que nós examinamos a nós mesmos.
     2. A tentação não são as ocasiões que nós buscamos. O que é preciso é que sejam provas que Deus nos manda, e não ocasiões de pecado, em que nos arriscamos. Porque, essas, já revelam apego à culpa, e supõem, por isso mesmo, que não estamos dispostos a usar das graças que Deus nos concede. Quem vai, indiscriminadamente, a teatros, cinemas e bailes, quem olha para tudo o que é prestígio do mal - como há de manter-se na tentação, se já vai vencido? Como há de resistir à vertigem o que a procura? 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Meditação Para do Domingo da Quinquagésima

Pe João Mendes SJ

     O Evangelho de hoje compreende duas partes que se relacionam, pelo menos simbolicamente: o anúncio da Paixão e a cura do cego. Os Apóstolos não compreenderam; escandalizaram-se com a cruz, foram os primeiros a manifestar aquela cegueira, que é afinal de todos nós, diante da necessidade de sofrer.
     Para ser cristão, é preciso abraçar a dor, ter a coragem de a aceitar no centro mesmo da vida. É esse o caminho para a felicidade autêntica; mas é esse anseio de felicidade que, em nós, se recusa a consentir. Daí, a grande dificuldade, e o círculo fechado em que o homem se debate: a cruz atrai e repele. Atrai, enquanto é custoso aceitar o sofrimento, como o caminho da alegria.
    Peçamos pois, a Cristo que nos ensine a sair desta contradição, abrindo os olhos de nossa cegueira, com um milagre tão grande como o que curou o cego.

1. EM QUE CONSISTE O ESCÂNDALO DA CRUZ

      1.As demasias da renúncia. A cruz, e as repugnâncias que ela levanta em nós, não são. somente, a mortificação do que é imperfeito e pecaminoso. O que já não era pouco, e que seria exigência de uma perfeição laica, teoricamente possível, num pagão. É também, a morte de muito do que é legitimo e bom. Consiste em sofrer mais do que seria preciso para praticar o bem e evitar o mal; o que, aplicado a Cristo, em que ele podia remir o mundo de modo menos cruento. É esse, no fundo, o escândalo dos Apóstolos, perante os sofrimentos do seu Mestre, e é o escândalo dos ímpios perante a dor dos inocentes e a penitência dos justos; - que sofram os pecadores, bem está; mas porque há de sofrer a inocência? porque se há de sofrer em vão?

     2. Necessidade da renúncia.  Temos de aceitar a humildade da nossa natureza, que precisa da flagelação do sofrimento para se purificar. Só é perfeito o que sofre. É certo que nem todo o que padece é puro; mas todo o que é bom teve de sofrer. Eis o escândalo: porque há de andar o bem crucificado?.
    É que o dom da integridade não foi restituído em toda a sua perfeição. Quer dizer: o domínio da alma sobre o corpo, ainda mesmo com o auxílio da graça, não é absoluto. De tal modo que, só com uma ajuda especialíssima, se poderiam evitar as pequenas venialidades. Facilmente se intrometem impurezas, na visão e no uso que temos das coisas. Por isso, para assegurar a pureza das intenções, temos que renunciar a muito do que é legítimo. É toda a tradição da santidade da Igreja, pois em todos os Santos, há sempre alguma coisa de excessivo e de loucura, no rigor com que se mortificam. A mortificação é a prova real da virtude autêntica; e os homens de Deus tem todo o empenho em se assegurarem dela.

2. REPARAÇÃO DO ESCÂNDALO

     1. A Vida Divina. Com o sofrimento, não se perde nada, pelo contrário. Ser cristão é receber uma vida divina em troca da humana, a vida eterna em troca da temporal. É essa a troca, realizada na cruz, que está no começo e à raiz da nossa vida. Quando fomos batizados, perguntou-nos o sacerdote, à porta da Igreja: << E a fé para que te serve? - Dá-me a vida eterna >>, respondemos nós. O cristianismo não pode, pois, deixar de ser uma vontade de eternidade. Pois se o cristão é o mercador que vendeu tudo para comprar a pedra preciosa, como não há de andar absorvido com a sorte ultra-terrena do seu jogo arriscado? E quem o poderá levar ao mal? que fazem os homens que sacrificam a vida pela honra? e pelo amor? e pela vaidade de agradar à galeria?
     2. A vida humana. Mas já nesta vida, e no plano meramente natural, e apesar da renúncia, o mercador da pérola começa a ganhar. Porque o Cristianismo e já uma penetração da eternidade no tempo; e a vida eterna de Deus, mesmo na sombra da fé, já concede ao homem o esboço dos dotes do corpo glorioso. A cruz, abraçada com decisão, resolve muitas das mais difíceis antinomias que preocupam os homens - é ver os Santos! Dá-lhes a alegria na dor, a liberdade na submissão, a segurança no abandono, a riqueza no despojamento, a grandeza na humildade, a autonomia no amor. Tudo isto são extremos, igualmente apetecíveis, que os homens procuram, inclinando-se , ora para um lado ora para o outro, e caindo em todos os excessos. Só a cruz de Cristo concilia as oposições, e harmoniza o irreconciliável.

CONCLUSÕES

     1.Cristo crucificado. Depois que Deus foi pregado numa cruz, e assumiu a dor humana, para transfigurar, já o escândalo do sofrimento da inocência se desvanece. Tudo ganha sentido, tudo se torna solidário. Os que tem culpas e impurezas, sofrem para as reparar e purificar; os que as não tenham, mesmo as crianças, sofrem para reparar as dos outros. Mas já não há sofrimento em vão. Porque toda a dor se pode unir à de Cristo Crucificado, e formar, com ela, a grande obra de solidariedade humana, que é a Redenção da Culpa.
     2. O Cristianismo é, assim, um novo sistema de valores. O cristão, que aceita a realidade da Culpa e da sua redenção pela cruz, aparece no mundo como um louco que construísse o universo à sua maneira. Não concorda com os outros homens, é um estranho que aprecia o que os outros desprezam, e despreza os que os outros apreciam. Troca os bens palpáveis pelos impalpáveis, este mundo pelo outro mundo. Mas só a luz da Fé, penetrada de Caridade, fará que a cruz se nos torne amável e o seu mistério conatural. A grande cegueira, a que nos esconde o mundo sobrenatural, vem das repugnâncias que em nós levanta o dever da renûncia.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Meditação para o Domingo da Sexagésima

Pe João Mendes SJ

     A Palavra de Deus é semente. Como preparação para a pregação da palavra divina, durante o tempo da quaresma, a Igreja lembra-nos esta parábola, que é das mais belas que Jesus pronunciou.
     S. Paulo dirá mais tarde: " Vós sois agricultura de Deus " ( I Cor 3,9) ; porque, de fato, é do céu que vem a semente, e nós somos cultivados por Deus, como a terra é pelo lavrador. Mas o Senhor que a nossa colaboração, quer que o campo reaja com a influência do alto, e faça crescer a "semente de Deus".

1. A PALAVRA DE DEUS É SEMENTE

     1. Semente é um germe de vida. que se lança à terra para produzir frutos semelhantes a essa mesma semente. Assim, do grão de trigo que se lança no sulco das lavras, germinará uma espiga, com grãos de trigo iguais ao primeiro.
     Deus lançou à terra a sua semente que foi o Verbo Encarnado, princípio de vida e Verdade divina para o homem. Ele é o grande princípio, a grande revelação, que transformará as inteligências e dará alentos novos à vontade; e que, na intenção divina, deverá fazer germinar, entre os filhos de Adão, a multidão inumerável dos filhos de Deus, semelhantes a Cristo, seu unigênito por natureza.
     2. A semente de Deus mostrou-se fecundíssima.  Porque transformou as inteligências dos homens do mundo antigo pagão; a visão nova do universo, que o Messias ensinou, no Sermão da Montanha, mudou o apreço das coisas, trocando os princípios de valor. É ver, logo nos primeiros tempos da Igreja; que diferença entre o critério de um sábio grego ou romano, e o dum asceta cristão! E não só transformou as inteligências dos homens e a sua visão do mundo, mas fecundou-lhes as vontades, levando-as  a abraçar as consequências dessa nova luz, dando-lhes força e coragem, com os exemplos e os auxílios do Verbo Encarnado, Mártires, Virgens, Anacoretas, Confessores, Religiosos - semelhantes a Cristo, seara divina nascida da palavra de Deus...- toda a vida de perfeição da Igreja é o fruto desta semente fecundíssima, é a família divina gerada por esta semente de Deus, tudo imagens parciais do Verbo Encarnado, formando um Cristo Total.

2. QUE SUPÕE O TERRENO PREPARADO

     1. Atenção intelectual.  A semente, por si só, não germina, precisa do húmus do terreno onde cai. A agricultura de Deus é como a agricultura dos homens. Por isso, a Semente caída a beira da estrada, ou entre os espinhos, é a Palavra de Deus que não chega a ser ouvida, porque a alma é aberta e dissipada como terreno onde passa toda a gente, ou distraída pelas preocupações deste mundo que sufocam os rebentos do fervor. É preciso atender, pensar, alguma vez, em ouvir a Palavra de Deus, a única que é indispensável ouvir. Sabem-se e estudam-se tantas ninharias... Quando se resolverá o nosso espírito a fugir ao mundo da bagatela?

     2. Colaboração da vontade. intimamente ligada ao que precede, pois, quando a inteligência se aplicar, é porque já a vontade se moveu. Mas a colaboração do nosso querer é, sobretudo, em profundidade: é aquele humor que alimenta as raízes, e que não se encontra nas pedras; é aquela ternura escondida onde pegam bem as insinuações de Deus. Corações duros, impenetráveis ao passo invisível do Amor incriado, nesses, não há semente divina que vingue. A revelação do verbo pega, em nós, nas pequenas e múltiplas radículas afetivas de aceitação e oferta, que prendam, ao nosso coração, o convite do Bem. E nisto que consiste o ser " ex Deo" , da linhagem de Deus.

CONCLUSÕES

     1. Boa vontade. Tenhamos, pois, docilidade, que consiste no desejo de ser ensinado, e na preparação espiritual para o ser - e é esta a docilidade intelectual; e em ter um coração inclinado à luz, de sulcos abertos e revolvidos pela dor, dispostos a aceitar a recolher a palavra verdadeira - e é esta a docilidade da vontade. Que o Senhor nos transforme as entranhas, dando-nos um coração de carne, em vez do coração de pedra da nossa insensibilidade.
     2. Reflexão. O mundo vive na inconsciência e na irreflexão. A demanda da vida divina é, portanto, um ato de atenção que vence o prestígio da bagatela, e se dispõe a ouvir a palavra de Deus. Ser Cristão é interiorizar-se, fugir das aparências materiais, demandando o Deus desconhecido, que atua no silêncio, como as sementes, e na tranquilidade como o fermento.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Meditação para o Domingo da Septuagésima

Pe João Mendes SJ

     Parábola dos operários da Vinha. Oferece-nos um sentido histórico, aplicável aos Judeus, e outro universal, relativo aos homens de todos os tempos. O significado da Alegoria, no seu aspecto aparentemente desconcertante, fala-nos duma justiça divina que não se ajusta aos moldes humanos, já que os supera infinitamente.
     Em rigor, ninguém tem direitos diante de Deus; e o Senhor é soberanamente livre na sua ação. De modo particular; a justiça de Deus está acima da justiça dos homens, e temos de aceitar-lhe o mistério.

1- O QUE FAZ O MÉRITO NÃO É O MUITO TEMPO OU ESTADO DE PERFEIÇÃO

     1. Aplicação aos Judeus. O povo escolhido foi chamado, logo na primeira hora, para trabalhar na vinha de Deus. Com ele estabeleceu Jeová a sua aliança, para ele era, antes de todos, o Messias. Só muito mais tarde, foram chamados os gentios, e com os mesmos privilégios dos eleitos da primeira hora. Daí, o escândalo judaico do espírito de casta, que se supunha com direitos diante de Deus, e que pensava em injustiça quando se via igualado com gentes impuras.

     Cristo mostra-lhes, agora, que o Senhor é livre na disposição de seus dons, que não se prende em contatos pequenos, e que sua justiça é mais ampla que os cálculos acanhados dos homens. Diante de Deus, " não há Judeu nem gentio"' - dirá depois S. Paulo ( Col 3,11)
     2. Aplicação a todos os homens. O que faz o mérito não é muito o tempo, nem certa fidelidade, longo tempo mantida. Na velhice ou no último momento, qualquer pecador, como o Bom Ladrão, ou aquele condenado por quem orou Santa Teresinha, pode ouvir o convite de acesso a eternidade. Esta é, substancialmente, a mesma para todos; é uma só a mesa do banquete, porque a glória é a visão da mesma Infinita Perfeição.
     E quanto à capacidade subjetiva de o gozar, quem sabe as surpresas que nos esperam? O poeta Rimboud levou uma bem triste vida de pecado; mas o sacerdote que o confessou, à hora da morte, declarou ter encontrado, poucas vezes, fé tão pura. Não admira, pois, que o Pai do Pródigo faça grande festa, quando chega o filho pecador! O mais velho, o da longa fidelidade, é que não devia estranhá-lo. Quem sabe em qual dos corações havia mais amor?

2. ...E QUEM RETRIBUI É UMA JUSTIÇA QUE SE CONFUNDE COM O AMOR 

     1. A justiça dos homens é cega, para ser igual para todos, porque só premia segundo as aparências. Nunca poderá julgar o íntimo dos corações que lhe são inacessíveis. Para ser perfeita é cega - e nisso está a sua pobreza; tem medo do amor e das suas parcialidades, e por isso, aplica, rigidamente, os princípios da igualdade para todos. Por isso, as leis dos homens são inflexíveis, e escravas da letra, como escravas são também as aparências. E que será, quando não é a justiça, mas a má vontade, o despeito ou o ciúme, quem julga das ações alheias?  Cristo recomendou-nos tanto que não julgássemos... e que seríamos medidos pela medida que usássemos com os outros... É que é muito difícil julgar, com acerto, um coração.
     2. Mas a Justiça de Deus confunde-se com o puro amor. É, portanto uma justiça muito mais misteriosa, desconcertante e clarividente, nas suas decisões. Não admira que a ação da Providência seja tão inacessível, e que brinque com as aparências e os alvedrios. Assim como as mães sabem ver, como ninguém, os méritos dos filhos, assim Deus vê muito melhor do que nós, e com uma clarividência perfeita, todos os desejos de bem que há, ocultos, no coração do maior dos desgraçados. Foi Cristo quem disse aos príncipes dos Sacerdotes e anciãos do povo : " Publicanos e meretrizes entrarão primeiro que vós, no Reino de Deus ..." ( Mt 21,3)
     O mistério da nossa liberdade só é compreensível por Deus, porque essa liberdade é um mistério no homem. E Deus desvenda esse segredo, precisamente, porque sua justiça é iluminada pelo amor. A justiça dos homens é cega, para que o amor não a corrompa; mas a de Deus, pelo contrário, é clarividente, porque olha com os olhos do amor, - e nisso está a sua excelência infinita. Quando, também nós, tivermos de julgar as vidas dos nossos irmãos, amemos o mais que pudermos, os nossos réus, porque, só assim, nos assemelhamos à justiça divina.

CONCLUSÕES

     1. Evitar o desânimo. Mudar na velhice? impossível. Tudo perdido, - Não. Nunca é tarde na vida para nos voltarmos para Deus. Porque só um ato, o da undécima hora, pode resgatar todo o passado, e merecer o mesmo prêmio que os que trabalham o dia inteiro. Sendo a justiça de Deus tão ampla e amorosa, sempre nos ficam motivos de esperança.
     2. Evitar o desleixo. Do fato de os últimos poderem redimir o atraso, com pouco tempo de trabalho, não se segue que quem trabalhar bem todo o dia não tenha mais mérito. Se o vinhateiro sai a contratar operários, logo de manhã, sinal é de que lhe agrada a diligência e se  bom trabalho da undécima hora é tão premiado, isso nos mostra que o bom trabalho das outras o será também. E sendo a justiça de Deus tão misteriosa, por se confundir com o amor, nem por isso a devemos tomar como indulgência transigente; mas temamos sempre, porque essa aliança misteriosa tanto joga a nosso favor como contra nós.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Meditação Para o 3° Domingo Após a Epifania

Pe João Mendes SJ

     O  Evangelho relata a cura de dois doentes, dois milagres alcançados pela Fé, mas por uma fé mais profunda e viva, no segundo que no primeiro caso. O leproso aproxima-se de Jesus e expõe~lhe o seu mal, como uma oração tão simples como eficaz. O Senhor toca-o, e ele fica limpo de toda a lepra.
     Depois vem o centurião, e sem exigir a presença de Jesus, apela somente para o seu poder. E o Senhor realiza o milagre a distância. É que é sobretudo pela fé que Deus se nos torna presente, e que nós recebemos a eficácia do poder divino.

1. A FÉ TORNA-NOS RECEPTIVOS DO PODER DIVINO

     O milagre por contato. O leproso, o intocável, aquele de quem todos fugiam, pode, enfim, prostrar-se diante do homem que é Deus. Este, ao menos, não o teme nem lhe terá horror. Talvez o pobre gafo sentisse demasiada sofreguidão, e era bem natural, da presença física do Taumaturgo, e não discriminasse bem o objeto da sua confiança. Mas cria: "Senhor, se Vós quiserdes, podeis curar-me!". Ainda que a humanidade do Redentor seja instrumento da Divindade, contudo, para esta, formalmente, é que deve ir a nossa crença. A fé diz respeito ao Deus que se esconde e se revela no homem.
     Necessidade da fé. A presença de Cristo ser-nos-ia inútil se não acreditássemos na sua divindade. " Se crês...", " A tua fé te salvou...". E foi também a fé do leproso que o salvou: " Se quiserdes, podeis curar-me. - Quero. Sê Curado!". Muitos viram e ouviram a Cristo, muitos lhe tocaram e foram d'Ele tocados, e ficaram como antes. "Mestre, toda esta gente te aperta e importuna, como dizes que alguém te tocou?". É que entre tantos, era a hemorroíssa quem tinha a fé verdadeira; só essa foi receptiva da ação divina. Em Nazaré, Cristo não praticou milagres. Porque não pudesse? Não, mas porque os seus conterrâneos o tomavam simplesmente como um dos seus, " O Filho do carpinteiro", e não criam no Deus o culto. É como na Eucaristia: o pagão que comungasse, só receberia o alimento material dum corpo humano sacrificado. Assim no convívio de Cristo: se não tivermos fé, Ele será para nós como um homem qualquer.

2. PORQUE É O PRIMEIRO CONTATO COM O MUNDO SOBRENATURAL

     O milagre à distância. O Centurião não requer a presença física de Jesus: "Dizei uma só palavra, e o meu servo será curado". Como se dissesse: há outro modo mais íntimo de Deus aproximar-se dos homens e os homens d'Ele. E Nosso Senhor elogia, entusiasticamente aquela fé que não tinha igual em Israel. E a Igreja tornou as palavras daquele que, ainda há pouco, era simples pagão, para as aplicar ao "misterium fidei" por excelência.
     Contato com Deus pela fé. Não é preciso a presença física de Cristo, porque a crença sobrenatural é já o nosso primeiro contato com o mundo de Deus. A luz da fé não é mais que a própria luz íntima do Senhor, a luz inacessível que ele habita, enquanto comunicada ao homem; é conhecermos, quanto nos é dado agora, os arcanos de Deus, a sua Trindade de Pessoas, mediante a revelação do Verbo Encarnado. Quando, para além do que vêem os olhos e do que vê a razão, a nossa alma adere à realidades sobrenaturais, saimos do mundo das aparências, entramos no mundo de Deus, iluminados diretamente da sua luz, ainda na obscuridade do mundo dos sentidos, mundo dos enigmas e das sombras, mas vendo já, e possuindo, em princípio, a glória divina. " Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e aquele que nos enviaste, Cristo Jesus"
     É assim que as almas animadas de fé viva dir-se-ia tocarem no mundo sobrenatural, tê-lo presente, senti-lo e respirá-lo. Por isso, quanto mais fé mais união com Deus e mais caridade. O Centurião estava, talvez, muito mais próximo de Cristo do que o leproso ajoelhado diante d'Ele. O que nos torna presentes ao Salvador, e a Ele presente a nós, é a união que tivermos com Ele, pela Fé e pela Caridade.

CONCLUSÃO

     A presença de Cristo. Quantos de nós, alguma vez, não teremos sentido pena de não ter visto e tocado a Nosso Senhor Jesus Cristo, quando passou na Terra. Mas, pela fé, podemos corrigir o atraso do tempo e a distância do espaço, e sermos mais presentes ao Redentor do que os contemporâneos. Não é a presença corporal o que nos une com Ele e com a sua Divindade, mas o convívio sobrenatural da crença.
     E o Reino dos Céus ainda está suspenso sobre nós, atualmente. A mensagem e a vida de Cristo continuam à espera da nossa adesão, como se o Senhor nos perguntasse também a nós: " E  vós? quem dizeis que eu sou?" Trata-se de um toque assimilador, de fazer descer a vida de Deus. Esse vínculo misterioso, parentesco divino e nó de eternidade, é a Fé.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Meditação para o 2° Domingo após a Epifania

Pe João Mendes SJ

         A presença de Cristo nas Bodas de Caná é comovedora de condescendência humana. Fala-nos a história de muitos casos de Príncipes e grandes que honraram com sua presença as bodas dos servos. Mas que venham Deus e sua Mãe a tomar parte nas alegrias festivas do amor humano ... louvada seja a sua bondade.
       Que íntimo sentimento de carinho fraterno, o do Coração de Jesus, trazendo a sua sagrada presença de Filho da Família Divina ao banquete da família humana. Porque terá ido o Verbo Encarnado ao humilde festim de um casamento?

1. A TRINDADE

      Eis o grande mistério: Deus é Família! Afirmação esta podia causar-nos estranheza. Então, a vida íntima e exclusiva de Deus é parecida com a nossa? Sim, é Verdade. Mas a pergunta admirada devia fazer-se em sentido inverso: como é que o Senhor consentiu que a nossa vida fosse parecida com a sua?
     Por Deus ser família é que nós, imagem sua, também somos. E Cristo vem de muito alto, de um abismo divino de pureza e de harmonia, para a pobre lareira esmorecida da nossa casa humana. Na Trindade, tudo é conhecimento, geração e amor, na Luz e na Santidade infinitas. Que vida de familia e que lar, onde Três pessoas distintas vivem da mesma natureza, infinitamente perfeita e infinitamente feliz! Que união, que intimidade, e que amor!..

2. EM NAZARÉ

     O Verbo Encarnado nasceu numa família. Quando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou, podia ter aparecido entre nós, como homem adulto, sem as dependências, fraquezas e humilhações das crianças. Mas nasceu numa família, e a sua união com a natureza humana realizou-se num seio materno e num lar humano.
     Essa família, a Sagrada Família por antonomásia, como mais perfeita imagem da Trindade, foi uma família virginal, onde Cristo, virgem nasceu duma Virgem, desposada com esposo Virgem. Foi tudo espiritual e santo no nascimento do Verbo Encarnado.
     Mas apesar da santidade dos seus pais na terra, como eles eram, no entanto, pálida imagem da Vida Trinitária! Nosso Senhor Jesus Cristo é, assim, o traço de união entre a Família de Deus e a Família do homem.


3. EM CANÁ

     O Verbo Encarnado abençoa a família. A presença de Cristo, em Caná da Galiléia, mais que condescendência, é aprovação. O Verbo Encarnado vem honrar e dignificar a família humana. Vem trazer a Bênção de Deus ao que é sombra imperfeita dos esplendores da Trindade; vem purificar e sagrar um fogo doméstico, centelha do amor divino, que as paixões dos homens facilmente deixarão corromper e abafar nas cinzas do egoísmo.
     E levou o Senhor a sua simpatia compassiva a concorrer para a festa com o vinho miraculoso, símbolo da alegria sensível. Ele que gozava da alegria sem sombras, e do vinho, tão ovo e tão antigo, da Divindade felicíssima. Foi o Primeiro milagre do Messias. Como os seus olhos pousariam, com amor e indulgência, no júbilo dos dois esposos! Enquanto Deus, sabia muito bem o que era o amor e a família por essência; como homem, nascido entre homens, fazia que os sentimentos divinos, no seu coração de carne, se transformassem numa infinita condescendência.
     E desde então, desde que o Próprio Deus assistiu às Bodas do amor das suas criaturas, é que o casamento e a família se transfiguraram num mistério divino, e virão a ser um Sacramento ou fonte de graça.

CONCLUSÃO

     O Matrimônio é imagem da Trindade. O Verbo é a imagem perfeita do Pai; e do amor mútuo de ambos, procede o Espírito Santo, o Dom, o Amor personificado. Também na família humana, a esposa é o ideal, em que se revê o esposo; e do amor de ambos, tão alto que se desdobra m novos filhos de Deus, procede o dom supremo dos filhos, que são o amor personificado dos pais. Não há família perfeitamente constituída sem estes elementos.
     O Matrimônio é fonte de vida Trinitária. É que, a base da família, está a Nova Lei, um Sacramento. E o Sacramento é um sinal eficaz de graça, e a graça é uma comunicação de vida Divina. O matrimônio é , pois, coisa tão santa que espalha, na família, a mesma vida familiar de Deus, a sua vida Trinitária. E assim temos como lar cristão é já a imagem da Trindade, e mais que imagem, pequena célula divina da Jerusalém Celeste que é o corpo dos bem-aventurados. Como não há de a Igreja defender, ciosamente, a santidade e a indissolubilidade da família !!!


Sagrada Família de Nazaré guardai as nossas famílias !!!

domingo, 23 de agosto de 2015

TRÊS MODOS DE ORAR

1° modo de orar: sobre os Dez Mandamentos, os sete pecados capitais, as três potencias da alma e os cinco sentidos corporais. Este modo de orar é mais dar forma, modo e exercícios pelos quais a pessoa se prepare e aproveite para que a oração seja aceita, do que apropriadamente uma forma ou modo de orar.
Primeiro: faça-se o equivalente à 3° adição (n° 224) da segunda semana: antes de entrar em oração, repouse um pouco o espirito (n° 225) , sentando ou passeando, como melhor lhe parecer, considerando aonde vou e para que. Esta mesma adição se fará no princípio de todos os modos de orar.
Oração: uma oração preparatória, pedindo a Graça de Deus Nosso Senhor para que possa conhecer no que faltei nos Dez Mandamentos. (2) também pedir graça e ajuda para me emendar de agora em diante, suplicando perfeita inteligência deles para melhor observá-los e para a maior glória e louvor de sua Divina Majestade.
No 1° modo de orar, convém considera e pensar no 1° mandamento: como observei, em que terei faltado, tomando normalmente o tempo de quem diz 3 “Pai- nossos” e 3 “Ave Marias”. Se neste tempo, acho faltas minhas, pedir desculpas e perdão por elas, e dizer um “Pai – Nosso”. Do mesmo modo se proceda em cada um dos dez mandamentos.
1° nota:  quando alguém começa a pensar num mandamento no qual não costuma ter pecado, não é preciso que se detenha tanto tempo. Mas se acha em si que mais ou menos vezes tropeça naquele mandamento, deve mais ou menos tempo deter-se na consideração e investigação dele. E o mesmo se observe a respeito dos pecados capitais.


2° nota: depois de terminar de percorrer todos os mandamentos, como se disse, acusando-se das faltas e pedindo graça e ajuda para emendar-me para o futuro, conclua-se com um colóquio a Deus Nosso Senhor, segundo o assunto proposto.
Segundo: sobre os pecados capitais, depois da adição, faça-se a oração preparatória, da forma que foi dita. Mude-se apenas o assunto: aqui os pecados que se hão de evitar. Antes eram os mandamentos que se deveriam observar. Do mesmo modo se guarda a ordem  e regra que se disse no colóquio.
Para melhor conhecer as faltas cometidas quanto aos pecados capitais, olhem-se os seus contrários. Desse modo, a pessoa proponha e procure, para melhor evita-los, adquirir e manter, por meio de santos exercícios, as ete virtudes a eles contrárias.
Terceiro: sobre as potencias da alma, nas 3 potencias da alma se guarde a mesma ordem e regra que nos mandamentos, fazendo-se sua adição, oração preparatória e colóquio.
Quarto: sobre os cinco sentidos corporais, quanto aos 5 sentidos corporais, mantenha-se a mesma ordem, mudando o assunto.
Nota: quem quiser imitar Cristo Nosso Senhor no uso dos seus sentidos encomende-se a sua divina majestade na oração preparatória. Tendo considerado um sentido diga uma “Ave- Maria” e um “Pai Nosso”. Quem quiser imitar Nossa Senhora no uso dos sentidos encomende-se a ela na oração preparatória, para que alcance para tanto graça de seu Filho e Senhor Nosso. Tendo considerado diga uma “Ave- Maria”.
-----------------------------------------------------------------

2° modo de orar: contemplando o significado de cada palavra da oração.
Adição: a mesma do 1° modo de orar.
Oração: a oração preparatória se fará conforme a pessoa a quem se reza.
A pessoa, de joelhos ou sentada, segundo a disposição e que se encontrar e mais devoção a acompanhar, tendo os olhos fechados ou fixos num lugar, sem divagar com eles, diga “Pai”. Permaneça na consideração desta palavra tanto tempo enquanto ela encontrar significações, comparações, gostos e consolação em considerações pertinentes a esta palavra. Do mesmo modo proceda em cada palavra do “Pai-Nosso” ou em outra oração que reza conforme este modo.
1° regra: fique, como disse, uma hora inteira no Pai-Nosso todo. Quando concluir diga uma “Ave Maria”, “Credo”, Alma de Cristo” e “Salve Rainha”, vocal ou mentalmente, segundo costumar.
2° regra: se quem contempla o “Pai- Nosso” achar uma palavra ou duas tão bom assunto em que pensar, com gosto e consolação, sem cuidar de ir adiante, ainda que termine a hora no que encontra. Concluindo, dirá o resto da oração de maneira habitual.
3° regra: se a pessoa se deteve numa o duas palavras do “Pai- Nosso” durante a hora inteira, querendo noutro dia retomar a oração, diga a referida palavra, ou as duas, como costuma. Comece a contemplar na palavra que se segue, segundo o que disse na 2° regra.
1° nota: tenha-se presente que, terminado o “Pai- Nosso” em um ou muitos dias, faça-se o mesmo com a “Ave- Maria”, e depois com as outras orações de forma que se exercite em cada uma delas por certo tempo.

2° nota: terminada a oração, dirija-se brevemente à pessoa a quem orou, pedindo as virtudes ou graças que sente mais necessitar.
----------------------------------------------------------------------------------
3° modo de orar: por compasso.
Adição: a mesma do 1° e 2° modos de orar.
Oração: oração preparatória seja a do 2° modo de orar.
Terceiro modo: em cada inspiração ou expiração, orar mentalmente, dizendo uma palavra do “Pai- Nosso” ou de outra oração, de modo que só se diga uma palavra entre uma respiração e outra. No intervalo de uma e outra, olhe-se principalmente a significação desta palavra, ou a pessoa a quem se reza, ou a sua própria baixeza, ou a diferença entre tanta altura e tanta baixeza. Segundo a mesma forma e regra, procederá conas outras palavras e com as outras orações, segundo o costume.
1° regra: em outro dia e hora que quiser orar, dia a “Ave Maria” por compasso e as outras orações, segundo costuma, e continue assim por diante.
2° regra: quem quiser demorar-se mais na oração por compasso, pode dizer todas as orações que foram ditas, ou parte delas, mantendo-se a mesma ordem no respirar compassadamente, como está explicado.

Exercícios Espirituais n° 238 – 260- Santo Inácio de Loyola

domingo, 21 de junho de 2015

Exercícios Espirituais: EXAME DE CONSCIÊNCIA PARA SE PURIFICAR E MELHOR SE CONFESSAR


Pressupondo que há em mim três pensamentos. A saber:
- o meu próprio, que provém simplesmente de minha liberdade e querer;
- e outros dois, que vem de fora: um proveniente do bom espírito e outro do mau.

O pensamento

            Há dois modos de merecer por ocasião de maus pensamentos que vem de fora:
1°- por exemplo, vem um pensamento de cometer pecado mortal. Resisto prontamente e ele fica vencido.
2°- o segundo modo de merecer sucede quando me vem aquele mesmo mau pensamento e eu resisto. Ele volta a vir uma e outra vez, e eu sempre resisto, até que ele se retire vencido. Este segundo é mais meritório que o primeiro.
            Peca-se venialmente quando vem o mesmo pensamento de cometer pecado mortal e se lhe dá atenção, demorando-se por um pouco nele; ou dele recebendo alguma satisfação sensual; ou sendo um tanto negligente em repelir este pensamento.
            Há dois modos de pecar mortalmente:
1°- quando a pessoa consente no mau pensamento, querendo logo agir como consentiu, ou desejando, se possível, pô-lo em prática.
2°- quando se pratica aquele pecado mortal. Este modo é mais grave por três razões: pela maior duração, pela maior intensidade e pelo maior dano às pessoas.

A palavra

            Não jurar nem pelo Criador, nem pela criatura. A não ser com verdade, necessidade e reverência.
            “por necessidade” entendo não quando se afirma por juramento qualquer verdade, mas quando é de alguma importância para o proveito espiritual ou corporal ou dos bens materiais.
            Entendo haver reverencia quando a pessoa presta honra e o respeito devidos ao pronunciar o nome do seu Criador e Senhor.
            Quando juramos sem necessidade, pecamos mais jurando pelo Criador que pela criatura. Advirta-se que é mais difícil jurar corretamente com verdade, necessidade e reverência pela criatura do que pelo Criador, pelas seguintes razões:
1°- quando juramos por alguma criatura, visto que apenas nos referimos a uma criatura, não ficamos tão atentos e precavidos para dizer a verdade com necessidade, como quando nos referimos ao Criador e Senhor de todas as coisas.
2° - quando juramos pela criatura, não é tão fácil ter reverencia e acatamento para com o Criador, como quando juramos invocando o próprio Criador e Senhor. Pronunciar o nome de Deus nosso Senhor supõe mais acatamento e reverencia do que pronunciar o nome da criatura.
            Por isso, é mais admissível que os perfeitos jurem pela criatura do que os imperfeitos. Pois os perfeitos, graças à assídua contemplação e iluminação do entendimento, consideram, meditam e contemplam mais como Deus nosso Senhor está em cada criatura, segundo sua própria essência, presença e poder. Sendo assim, quando juram pela criatura, estão mais aptos e dispostos a ter acatamento e reverencia para com o seu Criador e Senhor do que os imperfeitos.
3°- quando juramos frequentemente pela criatura, há maior risco de idolatria para os imperfeitos do que para os perfeitos.
            Não dizer palavra ociosa, isto é, palavra que não traz proveito nem para mim. Nem para o outro, nem tem esta intenção. Nunca é ocioso falar acerca de tudo o que tem proveito ou intenção de ajudar espiritualmente a si ou a outra pessoa; ou ser útil ao corpo e aos bens materiais. Também não é ocioso conversar sobre assuntos estranhos a seu estado, como no caso de um religioso que trate de guerras ou de comercio.
            No entanto, em tudo o que foi dito acima há merecimento em ordenar bem para um fim honesto. E há pecado quando tem um fim mau, ou se fala sem necessidade.
            Nada dizer que difame ou desacredite. Com efeito, se revelo um pecado mortal que não é publico, peco mortalmente. Se revelo um pecado venial, peco venialmente. Se manifesto um defeito, demonstro em defeito próprio. Mas, se a intenção for boa, pode-se falar em pecados ou faltas alheias de dois modos:
1°- quando for pecado público. Por exemplo: falar de uma prostituta publica, ou de uma sentença dada em juízo, ou de um erro público que contamina as pessoas com quem falamos;
2° quando se revela a alguém um pecado oculto, para que ajude o pecador a se levantar, se há esperanças ou razoes fundadas para tanto.

A obra

            Considerando-se os dez mandamentos, os mandamentos da Igreja e as determinações dos superiores, tudo o que se pratica contra uma destas três matérias é pecado, maior ou menos conforme a sua importância.
            Entendo por determinações dos superiores, por exemplo, as normas da autoridade da Igreja em favor da paz, dando indulgencias aos que se confessam e recebem o Santíssimo Sacramento. Pois não pouco se peca agindo ou levando alguém a agir contra tão piedosas exortações e determinações de nossos superiores.
   
MODO DE FAZER O EXAME GERAL: CONSTA DE CINCO PONTOS

1°- das graças a Deus, nosso Senhor, pelos benefícios recebidos;
2°- pedir graça para conhecer os pecados e rejeitá-los
3°- pedir as contas de si mesmo, repassando o período desde o momento de se levantar até o exame presente, hora por hora ou período por período. Primeiro dos pensamentos. Depois das palavras e, finalmente dos atos. Usar a mesma ordem indicada no exame particular;
4°- pedir perdão a Deus nosso Senhor pelas faltas;
5°- fazer o propósito de se emendar com a sua graça. Rezar o Pai-nosso.

CONFISSÃO GERAL E COMUNHÃO

            Para quem quiser voluntariamente fazer a confissão geral, há três vantagens, entre muitas outras:
1°- quem se confessa todos os anos não está obrigado a fazer confissão geral. Há, porém, maior aproveitamento e mérito em fazê-la por causa da maior dor que experimenta agora a respeito de todos os pecados e malícia da vida inteira;
2°- nestes Exercícios espirituais os pecados e suas malícias são mais interiormente conhecidos pela pessoa do que quando ela não se dedicava tanto ás coisas interiores. Se conseguir agora maior conhecimento e dor dos pecados, terá maior proveito e mérito do que antes;
3°- em consequência, como a pessoa está mais bem confessada e disposta, encontra-se mais apta e preparada para receber o Santíssimo Sacramento. A comunhão não somente ajuda para que não caia em pecado, mas também para que se conserve no aumento da graça. É melhor fazer essa confissão geral imediatamente após os exercícios da primeira semana.


Fonte: Exercícios espirituais, (n° 32 – 44), Santo Inácio de Loyola

sábado, 20 de junho de 2015

Exercícios Espirituais: EXAME PARTICULAR E COTIDIANO EM TRÊS TEMPOS, EXAMINANDO-SE DUAS VEZES

Fonte: Exercícios Espirituais, (n° 24-31) Santo Inácio de Loyola

Primeiro Tempo

            Logo de manhã, ao levantar-se, deve a pessoa propor-se evitar cuidadosamente aquele pecado ou defeito particular do qual se quer corrigir e emendar.
Segundo Tempo

            Depois da refeição, pedir a Deus Nosso Senhor, o que quer. Neste caso a graça de recordar-se quantas vezes caiu naquele pecado ou defeito particular e de emendar-se para o futuro.
            Portanto fazer o primeiro exame: pedir as contas de si próprio sobre o ponto particular proposto, do qual se quer corrigir e emendar.
            Percorrer o tempo que passou desde o momento em que se levantou até o do presente exame, hora por hora ou período por período; Marcar na primeira Linha, tantos pontos quantas vezes caiu no tal pecado ou defeito. Em seguida, proponha novamente emendar-se até o momento do segundo exame.
Terceiro Tempo

            Depois da refeição da noite, fazer o segundo exame, hora por hora, desde o momento do primeiro exame até o presente momento. Anotar então, na segunda linha, tantos pontos quantas vezes incorreu no tal pecado ou defeito particular.


QUATRO ADIÇÕES PARA ELIMINAR MAIS RAPIDAMENTE AQUELE PECADO OU DEFEITO PARTICULAR.
1° Adição

            Cada vez que a pessoa cair em tal pecado ou defeito particular, ponha a mão no peito, arrependendo-se de ter caído. O que se pode fazer sem chamar atenção, até mesmo diante de muita gente.

2° Adição

            A primeira linha significa o primeiro exame; a segunda, o segundo. Por isso, à noite, observar se houve melhora do primeiro para o segundo exame.

3° Adição

            Comparar o segundo dia com o primeiro, isto é, os dois exames do dia presente com os do dia anterior. Observar se houve melhora de um dia para o outro.

4° Adição
            Comparar uma semana com a outra. Observar se na semana presente houve melhora em relação à anterior.
Nota: deve-se notar que o Primeiro “G”, maiúsculo, que se segue, significa o Domingo; o segundo, minúsculo, a segunda-feira; o terceiro, a terça-feira; e assim por diante.

G
                             



g

g


g

No exemplo acima a letra "G" representa o pecado da Gula.

                          





quarta-feira, 6 de maio de 2015

Exercícios Espirituais

Aconteceu entre os dia 30 de abril e 3 de maio, os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola promovidos por nossa Congregação. Conforme nossa Regra de Vida todos os congregados são obrigados a fazer os exercícios ao menos uma vez ao ano, este ano participaram 50 exercitantes entre Congregados e Convidados.
Os Exercícios foram dirigidos pelo Rev. Pe Renato Leite, da Diocese de Santo Amaro SP  e também contou com a presença dos membros da Futura Congregação Mariana Nsra da Conceição e São José da mesma diocese.