domingo, 21 de maio de 2017

A República Mariana

Alexandre Martins, cm.

A Sociedade humana se organiza em grupos. De acordo com a história da humanidade, esses grupos se organizam de formas características.
As irmandades católicas, e também as confrarias, se organizam de uma forma familiar, como o próprio nome diz. Ou seja, são irmãos que se consideram parte de uma mesma família. Daí o nome “irmandade” (reunião de irmãos) e “confraria” (do latim, “frater”, irmão, também é reunião de irmãos) serem nomeados esses agrupamentos.

O usado na Idade Média

Como as irmandades e confrarias foram concebidas na Idade Média, como a primeira confraria mariana que se tem notícia, a fundada pelo início do século XI, em Ravena, Itália, pelo Beato Pedro de Honestis (1049-1119), a sua organização era concebida como as guildas medievais.
Uma irmandade tem um chefe denominado Provedor que, como significa o nome, é o que provê as necessidades do grupo, como um pai na sua família, imitando outra instituição quase medieval: os mosteiros e seus abades.
Nas irmandades e confrarias a mesa diretora é composta em geral pelos mais antigos que se revezam de acordo com o tamanho e necessidade da confraria. Símbolos são usados amplamente para distinguir o grau e a importância do Provedor e os membros da mesa de direção, mesmo para os que não são membros da irmandade.

A Idade Moderna

Como advento das Congregações Marianas surge uma organização diferente.
As Congregações Marianas embora taxadas de “medievais” até por alguns jesuítas modernos, curiosamente surgiu na própria Idade Moderna, século XVI. A Idade Média havia terminado há várias décadas atrás. Mesmo o famoso Concílio de Trento, renovador de per si na história da Igreja, havia sido realizado poucos anos antes da fundação da primeira Congregação Mariana.
Como uma instituição moderna, portanto, as Congregações Marianas adotaram uma organização também moderna.
O governo das Congregações Marianas é entregue aos leigos, com a supervisão de um sacerdote. As irmandades e confrarias também o eram, mas com as Congregações Marianas a forma era algo de “republicano” em comparação com as irmandades que eram, por sua vez, mais “monarquistas” e “feudais”.

Leigos como diretores

Um exemplo claro do citado acima é o título que o dirigente leigo possui nas Congregações Marianas: o de Prefeito, ou Presidente, títulos empregados na Europa e Brasil, respectivamente. Esse título exemplifica bem o caráter comunitário da gestão administrativa das Congregações Marianas. O diretor é alguém eleito por seus pares e pode ser tanto um antigo Congregado quanto um mais novo. Além disso, os demais diretores também são escolhidos do mesmo jeito. Se compreende então que é a comunidade de Congregados que são representados em um pequeno grupo que organizará a vida da Congregação Mariana por um determinado período e que por sua vez será substituída por outros em nova eleição interna.
O sacerdote possui neste cenário uma posição e atuação bem particular. Embora as Regras Comuns de 1910 tenham dado poderes maiores aos sacerdotes, que possuíam o título de Diretor Espiritual, na realidade essa autoridade era exercida mais num sentido de amorosa orientação do que rígida disciplina.
Mesmo o famoso pe. Coster, jesuíta que tanto utilizou das Congregações Marianas para o trabalho de evangelização e apostolado nas cidades europeias do século XVII, dava apenas as orientações gerais par suas associações e para seus Congregados, deixando-os livres para a ação.
Infelizmente, no início do século XX, no Brasil, as Congregações Marianas eram tratadas de forma mais rígida pelos sacerdotes, colocando os dirigentes numa situação de praticamente dependência deles, sem muita iniciativa particular. Com a mudança das Regras em 1967, e o consequente retorno à posição mais colaborativa do sacerdote, os dirigentes ficariam como que desamparados na orientação de seus trabalhos administrativos e a consequência foi uma grande queda no ímpeto apostólico das Congregações Marianas no Brasil.
Mas as novas Regras que dirigem as Congregações Marianas no Brasil, se por um lado não modificaram a posição colaborativa do sacerdote na organização da associação, por outro lado não impedem que se possa retornar à tradição das clássicas Congregações Marianas.

A Regra brasileira de 1994

A Regra de Vida de 1994 nada se refere a não poder ser aceito na Diretoria alguém ainda no Aspirantado, quando não há número de Congregados marianos para isso, como se verifica nas Congregações Marianas que são recentemente fundadas. O antigo costume de haver a Consagração Perpétua aos primeiros fundadores de uma Congregação Mariana caiu em desuso na década de 1970 no Brasil.
A primeira diretoria é escolhida praticamente em um consenso pois em geral o número inicial é pequeno. A Regra de 1994 até mesmo a chama de “diretoria provisória” Daí a possibilidade de haver aspirantes entre os diretores.
A diretoria clássica era composta por um número considerável de pessoas. Sua divisão era de “oficiais maiores” e “oficiais menores”. O temo “oficial” dá-se porque a pessoa possui um “ofício” um função, e não, como se pode pensar de primeiro, alguma honraria ou prêmio.
Na tradição das Congregações Marianas, os oficiais maiores são o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário e o Tesoureiro. O assistente eclesiástico é uma função que, embora compunha o elenco dos oficiais maiores, não é algo especial, pois não é eleito, mas nomeado. Em paróquias, é uma função naturalmente exercida pelo pároco.
Os oficiais menores são os demais cargos que venham a existir, como o de Porta-bandeira.
A escolha da Diretoria, em especial os oficiais maiores se dá por eleição simples entre os Congregados marianos. É um costume abster o Aspirantado de votar.
A duração do mandato se dá por um ou dois anos, E sempre foi feita uma cerimônia especial de posse de diretoria, com um pequeno juramento proferido pelos diretores perante o altar e o padre assistente, aonde se sublinha o caráter serviçal da função de diretor.

O protagonismo moderno das Congregações Marianas

As Congregações Marianas, fundadas na Idade Moderna, sempre estiveram à frene do seu tempo. Seu protagonismo se deu também através de uma gestão participativa de escolha livre entre os membros. Algo comparável a uma pequena república, ou mesmo uma pequena cidade onde seus habitantes escolhem seu prefeito.
Os diretores são os eleitos para organizar e guiar essa pequena república, uma república que não segue as leis humanas mas as leis do Evangelho. Uma república que tem como pátria a pátria celeste. Uma república que usa as cores da Mãe de Deus. Uma república da Virgem Maria.