quarta-feira, 24 de maio de 2017

Consagração À Nossa Senhora Auxiliadora


Meu Senhor, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, vos reconheço como meu Senhor, vos adoro e vos proclamo principio e fim de toda criação. Suplico-vos com humildade que renoveis em mim aquele misterioso testamento que fizestes sobre a Cruz, quando deixastes Maria como Mãe do apóstolo João. Fazei-me hoje a mim também filho de Vossa Mãe e dai-me a vossa Mãe como minha mãe. Dai-me a graça de pertencer a ela e de tê-la como Mãe durante toda a minha vida. Santíssima Virgem Maria, Advogada e Auxiliadora dos Cristãos, eu me confio por inteiro à vossa bondade maternal. Animado por esse desejo quero imitar vossas virtudes; elejo-vos hoje como minha Mãe e vos suplico Ter-me entre vossos filhos. Ofereço-vos o dom de mim mesmo, quanto sou e tenho. Acolhei minha vontade e fortalecei em mim a confiança com a qual hoje me ofereço. Que vossa proteção me assista todos os dias de minha vida e na hora de minha morte, para que ao abandonar este vale de lagrimas possa reunir-me convosco e gozar no Reino de Vosso Filho. Amém

Autor: São João Bosco

domingo, 21 de maio de 2017

A República Mariana

Alexandre Martins, cm.

A Sociedade humana se organiza em grupos. De acordo com a história da humanidade, esses grupos se organizam de formas características.
As irmandades católicas, e também as confrarias, se organizam de uma forma familiar, como o próprio nome diz. Ou seja, são irmãos que se consideram parte de uma mesma família. Daí o nome “irmandade” (reunião de irmãos) e “confraria” (do latim, “frater”, irmão, também é reunião de irmãos) serem nomeados esses agrupamentos.

O usado na Idade Média

Como as irmandades e confrarias foram concebidas na Idade Média, como a primeira confraria mariana que se tem notícia, a fundada pelo início do século XI, em Ravena, Itália, pelo Beato Pedro de Honestis (1049-1119), a sua organização era concebida como as guildas medievais.
Uma irmandade tem um chefe denominado Provedor que, como significa o nome, é o que provê as necessidades do grupo, como um pai na sua família, imitando outra instituição quase medieval: os mosteiros e seus abades.
Nas irmandades e confrarias a mesa diretora é composta em geral pelos mais antigos que se revezam de acordo com o tamanho e necessidade da confraria. Símbolos são usados amplamente para distinguir o grau e a importância do Provedor e os membros da mesa de direção, mesmo para os que não são membros da irmandade.

A Idade Moderna

Como advento das Congregações Marianas surge uma organização diferente.
As Congregações Marianas embora taxadas de “medievais” até por alguns jesuítas modernos, curiosamente surgiu na própria Idade Moderna, século XVI. A Idade Média havia terminado há várias décadas atrás. Mesmo o famoso Concílio de Trento, renovador de per si na história da Igreja, havia sido realizado poucos anos antes da fundação da primeira Congregação Mariana.
Como uma instituição moderna, portanto, as Congregações Marianas adotaram uma organização também moderna.
O governo das Congregações Marianas é entregue aos leigos, com a supervisão de um sacerdote. As irmandades e confrarias também o eram, mas com as Congregações Marianas a forma era algo de “republicano” em comparação com as irmandades que eram, por sua vez, mais “monarquistas” e “feudais”.

Leigos como diretores

Um exemplo claro do citado acima é o título que o dirigente leigo possui nas Congregações Marianas: o de Prefeito, ou Presidente, títulos empregados na Europa e Brasil, respectivamente. Esse título exemplifica bem o caráter comunitário da gestão administrativa das Congregações Marianas. O diretor é alguém eleito por seus pares e pode ser tanto um antigo Congregado quanto um mais novo. Além disso, os demais diretores também são escolhidos do mesmo jeito. Se compreende então que é a comunidade de Congregados que são representados em um pequeno grupo que organizará a vida da Congregação Mariana por um determinado período e que por sua vez será substituída por outros em nova eleição interna.
O sacerdote possui neste cenário uma posição e atuação bem particular. Embora as Regras Comuns de 1910 tenham dado poderes maiores aos sacerdotes, que possuíam o título de Diretor Espiritual, na realidade essa autoridade era exercida mais num sentido de amorosa orientação do que rígida disciplina.
Mesmo o famoso pe. Coster, jesuíta que tanto utilizou das Congregações Marianas para o trabalho de evangelização e apostolado nas cidades europeias do século XVII, dava apenas as orientações gerais par suas associações e para seus Congregados, deixando-os livres para a ação.
Infelizmente, no início do século XX, no Brasil, as Congregações Marianas eram tratadas de forma mais rígida pelos sacerdotes, colocando os dirigentes numa situação de praticamente dependência deles, sem muita iniciativa particular. Com a mudança das Regras em 1967, e o consequente retorno à posição mais colaborativa do sacerdote, os dirigentes ficariam como que desamparados na orientação de seus trabalhos administrativos e a consequência foi uma grande queda no ímpeto apostólico das Congregações Marianas no Brasil.
Mas as novas Regras que dirigem as Congregações Marianas no Brasil, se por um lado não modificaram a posição colaborativa do sacerdote na organização da associação, por outro lado não impedem que se possa retornar à tradição das clássicas Congregações Marianas.

A Regra brasileira de 1994

A Regra de Vida de 1994 nada se refere a não poder ser aceito na Diretoria alguém ainda no Aspirantado, quando não há número de Congregados marianos para isso, como se verifica nas Congregações Marianas que são recentemente fundadas. O antigo costume de haver a Consagração Perpétua aos primeiros fundadores de uma Congregação Mariana caiu em desuso na década de 1970 no Brasil.
A primeira diretoria é escolhida praticamente em um consenso pois em geral o número inicial é pequeno. A Regra de 1994 até mesmo a chama de “diretoria provisória” Daí a possibilidade de haver aspirantes entre os diretores.
A diretoria clássica era composta por um número considerável de pessoas. Sua divisão era de “oficiais maiores” e “oficiais menores”. O temo “oficial” dá-se porque a pessoa possui um “ofício” um função, e não, como se pode pensar de primeiro, alguma honraria ou prêmio.
Na tradição das Congregações Marianas, os oficiais maiores são o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário e o Tesoureiro. O assistente eclesiástico é uma função que, embora compunha o elenco dos oficiais maiores, não é algo especial, pois não é eleito, mas nomeado. Em paróquias, é uma função naturalmente exercida pelo pároco.
Os oficiais menores são os demais cargos que venham a existir, como o de Porta-bandeira.
A escolha da Diretoria, em especial os oficiais maiores se dá por eleição simples entre os Congregados marianos. É um costume abster o Aspirantado de votar.
A duração do mandato se dá por um ou dois anos, E sempre foi feita uma cerimônia especial de posse de diretoria, com um pequeno juramento proferido pelos diretores perante o altar e o padre assistente, aonde se sublinha o caráter serviçal da função de diretor.

O protagonismo moderno das Congregações Marianas

As Congregações Marianas, fundadas na Idade Moderna, sempre estiveram à frene do seu tempo. Seu protagonismo se deu também através de uma gestão participativa de escolha livre entre os membros. Algo comparável a uma pequena república, ou mesmo uma pequena cidade onde seus habitantes escolhem seu prefeito.
Os diretores são os eleitos para organizar e guiar essa pequena república, uma república que não segue as leis humanas mas as leis do Evangelho. Uma república que tem como pátria a pátria celeste. Uma república que usa as cores da Mãe de Deus. Uma república da Virgem Maria.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Mãe da Igreja e Auxiliadora dos Cristãos


São João Bosco, fundador da Congregação Salesiana, espalhou a devoção a Nossa Senhora invocada em todo mundo com este título: AUXILIADORA, que lembra a perene proteção de Maria Santíssima, sobre a Igreja e sobre o Papa. Os fiéis intuíram a intervenção sobrenatural de Nossa Senhora, invocada como AUXILIADORA e na Obra de Oratório, com muito acerto chamaram-na "A VIRGEM DE DOM BOSCO."

Já em 1824, Joãozinho Bosco, criança de 9 anos, como ele mesmo conta, teve o primeiro sonho profético, em que lhe foi manifestado o campo do seu futuro apostolado e ouviu a voz misteriosa do Senhor dizer-lhe: "DAR-TE-EI A MESTRA." E logo, apareceu a Senhora de aspecto majestoso que o animou a trabalhar, para corrigir o comportamento dos meninos malcriados.

Nossa Senhora apareceu freqüentemente nos sonhos de Dom Bosco e foi a estrela do seu apostolado. Ele a chamava Mãe e sustentadora, socorrendo a Congregação Salesiana, especialmente toda vez que precisava-se auxílio extraordinário para atender as necessidades dos meninos pobres e abandonados, não só materiais, mas sobre tudo quando suas almas corriam perigo.

E, durante toda a sua vida Dom Bosco foi incansável em fazê-la conhecer, amar e honrar. Discursos, conferências, livros, festas: seriam necessários muitos volumes e muito tempo para recordar todas as iniciativas de seu fervor mariano.

Com a construção da Basílica de Maria Auxiliadora de Turim, em 1868, o Santo quis erguer um monumento eterno do seu amor e dos seus filhos espirituais, à celeste Mãe. Teve sempre ternura de filho no seu amor e no seu reconhecimento para com Ela, que o guiou e socorreu com a sua visível e por vezes miraculosa proteção.

"Maria Santíssima é minha Mãe – dizia Dom Bosco. Ela é minha tesoureira. Ela foi sempre a minha guia." Em suas conferências Dom Bosco sempre procurava responder a estas três perguntas:

Por que a honramos? Por que a invocamos? Por que é Auxiliadora?

Porque Ela é Mãe de Deus, Mãe de Jesus Cristo e nossa mãe.

A Igreja nos ensina também que Maria é a Medianeira de todas as graças. Porque Maria Santíssima, modelo perfeito de todas as virtudes, nos ensina com seu exemplo como devemos imitar a seu Divino Filho. Precisamente, na imitação das virtudes de Maria se manifesta verdadeira nossa devoção. E estas virtudes de Nossa Senhora, nós vamos encontrar nas páginas de Evangelhos: A obediência, a humildade, a pureza de coração. Por motivos históricos e litúrgicos, quando falamos de Maria Santíssima como Auxílio dos Cristãos, logo Ela nos aparece como a Defensora da Igreja, da Civilização cristã, do Papa, dos nossos Bispos e de todo cristão. "Auxílio dos Cristãos."
Este título: AUXILIADORA DOS CRISTÃOS foi introduzido na Ladainha de Nossa Senhora pelo Papa São Pio V, após a vitória dos cristãos obtida em Lepanto, vitória essa, conseguida graças ao auxílio de Deus e de Nossa Senhora. Em 1571, Dom João, príncipe austríaco, comandou os cristãos nessa batalha de Lepanto. São Pio V enviou para o Imperador uma bandeira, na qual estava bordada a imagem de Jesus crucificado. A preparação dos soldados consistiu em um tríduo de jejuns, orações e procissões, suplicando a Deus a graça da vitória, pois o inimigo não era apenas uma ameaça para a Igreja mas também para a civilização. Tendo recebido a Santa Eucaristia, partiram para a batalha. No dia 7 de outubro de 1571, invocando o nome de Maria, Auxílio dos Cristãos, travaram dura batalha nas águas de Lepanto. Três horas de combate foram necessárias... A vitória coube aos cristãos, que ao grito de "Viva Maria", hastearam a bandeira de Cristo.

Mais tarde, por causa da libertação de Viena situada pelos turcos, no ano de 1863, o rei da Polônia João III Sobieski, que chegou com as tropas polonesas em auxílio para a cidade sitiada, confessou humildemente ao Papa: "VENI, VIDI DEUS DEDIT VICTORIAM", (Cheguei, vi, Deus deu vitória). Recordando a todos e atribuindo a Virgem Maria tamanha graça. No início do século XIX, o Papa Pio VII, estabeleceu a Festa de Maria Auxiliadora no dia 24 de maio, como gratidão por ter sido libertado da injusta opressão em que se achava, ou seja, prisioneiro de Napoleão na França.

Esta festa se comemora hoje em muitas igrejas particulares e Institutos religiosos, principalmente na Sociedade de São Francisco de Sales, fundada por São João Bosco.

Dom Bosco difundia a devoção a Maria Auxiliadora, em uma perspectiva eclesial e missionária. Realmente, a Igreja sempre experimentou auxílio eficacíssimo da Mãe de Deus nas perseguições excitadas pelos inimigos da fé cristã.

No ano de 1862, as aparições de Maria Auxiliadora na cidade de Spoleto marcam um despertar mariano na piedade popular italiana. Nesse mesmo ano, Dom Bosco iniciou a construção, em Turim, de uma grande Basílica, que foi dedicada a Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos. Até então não se percebe em Dom Bosco uma atenção especial por esse título. "Nossa Senhora deseja que a veneremos com o título de AUXILIADORA: vivemos em tempos difíceis e necessitamos que a Santíssima Virgem nos ajude a conservar e defender a fé cristã", disse Dom Bosco ao clérigo Cagliero.

A partir dessa data, Dom Bosco, que desde pequeno aprendeu com Mamãe Margarida, sua mãe, a ter grande confiança em Nossa Senhora, ao falar da Mãe de Deus, lhe unirá sempre o título AUXILIADORA DOS CRISTÃOS. Para perpetuar o seu amor e a sua gratidão para com Nossa Senhora e para que ficasse conhecido por todos e para sempre que foi "Ela (Maria) quem tudo fez", quis Dom Bosco que as Filhas de Maria Auxiliadora, congregação por ele fundada juntamente com Santa Maria Domingas Mazzarello, fossem um monumento vivo dessa sua gratidão.

A devoção a Nossa Senhora Auxiliadora foi crescendo cada vez mais e mais. O Papa Pio IX fundou no Santuário de Turim (Itália) dia 5 de abril de 1870, uma Arquiconfraria, enriquecendo-a de muitas indulgências e de favores espirituais.

No dia 17 de maio de 1903, por decreto do Papa Leão XIII, foi solenemente coroada a imagem de Maria Auxiliadora, que se venera no Santuário de Turim.

Dom Bosco ensinou aos membros da família Salesiana a amarem Nossa Senhora, invocando-a com o título de AUXILIADORA. Pode-se afirmar que a invocação de Maria como título de Auxiliadora teve um impulso enorme com Dom Bosco. Ficou tão conhecido o amor do Santo pela Virgem Auxiliadora a ponto de Ela ser conhecida também como a "Virgem de Dom Bosco".

Dos escritos de São João Bosco, retiramos algumas passagens para ilustrar o seu amor por Maria Santíssima:

"Recomendai constantemente a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora e a Jesus Sacramentado".

"A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar todos juntos um dia no Paraíso".

"Sê devoto de Maria Santíssima e serás certamente feliz".

"Devoção e recurso freqüente a Maria Santíssima. Jamais se ouviu dizer no mundo que alguém tenha recorrido com confiança a essa mãe celeste sem que não tenha sido prontamente atendido".

"Diante de Deus declaro: basta que um jovem entre numa casa salesiana para que a Virgem Santíssima o tome imediatamente debaixo de sua especial proteção".

Dom Bosco confiou à Família Salesiana a propagação dessa devoção, que é, ao mesmo tempo, devoção à Mãe de Deus, à Igreja e ao Papa.

Concluímos com essas palavras do Papa João Paulo II: "A devoção a Maria é fonte de vida cristã profunda, é fonte de compromisso com Deus e com os irmãos. Permanecei na escola de Maria, escutai a sua voz, segui os seus exemplos. Como ouvimos no Evangelho, Ela nos orienta para Jesus: ‘Fazei o que Ele vos disser’ (Jo 2, 5). E, como outrora em Caná da Galiléia, encaminha ao Filho as dificuldades dos homens, obtendo dEle as graças desejadas. Rezemos com Maria e por Maria. Ela é sempre a ‘Mãe de Deus e nossa’".

Fonte: http://www.auxiliadora.org.br/maria

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Rainha do Céu


(Retirado da Legenda Áurea, nº 46)

Certa feita, na época do papa Pelágio II, o rio Tibre transbordou tanto que ultrapassou os muros da cidade e derrubou muitas casas. Ao baixarem, as águas do Tibre deixaram nas margens muitas serpentes e um grande dragão, vindos do mar, que corromperam o ar com sua podridão e provocaram uma pavorosa peste que atacava a virilha, parecendo flechas que caíam do Céu e atingiam todo indivíduo.

O primeiro atingido foi o papa Pelágio, que logo morreu, e o mal fazia tantos estragos entre o povo que muitas casas da cidade ficaram vazias devido à morte de seus habitantes. Como a Igreja de Deus não podia ficar sem chefe, o povo todo elegeu São Gregório, apesar de sua renitência. Como a peste continuava a devastar a população, mesmo antes de ser consagrado ele fez um sermão ao povo. ordenou uma procissão, instituiu o canto das litanias* e determinou a todos os fiéis que orassem a Deus com mais fervor do que nunca.

No momento em que o povo estava reunido para as preces, o flagelo foi tão violento que em uma hora pereceram noventa pessoas. Mas isso não o impediu de continuar a exortar o povo a não parar de rezar enquanto a misericórdia de Deus não afastasse a peste. Terminada a procissão, quis fugir mas não pôde, porque dia e noite havia guardas nas portas da cidade. Assim, ele mudou de roupa e com a ajuda de alguns negociantes escondeu-se num barril para ser tirado da cidade numa carroça. Foi direto para uma floresta, procurou uma caverna para se esconder e ali ficou três dias. Todos estavam à sua procura, quando um anacoreta teve a visão de uma coluna de fogo que descia do Céu sobre o lugar em que ele se escondera, coluna pela qual subiam e desciam anjos. O povo pegou-o, levou-o e ele foi consagrado sumo pontífice.

Basta ler seus escritos para se convencer de que foi contra sua vontade que foi elevado a tal honraria. Eis como ele se exprime numa carta ao nobre Narsés: "Ao me escrever sobre a doçura da contemplação, você faz renascer em mim os gemidos de minha ruína, porque perdi a calma interior ao ser colocado neste cargo sem merecê-lo. Saiba que é tanta a dor que sinto que mal posso dizê-la (...)".

(...)

Como a peste ainda fazia estragos em Roma, ele ordenou que na época da Páscoa fosse feita , como de costume, uma procissão em torno da cidade cantando litanias. Com grande reverência levou-se nessa procissão uma imagem que está em Roma , na igreja de Santa Maria Maior, e que dizem representar com muita semelhança a bem-aventurada Maria sempre virgem, por ter sido pintada por Lucas, médico e excelente pintor. O ar corrompido e infectado afastava-se para abrir caminho à imagem, como se não pudesse suportar a presença dela, de forma que por onde a imagem passava ficava uma maravilhosa serenidade e o ar readquiria toda sua pureza. Conta-se que se ouviram então as vozes do anjos cantarem diante da imagem: "Alegre-se Rainha do Céu, aleluia, porque Aquele que você mereceu carregar dentro de si, aleluia, ressuscitou, aleluia". A isso São Gregório Magno acrescentou: "Reze a Deus por nós, te rogamos, aleluia". Então São Gregório viu, sobre o castelo de Crescêncio, o anjo do Senhor limpando uma espada ensangüentada, que pôs de volta na bainha. São Gregório compreendeu que a peste tinha cessado, o que de fato aconteceu. O castelo recebeu então o nome de Sant'Angelo**.


* Litania é uma prece litúrgica de súplica, muito usada pelos medievais especialmente durante a procissão dos três dias anteriores à Ascensão e chamada de Rogações.

** Trata-se, ainda hoje, de um dos mais célebres monumentos de Roma. Construído em 130 para ser mausoléu do imperador Adriano, ali foram sepultados todos seus sucessores do século II. Em 271 Aureliano transformou-o em fortaleza, função que teve por toda Idade Média, servindo de prisão e de principal refúgio para o papa quando das freqüentes revoltas que a cidade de Roma conheceu na época.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Como escolher um estado de vida

Maria, desde os primórdios de sua vida, só a Deus buscava e amava. Por isso, merecera de Deus todas as bênçãos, e, sobretudo, a preparação de um estado tal como fora necessário, a fim de que na pessoa da santíssima Virgem se cumprissem os adoráveis oráculos de Deus.

Para obter uma feliz vocação, é mister que haja um concurso de coisas e circunstâncias que a Providência habitualmente reserva às almas fiéis, aquelas almas que O consultam sobre a escolha de um estado. Poderá esperar que lho reserve Deus alguém que tenha aquiescido aos funestos impulsos das  suas paixões?

A Providência recolhe no Seio de Maria, por seu casamento com São José, o precioso fruto das virtudes que ela com fidelidade praticou. Se só ao mundo tivessem consultado sobre a união de Maria com um esposo, sem dúvida teriam escolhido um homem rico, ou distinto pelo seu talento, ou outros dons, menos, porém, um homem de virtudes, um homem que vivesse desde a infância no temor de Deus. Não por esta última forma age o mundo, senão da outra.

Vistas interesseiras, considerações meramente humanas servem de princípio à maior parte dos casamentos. Conclusões se tiram das premissas dos bens materiais antes que do tesouro das graças.

Daí o grande número de insucessos matrimoniais, em que dois esposos mutuamente vão vivendo o seu martírio.

Assim o permite Deus para vingar, ainda nesta vida, o não ter sido consultado sobre um negócio, cujo êxito depende de Sua sábia direção. Assim, ele o permite como punição de se não ter feito, desde a mocidade, pela prática de virtudes, digno de sua proteção. A escolha dos pais de Maria, ou melhor a escolha de Deus recaiu em José, homem justo, o mais virtuoso dos homens que já nesta Terra existiu, o esposo mais digno da mais digna das virgens. Jamais casamento algum poderia ser mais venturoso que esse. Nem jamais houve corações que se alegrassem ao ponto dos de Maria e José, tão santamente unidos. A paz reinante naquelas almas, quem a poderia alterar?

É que Maria e José se achavam colocados no estado em que Deus os quis.

Muitos há que vivem descontentes do seu estado. Muito sofrem estes e muitas vezes aos outros fazem sofrer.

A razão disso está em terem procurado um estado no qual não os queria Deus.

Neles, bem se ajustam as palavras do profeta:

"Ai de vós, filhos desertores de minha Providência, que vos aconselhastes, sem me consultar" (Is 30, 1). A graça da vocação é uma graça importante que encerra em si mesma uma infinidade de outras. Se com a fidelidade se falta a esta graça, inútil será esperar pelas demais. Se se afasta da ordem desta Providência especial, que prepara graças de eleição para quem esteja disposto a se conformar com a vontade divina, logo se cai na ordem de uma providência comum, que só fornece graças comuns, com as quais alguém se poderá salvar, porém faz temer que se não salve, ou ao menos que só se salve dificilmente.

Consulta, pois, e roga ao Senhor, sobre a escolha de um estado, antes que deliberes, e dize como o profeta: "Fazei-me conhecer, Senhor, os caminhos por onde deverei seguir!" (Sl 142, 8).

Vive, alma cristã, de modo tal que em ti o Senhor não veja um indigno de seus cuidados. Se claramente não percebes a vontade de Deus, consulta os que são aqui encarregados ou delegados de Deus, aos quais compete iluminar-te a respeito do que tenhas de fazer.

Jesus prostrou por terra a Saulo no caminho de Damasco, mas não lhe explicou os seus desígnios a respeito dele, senão que o enviou a Ananias, para que assim o conhecesse.

Não consultes nem aos teus pais senão na medida em que o dever to exige. Pode acontecer, infelizmente, que os pais dêem a seus rebentos, a respeito de vocações, conselhos em conformidade com as máximas do mundo. "Os inimigos do homem estarão na sua casa" (Mt 10, 36).

Em suma, é prudente te aconselhares com a morte, isto é, decidires como certamente o farias, se fosse aquela hora em que deliberas a última hora da tua vida.

Retirado do livro "Imitação de Maria".